Gabriel camara ramos


Capítulo III Engenho Central Rio Negro



Baixar 204.34 Kb.
Página7/27
Encontro09.02.2022
Tamanho204.34 Kb.
#21522
1   2   3   4   5   6   7   8   9   10   ...   27
TCC

Capítulo III

Engenho Central Rio Negro


Foi neste período de modernização do setor açucareiro no Brasil no final do século XIX, que foi fundado um engenho central, na freguesia de Santa Rita do Rio Negro, no município de Cantagalo. Atualmente, o local que abriga o antigo prédio do engenho pertence ao município de Itaocara. Apesar de ter sido denominado durante seu maior período de existência de Engenho Central Laranjeiras, devido estar localizado na antiga fazenda de mesmo nome, ele foi construído na década de 1880 sob denominação de Engenho Central Rio Negro. A concessão para instalação deste engenho foi outorgada através do decreto nº 9394, de 7 de maio de 188522, dando a Feliciano José Henriques e Jeronymo Cordeiro de Araújo Lima, seus sócios fundadores, a concessão para a fundação da companhia. Em seus estatutos, o primeiro artigo mencionava:

“Art. 1º Fica constituida, de accôrdo com as prescripções do Decreto n. 8821 de 30 de Dezembro de 1882, a companhia sob a designação de - engenho central Rio Negro, - sendo o seu fim fundar á margem do Rio Negro, no municipio de Cantagallo, freguezia de Santa Rita, um engenho central para fabrico de assucar de canna, aguardente e alcool, com os machinismos modernos os mais aperfeiçoados, e servido por linhas ferreas.”

Este documento também mencionava que o prazo de duração da companhia seria de 40 anos, mas poderia ser prorrogado conforme a deliberação da assembleia geral de seus acionistas. Além disso, o estatuto dizia que o capital social seria de 430 contos de réis, divididos em 2150 ações com um valor de 200$ cada uma, podendo ser elevado a 600 contos de réis, conquanto as despesas da fundação do engenho exigissem. Competiria a diretoria distribuir anualmente em dividendo entre seus acionistas os lucros sociais líquidos, depois de deduzir 2% para um fundo de reserva. Aos acionistas fundadores, por remuneração de seus serviços prestados, caberia a metade dos lucros líquidos que excedessem 18% ao ano23.

De acordo com Marcelo Graça24, o projeto inicial de instalação do Engenho Central Rio Negro era na Fazenda Boa Fé, às margens do rio Negro. Porém, devido a Leopoldina modificar o plano original da ferrovia que passaria por esta fazenda, os sócios e diretores do engenho sentiram a necessidade de mudar o local de sua construção, para que fosse possível o escoamento da produção25. Portanto, o engenho foi instalado na Fazenda das Laranjeiras, próximo a Estrada de Ferro da Leopoldina que posteriormente faria ligação a então freguesia de São José de Leonissa, atual cidade de Itaocara, importante produtora de café no período26.

A Companhia Engenho Central Rio Negro teve como primeiros diretores Antonio Van-Erven, o Dr. Galdino do Valle e Luiz Francisco de Paula27. Um dos seus maiores sócios foi Bernardo Clemente Pinto Sobrinho, o primeiro conde de Nova Friburgo, filho de Antônio Clemente Pinto, o primeiro barão de Nova Friburgo, um dos homens mais ricos do Brasil Império. O primeiro conde de Nova Friburgo cedeu a Fazenda das Laranjeiras, que era de sua propriedade, para a construção do dito engenho28.

Segundo José Evandro de Melo, o fato de os engenhos centrais serem construídos em municípios cafeeiros, demonstra que existia um desejo de diversificar a produção nestes locais. De acordo com este autor, foi da atividade cafeeira que vieram os capitais para construção do engenho central instalado no município de Cantagalo (MELO, 2009, p.192). Observa-se que alguns sócios e diretores desta companhia tinham realmente seus negócios ligados ao café, o que corrobora com a ideia que estes empreendedores buscavam uma diversificação em seus empreendimentos.

Seus sócios fundadores eram ligados a cafeicultura. Feliciano José Henriques, por exemplo, era um desses homens que tinha suas atividades ligadas ao café. De acordo com o periódico “O Fluminense”, em edição do ano de 1879, Feliciano José Henriques fez requerimento a fim de transportar gratuitamente na Estrada de Ferro de Cantagalo mil mudas de café da Libéria29. Também Jeronymo Cordeiro de Araújo Lima tinha seus empreendimentos em torno do café, como menciona o “Jornal do Comércio” em edição de 6 de outubro de 1874: “Jeronymo Cordeiro de Araújo Lima, cidadão brasileiro, com comércio de café de conta própria e comissões nesta praça” 30.

Antonio Van Erven, um dos diretores da companhia, é outro exemplo. Este, recebeu de herança de seu pai, Jacob Van Erven, a Fazenda Santa Clara, onde continuou a dar prosseguimento ao trabalho do cultivo de café31. Do mesmo modo, Bernardo Clemente Pinto Sobrinho herdou do pai muitas fazendas cafeeiras32. A própria Fazenda das Laranjeiras, onde construiu-se o engenho, possuía plantação de café33. A sociedade entre as famílias Clemente Pinto e Van Erven não tem início com a fundação desta companhia, pois o primeiro barão de Nova Friburgo sempre desenvolveu seus negócios em parceria com o engenheiro Jacob Van Erven (MARRETOS, 2019, p.16).

Para Melo, essa tentativa de diversificação dos negócios se deve ao fato da atividade do café estar em declínio nos municípios cafeeiros, o que levou os empreendedores a investirem seus cabedais na fundação dos engenhos centrais (MELO, 2009, p.192). O “Jornal do Agricultor”, em edição do ano de 1887, relata que o Engenho Central Rio Negro foi construído em uma região do qual o café “dava as mostras da maior decadência”34. Porém, de acordo com Marretos, a atividade cafeeira em Cantagalo nos anos de 1870 e 1880, ao contrário das áreas ocidentais da Bacia do Paraíba, não demonstrava sinais de crise (MARRETOS, 2019, p.69). Seja qual for o motivo que levou a construção deste engenho, percebe-se que estes homens buscaram diversificar seus investimentos que estavam ligados a atividade cafeeira.

O Engenho Central Rio Negro, assim como a maioria dos engenhos centrais fluminenses, não foi construído com garantia de juros sobre o capital investido (MELO, 2009, p.192). Os maquinários que serviram ao engenho foram adquiridos da companhia francesa Brissoneau Frères (MEIRA, 2007, p.98). No ano de 1885, a companhia deu início a construção de um ramal férreo particular que se estenderia até a Fazenda Boa Fé, com um ramal que fazia ligação a Conceição de Estrada Nova35, atualmente o 5º distrito de Itaocara. A inauguração do engenho ocorreu em 7 de agosto de 1886, como noticiou o “Paiz”:

“Inaugurou-se no dia 7, no município de Cantagallo, o Engenho Central Rio Negro. (...) A cerimonia do benzimento das machinas e do edificio realizou-se, às 10 horas, encarregando-se do acto religioso o Revd. Padre José Joaquim Pereira de Carvalho, vigário de S. José de Leonissa, e servindo de padrinhos os Srs. Drs. Elias de Moraes e Marques da Cruz. Em seguida, puzeram-se em movimento os apparelhos da fabrica, tendo corrido bem o processo de transformação do caldo da canna no mais límpido e crystalino assucar.”36

Em suas primeiras safras, o engenho parece ter obtido um bom desempenho no que diz respeito a qualidade do açúcar. O “Jornal do Agricultor” menciona que o faturamento obtido com a comercialização de açúcar na primeira safra do engenho foi de 97:035$44137. Nesta mesma edição, o periódico relata que a amostra de açúcar da segunda safra era granulada e claríssima, razão pelo qual fazia seus produtos se destacarem no mercado do Rio de Janeiro38. O Engenho Central Rio Negro recebeu premiação na “Primeira Exposição Brasileira de Açúcares”, organizada no ano de 1889, devido a qualidade do seu produto (MEIRA, 2012, p.91).

Félix Ferreira Machado, em sua obra “A Provincia do Rio de Janeiro”, publicada no ano de 1888, fez menção ao Engenho Central Rio Negro, relatando que este estabelecimento era iluminado a luz elétrica e estava montado com aparelhos modernos e aperfeiçoados, podendo as moendas esmagar 240 toneladas de cana em 20 horas (MACHADO, 1888, p.56). Além destes equipamentos mencionados pelo autor, a diretoria instalou um centro telefônico entre os fazendeiros, a fim de que pudesse manter a comunicação a respeito do fornecimento de cana para o engenho39 . A companhia também buscou prolongar seu ramal férreo até Valão do Barro, freguesia de Santa Maria Madalena40.

Um dos grandes problemas enfrentados por este engenho, assim como os demais, foi a dificuldade de concorrência no mercado interno com os produtos dos antigos engenhos tradicionais e banguês, pois a população não tinha o hábito de consumir o açúcar cristalizado. Segundo Meira, muitos engenhos centrais em alguns momentos, tiveram que se apoiar na produção de açúcares inferiores e de aguardente para continuarem existindo (MEIRA, 2012, p.122). Assim menciona o relatório do Centro da Indústria e Comércio de açúcar do Rio de Janeiro (CICA):

“Procuraram com louvável zelo, aperfeiçoar a cristalização e a nitidez dos seus produtos, procuraram fornecê-los ao consumo diretamente em cristais ou pulverizados, mas essa tentativa não teve êxito (...) É por isso, talvez, que, depois de engenhos notáveis como Quissamã, Lorena, Rio Negro, Pureza, (...) terem apresentado cristais brancos admiráveis, mas de elevado custo, e, mais tarde, ensaios de amostras de açúcar pulverizado de superior qualidade, estão vendo-se na obrigação de recuar e tendem a produzir tipos de exportação, primitivamente destinados aos refinadores nacionais e estrangeiros”41

No ano de 1888, a companhia passou por uma reforma de seus estatutos, através da aprovação do decreto nº 9.830. Segundo este decreto, o capital social da companhia que era de 430 contos de réis, passou a ser de 600 contos de réis, divididos em 3000 ações no valor nominal de 200$ cada uma. Além disso, mencionava que os possuidores das novas ações que não fossem pontuais na realização de suas entradas nos prazos fixados pela diretoria, perderiam as prestações que já tivessem sido efetuadas. O documento também dizia que a companhia seria administrada por uma diretoria composta por três membros, eleitos em assembleia geral, tendo cada um deles um vencimento anual de 4 contos de réis. O prazo de duração da companhia continuava sendo de 40 anos42.

Apesar do bom desempenho em suas primeiras safras no que diz respeito a qualidade do açúcar, a Companhia Engenho Central Rio Negro enfrentou sérios problemas financeiros. Segundo o relatório apresentado por sua diretoria à Assembleia Geral Ordinária no ano de 1888, a companhia possuía uma dívida no valor de 290 contos de réis, sem contar as despesas de sua fundação. Conforme o mesmo documento, os gastos com funcionários dos setores de produção em sua segunda safra chegaram a 40:196$670, bem superior se comparado a sua primeira safra, cujo o valor foi de 27:344$. Do mesmo modo, as despesas com a manutenção das locomotivas da companhia cresceram de 4:454$ na primeira safra, para 6:642$124 na segunda safra43.

O mesmo relatório mencionava que havia no armazém da empresa cerca de 3000 sacos de açúcar que não conseguiram ser comercializados. Além disso, seus diretores reclamavam da dificuldade de obterem bons preços na venda do açúcar. Seu rendimento de produção era considerado muito baixo, com um valor de 8,22% na primeira safra, tendo um desempenho ainda pior na segunda safra, com 6,53%. Embora apresentasse todos esses prognósticos negativos, a diretoria relatava que não faltava fornecimento de matéria prima, nem de combustível44, fatores que foram responsáveis pela falência de muitas companhias neste mesmo período.

Diante das dificuldades encontradas, a Companhia Engenho Central Rio Negro foi dissolvida na primeira década de existência. No ano de 1889 ela foi liquidada, três anos após sua inauguração. O Gazeta de Notícias atribui esse fracasso a má gestão de seus fundadores e demais diretores, criticando o atraso por parte desses em quitar as dívidas com os antigos funcionários da empresa45. No documento de apelação da liquidação comercial da companhia, tendo como apelante o primeiro conde de Nova Friburgo, consta que o motivo da dissolução da sociedade se devia a falta de capitais.

Diz a sociedade anonyma Engenho Central Rio Negro. Com sede neste município, por sua directoria e por deliberação da assemblea geral dos seus accionistas, que se acha em estado de insolubilidade, tendo perdido quase todo, senão todo o seu capital, que não pode cobrir o passivo, e por tanto em condições, que não pode evitar, vem requerer a sua liquidação forçada nos termos do art. 17 da lei no 3,150 de 4 de Novembro de 1882 e 97 do Dec. no 8821 de 30 de Dezembro de 1882: por isso juntando o balanço do activo e passivo da mesma sociedade, acta que mostra ter sido resolvida a liquidação, pr copia, e relação dos credores, vem a directoria, pr seu presidente, requerer a V. S que, independentemente de quaesquer diligencias, de conformidade no disposto no art. 99 do dec. Citado decrete a sua liquidação judicial nomeando dentro do maiores credores dois syndicos que tomem posse do patrimônio social procedendo nos demais termos da liquidação46.

Neste mesmo documento, constavam os nomes dos credores da companhia. A comissão encarregada da verificação e classificação dos créditos da sociedade chegou a conclusão após um exame, que os credores preferenciais eram: D. Basilia Rodrigues de Moraes (149:200$000); Pedro Antonio de Moraes (40:400$000); Dr. Elias Antonio de Moraes (188:000$000); Tenente Vicente de Moraes (56:800$000); Dr. Galdino Antonio do Valle (78:600$000); Alfredo Lopes Martins (8:000$000); Mario Amandino Martins (1:000$000); Alvaro Lopes Martins (1:000$000); Lourenço Martins (800$000); José Clemente Pinto (12:000$000); João de Moraes Martins (4:800$000); Luiz Francisco de Paula (600$000); Comendador José Alves Pereira (8:200$000); Dr. Angelo de Mendonça Franco (26:000$000); Domingos Pereira de Lemos (1:600$000)47.

A comissão também julgou os credores “chirographarios”, ou seja, os credores simples, não privilegiados. Entre estes se destacam48: Operários e mais empregados (25:221$757); Antonio Lourenço da Costa (7:364$689); Andrew Steele (2:417$480); Alberto Augusto Bellieni (2:132$929); Agencia no Rio de Janeiro (Van Erven Companhia) (8:999$415); Antonio $ Bernardo Van Erven (3:956$727); conde de S. Clemente (2:119$958); conde de Nova Friburgo (38:232$389); Domingos Pereira Lemos (2:618$033); Dr. Elias Antonio de Moraes (15:582$100); Francisco José Thomaz (1:017$007); Francisco Dias Ferreira (10:883$371); Fortunato dos Santos Gomes (3:790$410); Dr. Felippe Aristides Caire (4:405$413); Fazenda Santa Bárbara (6:091$396); Comendador José Alves Pereira (16:985$805); José Clemente Pinto (2:885$937); Dr. João Damasceno P. Mendonça (7:563$618); D. Joaquina Angelica do Nascimento (2:179$605); Belleni $ Filho (3:699$255); Brandão Compª (3:938$720)49.

Bernardo Clemente Pinto Sobrinho também é citado como credor por letras, com um crédito no valor de 118:692$145. O documento apresentava um inventário do engenho, constando que este possuía um edifício principal construído de alvenaria de tijolo e cobertura, sala de fermentação e de luz elétrica, escritório, restaurante, enfermaria, casa de operários, casa do gerente, galpão e linha férrea. Além disso, mencionava todos os aparelhos pertencentes a companhia, como as duas locomotivas, carro misto de passeio, aparelhos usados na produção, dentre outros. O valor total do inventário era de 646:573$19050.

Diante desse processo de dissolução, parte de seus credores optaram por constituir uma nova sociedade, dando prosseguimento as atividades do engenho, formando assim a Companhia Novo Engenho Central Rio Negro. Seus estatutos foram aprovados pelo decreto n.8821 de 30 de novembro de 1891. O documento relatava que a nova companhia teria como finalidade continuar a fabricação de açúcar e aguardente de cana em larga escala. O seu capital inicial seria do ativo social da extinta companhia, avaliado em 646:573$16951, divididos em ações de valores iguais e distribuídos entre os credores privilegiados na proporção de seus direitos. Ficava autorizada a diretoria promover a compra ou arrendamento de terrenos, fazer contratos para o fornecimento de cana e contratar empregados caso fosse necessário52. A Ata da Assembleia de constituição da nova sociedade relatava que uma grande parte do capital da antiga companhia, no valor de 245:744$, deveria ser destinado ao conde de Nova Friburgo, uma vez que este era considerado por sentença credor privilegiado sobre o ramal férreo53.

A Companhia Novo Engenho Central Rio Negro empregou trabalhadores imigrantes chineses, conhecidos como os “chins”. Em um dos contratos firmados entre a companhia e um desses trabalhadores, conhecido por Cliociong, mencionava que as horas de trabalho não excederiam a 10 horas diárias, o salário mensal seria de 10 dólares americanos, direito à alimentação e cuidados médicos, dentre outras garantias54. De acordo com Daniel de Pinho Barreiros, esta parceria entre a companhia e os imigrantes não teve êxito, devido conflitos referentes a questões salariais. Os trabalhadores desejavam serem pagos por dia de serviço, no entanto, o empregador pagava-lhes pelas horas de trabalho efetivamente realizadas. Muitos desses imigrantes se negaram a assumir seus postos de trabalho e passaram a exigir alimentação nos dias não trabalhados (BARREIROS, 2016, p.110). O ápice desse conflito ocorreu em janeiro de 1894, quando cerca de 30 trabalhadores chineses abandonaram o trabalho e seguiram em protesto para a cidade de Itaocara (BARREIROS, 2016, p.109).

No que diz respeito a qualidade do açúcar, o engenho sob esta nova administração parece não ter conseguido manter o padrão de qualidade comparado suas primeiras safras. O “Auxiliador da Indústria Nacional”, em edição de janeiro de 1892, menciona que o açúcar do Engenho Central Rio Negro ocupa o segundo lugar na classificação comum, devido sua relativa fraqueza sacarina, alcançando apenas o 11º lugar na classificação da pureza do produto55. A Companhia Novo Engenho Central Rio Negro também teve um breve período de existência, indo a leilão no ano de 1897, como noticiou o Jornal do Comércio:

“A directoria da Compnahia Novo Engenho Central Rio Negro vende pela quantia de 20.000 libras esterlinas (ou pela quantia correspondente em qualquer moeda) uma grande usina de assucar e alcool situada no municipio de Cantagallo, Estado do Rio de Janeiro, á margem da Estrada de Ferro Leopoldina, estação de Laranjeiras. Esta usina acha-se em perfeito estado de conservação e está montada com os mais completos e modernos apparelhos installados á capricho em sólidos e grandiosos edificios de pedra, ferro e tijolos, produz o melhor assucar que tem apparrecido no mercado do Rio e acha-se collocada em zona fertilissima, onde possue quinhentos e tantos hectares de terras cobertas de cannaviaes mattas virgens, pedreiras de cal e cortada em grande extensão por linha ferrea agricola.”56

No ano de 1905, o engenho foi adquirido pelo Coronel Luiz Corrêa da Rocha57. Foi o fim do sistema de administração do engenho através da formação de sociedades. Na gestão da família Corrêa da Rocha, o engenho passou a ser denominado Engenho Central Laranjeiras, transformando-se posteriormente em uma grande usina. No ano de 1972, a Usina Laranjeiras encerrou definitivamente suas atividades (BOTELHO, 2011). Desde então, nunca mais voltou a produção, e as residências domiciliares que serviam aos seus empregados estão ocupadas pelos antigos funcionários da empresa.

Percebe-se que a construção do Engenho Central Rio Negro ocorreu em um contexto histórico no qual o Brasil passava por um processo de modernização de seu setor açucareiro. Muitos empreendedores viram na construção dos engenhos centrais uma grande oportunidade de investimento. Observa-se, que grande parte do capital usado na construção desse engenho foram provenientes da atividade cafeeira, uma vez que alguns sócios já mencionados tinham seus negócios ligados ao café. A fundação desse engenho, assim como grande parte dos engenhos centrais construídos no período, se deu através da formação de uma sociedade, onde aqueles que dispusessem de capital suficiente poderiam se tornar sócios da companhia.

Verifica-se, que muitos desses sócios eram membros de uma mesma família, pois ao analisar o documento de apelação do primeiro conde de Nova Friburgo, referente a liquidação da companhia, nota-se que alguns sobrenomes, como Moraes, Martins e Clemente Pinto se repetem muitas vezes. Na família Clemente Pinto, por exemplo, os dois irmãos, Bernardo Clemente Pinto (primeiro conde de Nova Friburgo) e Antônio Clemente Pinto Filho (conde de São Clemente), filhos do primeiro barão de Nova Friburgo, se tornaram sócios da companhia. Apesar do bom desempenho da qualidade de seus produtos, a Companhia Engenho Central Rio Negro, assim como grande parte das companhias existentes do período, teve um breve período de existência. Embora nenhuma das fontes encontradas apresente o motivo específico de sua liquidação, percebe-se que a companhia perdeu quase todo seu capital. O esforço de alguns de seus antigos sócios em constituir uma nova sociedade, não teve muito êxito, pois o engenho foi a leilão logo nos primeiros anos da fase dessa nova administração.

Em última análise, observa-se que este engenho, assim como os demais fundados no mesmo período, foi construído com grandes expectativas por parte de seus fundadores. O Engenho Central do Rio Negro foi montado com equipamentos modernos e aperfeiçoados para a produção, além de contar com uma grande linha férrea para o transporte de matéria prima. Os sócios desta companhia se sentiram atraídos pela política do governo imperial de modernização do setor açucareiro com a implementação dos engenhos centrais, uma vez que estes pareciam ser um bom investimento, que ofereceria uma alta rentabilidade econômica.

Embora os sócios imaginassem que o engenho teria um futuro promissor, o Engenho Central do Rio Negro, assim como os demais engenhos centrais, sofreu com a concorrência dos açúcares produzidos pelos antigos engenhos banguês. Além disso, a falta de experiência dos seus diretores com este novo método de produção contribuiu para a sua decadência. Esta companhia não conseguiu enfrentar os problemas existentes no período, e foi liquidada logo nos primeiros anos de existência. As expectativas desses empreendedores que tinham seus negócios ligados ao café, e viram na produção de açúcar uma possibilidade de diversificar seus negócios, foram rapidamente frustradas.















Baixar 204.34 Kb.

Compartilhe com seus amigos:
1   2   3   4   5   6   7   8   9   10   ...   27




©historiapt.info 2022
enviar mensagem

    Página principal