Gabriel camara ramos


Capítulo II Os Engenhos Centrais



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Capítulo II

Os Engenhos Centrais


O governo imperial buscou fomentar a instalação dos engenhos centrais por todo país, através do decreto nº 2687, de seis de novembro de 1875, que concedia garantia de juros de 7% ao ano sobre o capital de 30.000 contos de réis a todos que estivessem dispostos a instalar essas modernas fábricas. Foi na província do Rio de Janeiro que foi instalado o primeiro engenho central do país, o Engenho Central de Quissamã. Este engenho localizava-se em Quissamã3, no norte fluminense. A Companhia Engenho Central de Quissamã teve a autorização para o seu funcionamento e aprovação de seus estatutos, no mesmo dia da promulgação do decreto nº 2687, e foi inaugurado em 12 de setembro de 1877. A companhia não requisitou a garantia de juros sobre seu capital de 1000 contos de réis (MELO, 2009, p.181).

Um dos seus fundadores foi João José Carneiro da Silva, o barão de Monte Cedro. João José Carneiro da Silva teve a ideia de reunir em uma única fábrica alguns dos engenhos de menor porte existentes em Macaé, que pertenciam às famílias Carneiro da Silva, Ribeiro de Castro, Almeida Pereira e Queirós Matoso. A maioria dos acionistas dessa companhia eram ligados por laços familiares (MEIRA, 2012, p.81). O Engenho Central de Quissamã já apresentava sinais de crise nos primeiros anos de existência. A companhia pegou um empréstimo no valor de 1.400 contos de réis com o Banco do Brasil para conclusão de suas obras. Esta dívida, fez com que uma parte considerável dos seus lucros fosse destinada a amortização do débito e ao pagamento de juros, o que gerou um adiamento da distribuição dos primeiros dividendos entre os seus acionistas (MEIRA, 2012, p.182).

De acordo com Sônia Bayão Rodrigues Viana, um grande problema enfrentado pelo Engenho Central de Quissamã, era o fato de ter aplicado em sua produção uma matéria prima de baixa qualidade. Isso se devia, segundo a autora, às frequentes variações climáticas da região (VIANA, 1981, apud, MEIRA, 2012, p.149). O Engenho Central de Quissamã, diferente dos demais engenhos centrais do período, era frequentemente citado nos relatórios dos engenheiros fiscais como o único engenho central que possuía uma maior disponibilidade de canas, devido ter adotado a proposta de associativismo, que defendia que os fornecedores seriam os próprios acionistas da empresa. Tal iniciativa foi de extrema importância para a sobrevivência deste engenho, que pôde pagar um preço mais baixo pela matéria prima (MEIRA, 2012, p.154).

No norte desta província também foram instalados outros engenhos. O Engenho Central de Barcellos foi construído em São João da Barra, e inaugurado no ano de 1878. Seu fundador foi Domingos Alves Barcelos Cordeiro, o barão de Barcellos (MEIRA, 2007, p.42). O “Almanak Administrativo, Mercantil e Industrial do Rio de Janeiro”, em edição do ano de 1880, menciona que este engenho não precisou lançar mão da garantia de juros sobre o capital de 600:000$ que lhe era concedida pelo decreto nº. 6281, de nove de agosto de 1876, e seu capital inicial de 600:000$ foi dividido em 3.000 ações de 200$ cada uma4.

O Engenho Central de Barcellos foi um dos poucos em adotar o método de difusão5. O barão de Barcelos defendia tal método como uma forma de evitar o grande prejuízo gerado pelas perdas do caldo de cana (MEIRA, 2012, p.136). Contudo, esse processo de separação não conseguiu obter os resultados esperados, sendo tal sistema substituído rapidamente pelas moendas (MEIRA, 2012, p.235). O Engenho Central de Barcellos, assim como o de Quissamã, foi desenvolvido através de empréstimos bancários, o que gerou o acúmulo de dívidas da companhia (MEIRA, 2012, p.132). Outro problema enfrentado por este engenho, foi o alto gasto com combustíveis. Em sua segunda safra o Engenho Central de Barcellos teria gasto 47:483$000 para obtenção de lenha, um valor considerado muito alto para aquisição de combustível (MEIRA, 2012, p.139). Os Engenhos Centrais de Barcellos e Quissamã não declararam falência nas primeiras décadas de existência, e se transformaram em usinas no século XX.

Outro engenho fluminense que teve grande destaque no período foi o Engenho Central Bracuhy, que se situava no município de Angra dos Reis. O governo imperial concedeu concessão a Companhia Engenho Central Bracuhy pelo decreto n. 8054, de 24 de março de 1881, garantindo 7% de juros sobre o capital de 500 contos de réis a Manoel Caetano da Silva Lara6. Sua inauguração ocorreu no dia 26 de outubro de 1884, sendo, segundo o “Monitor Campista”, o primeiro engenho central do mundo a ser construído para aplicação do processo de difusão do açúcar7. O periódico “Novidades”, em edição de novembro de 1888 fazia menção a este engenho, relatando que “a qualidade do producto daquelle engenho não póde ser melhor. O assucar crystallizado não deve temer não só a competência do paiz como do estrangeiro”8.

De acordo com Meira, o Engenho Central Bracuhy teve sérios problemas no que diz respeito à disponibilidade de mão de obra, uma vez que os trabalhadores nacionais possuíam pouco conhecimento técnico sobre o processo de fabricação do açúcar. Além disso, a autora chama atenção para o elevado consumo de combustíveis, devido ao processo de difusão demandar grande quantidade de água que se misturava ao caldo e também por não poder queimar o bagaço. Logo, este engenho assim como o de Barcellos substitui o processo de difusão pelas moendas (MEIRA, 2012, p.137).

Assim como a maioria dos engenhos no período, o Engenho Central Bracuhy sofreu com a escassez de matéria prima. O “Monitor Campista” em setembro de 1886 mencionava que “A falta de materia prima infelizmente não permittio trabalho mais regular e prolongada neste Engenho”9. Percebe-se que este foi o principal problema que contribuiu para o seu malogro. Sua concessão foi declarada caduca no ano de 1889 justamente pela falta de matéria prima, como noticiou a Revista de Engenharia:

“Por decreto de 3 do corrente foram declaradas caducas as concessões seguintes: I- Da garantia de 7% sobre o capital de 500:000$ outorgada á companhia Engenho Central de Bracuhy por decreto de 24 de Março de 1881 para estabelecimento de um engenho central destinado ao fabrico de assucar de canna no municipio de Angra dos Reis, da provincia do Rio de Janeiro, visto não ter contractos em vigor para fornecimento de cannas na quantidade suficiente á moagem diária de 150.000 Kilogramas, pelo menos, durante 100 dias em cada anno ou 15.000 toneladas em cada safra;”10

No norte da província fluminense também foi instalado outro importante engenho, o Engenho Central de Pureza. Sua fundação ocorreu no ano de 1885, no município de São Fidélis, sendo instalado nas terras da Fazenda Pureza, que era propriedade de colonos franceses (DA SILVA; MIRANDA, 2019, p.3). Os fundadores da Companhia Engenho Central de Pureza foram os senhores Hermano Joppert, Paulo Furquim, Severo de Almeida e Raphael Sanches11. O início de suas operações ocorreu em 1 de outubro de 188512. As cláusulas desta companhia em seu terceiro artigo mencionava que o seu capital inicial seria de 800 contos de réis, divididos em 4000 ações, de 200$ cada uma13.

O Engenho Central de Pureza, assim como o de Quissamã e o de Barcelos, não foi fundado através da garantia de juros sobre o capital investido (MELO, 2009, p.192). Segundo o periódico “O Paiz”, a produção de canas para o dito engenho era feita pela mão de obra livre. Esta empresa fornecia terras aos lavradores que estivessem dispostos a tornarem-se fornecedores para o engenho, contudo, o preço a ser pago pela cana seria fixado em cada ano pela companhia, que buscava garantir desse modo o baixo preço da matéria prima. Além disso, a companhia reservou parte de suas terras para a própria produção de cana de açúcar, com o objetivo de obter a matéria prima a preço de custo14. Logo nos primeiros anos de existência, o “Jornal do Commercio” em edição de agosto de 1887, fazia menção a prosperidade desse engenho, assim como os benefícios que ele trouxera ao município de São Fidélis:

“O Engenho Central da Pureza é outro desses commettimentos, sobre o qual já podemos exhibir conclusões definitivas. Alli está proscripto o trabalho servil. (...) Accresce que antes da fundação da empreza, a antiga colonia do Vallão dos Veados, como quasi todas as nossas colonias internadas, definhava por falta de animação, de capitaes, de sahida dos productos. A` roda da nova exploração, no municipio de S. Fidelis, a praga do café devastara as plantações e não havia animo para tentar novas culturas nem novos agentes da producção. O trabalho escravo agonisava ao lado da arvore do café moribunda”15.

A Companhia Engenho Central de Pureza teve sua liquidação forçada 11 anos após sua fundação. Este mesmo jornal que noticiava o seu progresso nos primeiros anos de existência, também noticiou em edição de 10 de janeiro de 1896 a sentença do Dr. Caetano Pinto de Miranda Montenegro, Juiz da Câmara Comercial do Tribunal Civil e Criminal da Capital Federal, que decretava a liquidação forçada da dita companhia. Tal decisão devia-se ao fato de a Companhia Engenho Central de Pureza ser devedora da quantia de 31:209$410, por duas letras vencidas16, ou seja, a companhia estava endividada, e foi a leilão em 30 de junho do mesmo ano17.

A província de São Paulo, assim como a do Rio de Janeiro, modernizou o seu setor açucareiro no mesmo período. Nesta província, também foram instalados grandes engenhos centrais. O primeiro engenho central instalado em São Paulo foi o de Porto Feliz. A “Companhia Assucareira de Porto Feliz” teve seus estatutos aprovados pelo decreto 6.355, de 11 de outubro de 1876, ao qual o governo imperial concedeu a garantia de juros de 7% ao ano sobre o capital de 300 contos de réis (MELO, 2009, p.213). Seu capital social foi dividido em 1500 ações de 200$ cada uma, contudo, 94 acionistas subscreveram 875 ações. Sua direção era composta pelo desembargador Bernardo Gavião Peixoto, Joaquim Tavassos, barão de Três Rios e Antônio de Paula Leite de Barros (MELO, 2009, p.214).

A inauguração do Engenho Central de Porto Feliz ocorreu em outubro de 1878 (MELO, 2009, p.216). O fornecimento de matéria prima para o engenho se daria pelo rio Tietê, que permitiria também a ligação do engenho com a estação mais próxima da Estrada de Ferro Ituana (MEIRA, 2009, p.94). A “Companhia Assucareira de Porto Feliz” não obteve um resultado satisfatório em nenhuma das suas safras. Assim como quase todos os engenhos centrais, esse engenho encontrou dificuldades em obter um fornecimento de matéria prima proporcional a sua capacidade de produção (MEIRA, 2009, p.95). Sua moagem média de cana desde a sua fundação até o ano de 1883 teria sido de 7000 a 9000 Kg de cana por safra, porém, sua capacidade de moagem diária era de 150.000 Kg (MEIRA, 2009, p.95), ou seja, o engenho funcionou muito abaixo da sua capacidade de produção.

Para agravar ainda mais a situação da dita companhia, as dívidas contraídas com a construção do engenho não conseguiram ser pagas, devido ao alto valor dos juros (MEIRA, 2009, p.94). Face o contínuo balanço negativo, foi decretada sua liquidação forçada no ano de 1887, levando alguns de seus acionistas a formar uma nova sociedade anônima com a denominação de Engenho Central Paulista (MEIRA, 2009, p.95). De acordo com Melo, a nova companhia no ano de 1891 emprestou aos seus fornecedores um valor de 42:963$960, mas esse empréstimo não foi o suficiente para assegurar o fornecimento de cana. Os problemas climáticos que atingiram os canaviais paulistas prejudicaram as safras de 1893 e 1894, levando ao fim da companhia (MELO, 2009, p.366).

Outro engenho que se destacou em São Paulo foi o Engenho Central de Piracicaba, instalado no município de Piracicaba. A concessão para a sua instalação foi dada a Estevão Ribeiro de Souza Resende (barão de Rezende), a Antônio Correa Pacheco e a Joaquim Eugênio de Amaral Pinto, através do decreto nº. 8089, de 7 de maio de 1881, obtendo uma garantia de 7% sobre o capital de 400 contos de réis. Em 1º de julho do mesmo ano, seu capital aumentou para 500 contos de réis (MEIRA, 2007, p.102). Devido ao atraso da conclusão de suas obras, a concessão da Companhia Engenho Central de Piracicaba foi declarada caduca pelo decreto nº.9253, de 2 de agosto de 1884, o que levou a perder o direito a garantia de juros (MEIRA, 2007, p.103).

Os concessionários deste engenho buscaram utilizar os melhores maquinários disponíveis na época, sendo o primeiro engenho central do Brasil a introduzir as moendas de 8 cilindros, que eram superiores as de três cilindros. Além disso, implementaram o sistema de clarificação nas turbinas centrífugas por meio do vapor seco, e também um secador especial de açúcar. Este engenho também encontrou dificuldades no que diz respeito a falta de fornecimento de matéria prima (MEIRA, 2007, p.103). Na safra de 1885/86 a companhia esmagou 13.144.774 Kg de cana, e produziu apenas 893.790 Kg de açúcar, um rendimento de 6,77%, resultado muito insatisfatório (MEIRA, 2007, p.103). Sua dívida no ano de 1887 chegou à 669:208$443 (MELO, 2009, p.231), o que gerou sua liquidação forçada no mesmo ano. Posteriormente, o Engenho Central de Piracicaba foi vendido a uma companhia francesa (MEIRA, 2007, p.104).

Outro importante engenho situado nesta província foi o Engenho Central de Capivary. Sua concessão foi outorgada pelo decreto nº. 8.123, de 28 de maio de 1881, que concedia a Henrique Raffard a garantia de juros de 7 % sobre o capital de 500 contos de réis para o estabelecimento de um engenho central no município de São João de Capivari. Sua capacidade seria de 240 toneladas e a produção mínima de açúcar seria de 16 mil sacos. No ano de 1882, Henrique Raffart vendeu a concessão para uma companhia inglesa, a “The São Paulo Central Sugar of Brazil limited”. O Engenho Central de Capivary foi o único engenho central de São Paulo construído com capital estrangeiro (MEIRA, 2007, p.104).

Segundo o relatório do engenheiro fiscal Caminhoá do ano de 1885, o Engenho Central de Capivary era um exemplo a ser seguido pelos estabelecimentos congêneres, apresentando um aspecto satisfatório, que lembrava as grandes fábricas europeias e norte americanas (MEIRA, 2007, p.104). A companhia construiu uma vila para os seus operários, composta por hotel, açougue, padaria, agência de correio, armazéns de víveres, fábrica de cerveja e linha telefônica. Apesar desses prognósticos positivos, o Engenho Central de Capivay já em sua primeira safra encontrou dificuldades, devido a péssima qualidade da matéria prima (MEIRA, 2007, p.105).

A companhia sofreu com a falta de fornecimento de matéria prima, recebendo uma quantidade de cana bem inferior a capacidade de moagem de seu maquinário (MEIRA, 2007, p.106). Devido as dificuldades encontradas, seus credores no ano de 1885 optaram em arrendar o engenho pelo prazo de 15 anos ao engenheiro André Paturau (MELO, 2009, p.228). Contudo, no ano seguinte, os acionistas rescindiram o contrato e reassumiram novamente as dívidas da companhia (MELO, 2009, p.229). Assim como o Engenho Central de Porto Feliz, os problemas climáticos que atingiram os canaviais paulistas nos anos de 1893 e 1894 prejudicaram o Engenho Central de Capivary, que foi obrigado a fechar suas portas na última década do século XIX (MELO, 2009, p.336).

Outro grande engenho que se destacou na província paulista foi o Engenho Central de Lorena, situado no município de Lorena. A concessão para a sua instalação se deu pelo decreto 8.098, de 21 de maio de 1881. Este decreto concedia a garantia de juros de 7% ao ano sobre o capital de 500 contos de réis (MELO, 2009, p.222). Os concessionários da Companhia Engenho Central de Lorena foram os irmãos Antônio Moreira de Castro Lima e Joaquim José Moreira Lima, e os seus sobrinhos Arlindo Braga e Francisco de Paula Vicente Azevedo (MELO, 2009, p.222). Seus maiores acionistas eram membros das famílias Castro Lima, Azevedo e Braga, que eram ligadas por laços familiares (MELO, 2009, p.223).

As obras de construção do Engenho Central de Lorena tiveram início em setembro de 1883, com o prazo de 12 meses para a sua conclusão (MELO, 2009, p.225). Os custos com a sua instalação foram superiores ao capital de 500 contos de réis levantados inicialmente, chegando a um total de 606:134$361 (MELO, 2009, p.225). Segundo José Evandro de Melo, o Engenho Central de Lorena teve um resultado econômico superior se comparado aos demais engenhos centrais paulistas. De acordo com o autor, isso se devia em primeiro lugar pelo fato de todo o capital social ter sido integralizado pelos seus acionistas. Em segundo lugar, o pagamento de juros garantido pelo governo imperial proporcionou às primeiras safras pequenos lucros a companhia. Além desses fatos, houve a organização do trabalho agrícola para o suprimento de cana, com a criação do Núcleo Colonial das Canas (MELO, 2009, p.240). Contudo, este engenho central também sofreu com a falta de fornecimento de matéria prima (MEIRA, 2007, p.99). Além disso, segundo Meira:

“A situação da fábrica não era boa em vários aspectos. Sobressai-se nesse caso, os altos gastos de combustível, que chegaram a 31% do peso da cana moída. Era realmente um gasto astronômico se considerarmos que era aceitável para os engenhos centrais brasileiros um gasto como o do Engenho Central de Quissamã, que chegava, em média, a 18,5 %” (MEIRA, 2007, p.99).

O Engenho Central de Lorena sofreu com os baixos preços do açúcar no período. E para agravar ainda mais a situação desta companhia, os seus fornecedores entregaram uma cana de péssima qualidade nas safras de 1888 e 1889, o que levou a obter um rendimento de apenas 4,72% (MEIRA, 2007, p.101). Assim como o Engenho Central de Capivary e Porto Feliz, os problemas climáticos que atingiram os canaviais paulistas desorganizaram a lavoura dos seus fornecedores de cana, prejudicando as safras de 1893 e 1894, que acabou desestruturando a companhia, levando a sua dissolução no ano de 1901 (MELO, 2009, p.367).

A província de Minas Gerais também modernizou o seu setor açucareiro no período. O primeiro engenho central a ser instalado nesta província foi o Engenho Central de Aracaty, situado no município de Leopoldina. A concessão para sua instalação foi dada a Theophilo Domingues Alves Ribeiro e a Custódio José da Costa Cruz, através do decreto nº. 7508, de 1º de outubro de 1879, sobre a garantia de 7% de juros sobre o capital de trezentos contos de réis (MEIRA, 2009, p. 602). Devido ao atraso da conclusão de suas obras, sua concessão foi declarada caduca em 1881. No ano seguinte, seus acionistas conseguiram restabelecer a concessão, mas o governo imperial reduziu a 6% a garantia de juros (MEIRA, 2009, p.603).

Os gastos para instalação do maquinário deste engenho chegaram a 358:529$197 (MEIRA, 2009, p.303). Apesar deste considerável investimento, o engenheiro fiscal José Gonçalves de Oliveira chamava atenção em seus relatórios para a necessidade de melhoramentos que deveriam ser realizados na fábrica. Segundo ele, as fornalhas não conseguiam satisfazer as necessidades do engenho, gerando uma grande perda de combustíveis (MEIRA, 2009, p. 604). Um dos grandes problemas enfrentados foi justamente o elevado gasto com combustíveis. Seu consumo de lenha era de 670 toneladas, o que correspondia a 22% sobre o peso da cana. Segundo os relatórios anuais dos engenheiros fiscais, isso se devia ao engenho queimar todo bagaço ao sair da moenda, sem empregar aparelhos de dessecamento. Tal panorama só teria mudado no ano de 1887, quando a companhia mudou os seus fornos (MEIRA, 2009, p.605).

Entretanto, a maior dificuldade encontrada pelo Engenho Central de Aracaty, como a maioria dos engenhos centrais, foi a dificuldade em dispor de matéria prima suficiente para a produção. Esse fato devia-se a resistência dos fornecedores disponibilizarem a cana para o engenho. Apesar de o governo imperial ter concedido o pagamento da primeira parte da garantia de juros, no valor de 17:259$271, o Engenho Central de Aracaty seria fechado (MEIRA, 2009, p.606). Sua liquidação forçada aconteceu no ano de 1890, feito a pedido de seus próprios acionistas ao Dr. Antonio Joaquim de Macedo Soares, juiz de direito da 2ª vara comercial da capital federal18.

Em Minas Gerais também se destacou o Engenho Central do Rio Branco, que era situado no município de Visconde do Rio Branco na Zona da Mata Mineira. O governo imperial concedeu a garantia de juros de 7% sobre o capital de 800 contos de réis para sua fundação, que tinha como diretores o dr. José Artur de Murinelly, Lindolfo Martins e o dr. Antonio Paulo de Mello Barreto (MEIRA, 2009, p.602). Embora a companhia só conseguisse a autorização do império para a instalação do engenho em junho de 1885 pelo decreto 9.434, ela já havia recebido a concessão do governo provincial mineiro no ano de 1882 (RODRIGUES, 2012, p. 138). As obras para a sua construção tiveram início em 1884, e sua inauguração ocorreu em 7 de setembro de 1885 (RODRIGUES, 2012, p.142). Logo em sua primeira safra, o engenho conseguiu superar as expectativas no que diz respeito ao volume de produção. Assim menciona Lincoln Gonçalves Rodrigues:

“Acima das expectativas, na sua primeira safra, em 1885, o engenho ultrapassou a meta mínima diária, pois chegou a moer 218.208kg de cana, ou seja, moeu 58.208kg a mais, conforme a exigência em contrato. De igual modo, o rendimento do açúcar também ultrapassou o mínimo exigido e apresentou um percentual de 4,53%” (RODRIGUES, 2012, p.144).

No ano de 1886, em sua segunda safra, o engenho obteve um resultado ainda melhor se comparado a safra anterior. O açúcar fabricado na safra de 1886 foi de 621.660 Kg. Em relação ao percentual de extração do caldo da cana, na safra de 1886 conseguiu obter 69,7%, superior a safra de 1885, cujo o resultado foi de 66,7% (RODRIGUES, 2012, p.148). O Engenho Central do Rio Branco enfrentou dificuldades para a aprovação do quadro de pessoal e os vencimentos que deveriam ser pagos aos seus funcionários (RODRIGUES, 2012, p.144). Além disso, era de extrema importância para o engenho a redução dos custos de produção. Apesar do significativo rendimento da produção na safra de 1886, o valor das canas adquiridas chegou a 71:625$400, o que equivalia a 51,14% do faturamento (RODRIGUES, 2012, p.149).

Diante da série de dificuldades enfrentadas, o Engenho Central do Rio Branco foi vendido no ano de 1907 a um grupo de empreendedores franceses, por um valor de 20.000 libras esterlinas (RODRIGUES, 2012, p. 159). De acordo com Lincoln Gonçalves Rodrigues, o malogro da companhia devia-se a dois principais motivos. O primeiro, era pelo fato de o engenho ter uma enorme dificuldade em obter matéria prima, o que acabava por prejudicar o seu abastecimento. O segundo motivo, de acordo com o autor, se devia ao fato dos fazendeiros manterem os seus pequenos engenhos ativos, de modo que nos períodos de crescimento dos preços do açúcar, eles deixavam de fornecer a cana para o engenho central, e inseriam a sua produção de açúcar no mercado, o que gerava a queda dos preços do produto (RODRIGUES, 2012, p.157).

O Nordeste também não ficou de fora do processo de modernização do setor açucareiro no final do século XIX. Na província da Bahia foi instalado o Engenho Central Bom Jardim, o primeiro engenho central do Nordeste. Este engenho foi instalado em Santo Amaro, e seus proprietários foram Antonio Costa Pinto (visconde de Sergimirim), Antonio da Costa Pinto (barão de Oliveira) e Manoel Lopes da Costa Pinto (barão de Aramaré). A primeira concessão para sua organização foi dada em 10 de março de 1876, pelo decreto 6.145, que concedia a garantia de juros de 7% sobre o capital de 700 contos de réis. Contudo, essa concessão foi prorrogada por duas vezes, em dezembro de 1876 e em novembro de 1877. Sua inauguração ocorreu em 21 de janeiro de 1881 (CUNHA, 2004, p.87).

O Engenho Central Bom Jardim não obteve êxito em seus primeiros anos de funcionamento, e depois de uma série de prejuízos, foi vendido no ano de 1891 à Companhia Agrícola Usinas e Terras (RODRIGUES; ROSS, 2020, p.78). Segundo Gelze Serrat Rodrigues e Jurandyr Ross, um dos principais fatores que contribuíram para a decadência desse engenho foi o atraso por parte do governo imperial em concluir as obras da Estrada de Ferro Santo Amaro, o que fez com que todo material construtivo e as pesadas máquinas que serviriam ao engenho fossem transportadas por tração animal, levando a um aumento do custo inicial em 800 contos de réis. Esse atraso também prejudicou o escoamento das mercadorias do engenho aos portos do recôncavo baiano (RODRIGUES; ROSS, 2020, p.78).

Embora a Estrada de Ferro Santo Amaro fosse inaugurada no ano de 1883, ela não conseguiu satisfazer as necessidades de escoamento no período da safra, uma vez que as locomotivas empregavam um pequeno número de vagões (RODRIGUES, ROSS, p.78). De acordo com Eul-soo Pang, a abolição da escravidão teria sido o fator principal que levou a falência do Engenho Central Bom Jardim. Segundo este autor, o fim da escravidão teria privado os fornecedores de cana de mão de obra, fazendo com que a fábrica ficasse sem matéria prima para moagem (PANG, 1979, apud MELO, 2009, p.201).

Na província de Pernambuco, um dos primeiros engenhos centrais a ser construído foi o de Cuyambuca, situado no município de Água Preta. Este engenho foi fundado pela companhia inglesa “Brazilian Central Sugar Factories Company Limited”, e não gozava das garantias de juros19. Sua inauguração ocorreu no ano de 1881 (COSTA, p.2). O Engenho Central Cuyambuca enfrentou muitos problemas já nos seus primeiros anos de existência. Em 1883, os maquinários usados na produção quebraram, de modo que uma enorme quantidade de cana não pôde ser moída, acarretando um grande prejuízo aos fornecedores da matéria prima20. No ano seguinte, houve um grande acidente no engenho. A cobertura do edifício desabou, causando o ferimento de funcionários e um significativo dano material a empresa21.

Este engenho possuía cerca de 19 quilômetros de estradas de ferro para transporte de cana de seus fornecedores, tendo para esta função 2 locomotivas e 60 vagões (COSTA, p.11). Embora apresentasse uma boa estrutura para o transporte de matéria prima, os maquinários utilizados na produção eram considerados obsoletos para os padrões da época, o que interferiu no desempenho de sua produção, sendo, portanto, o fator principal de sua ruína, assim como grande parte dos engenhos centrais instalados nesta província (COSTA, p.9).

De acordo com Zóia Villar Campos, a experiência bem-sucedida dos ingleses com a instalação dos engenhos centrais no Egito, não teve o mesmo resultado no Nordeste do Brasil. Segundo a autora, isso se devia a falta de conhecimento por parte dos governantes na implantação de um modelo importado, que não se adaptava a realidade brasileira. O Engenho Central Cuyambuca encerrou suas atividades sob a administração dessa companhia no ano de 1888 (CAMPOS, 2001, p.39). Posteriormente, ele foi arrendado por um grupo de seus ex fornecedores (RODRIGUES; ROSS, 2020, p.77).

Percebe-se, que o processo de modernização do setor açucareiro no Brasil no final do século XIX, através do decreto n.2687, que concedia a garantia de juros de 7% sobre o capital de 300 contos de réis para aqueles que estivessem dispostos a instalarem os engenhos centrais, foi capaz de atrair muitos empreendedores a arriscarem seus recursos financeiros na montagem dessas modernas fábricas. Ao analisar os engenhos centrais descritos neste capítulo, é possível notar que grande parte deles não foram construídos por apenas um único empreendedor, mas tiveram dois ou mais fundadores, que muitas vezes eram membros de uma mesma família ou ligados por algum laço familiar, acessível a quem dispusesse de cabedal suficiente para se tornar sócio, beneficiando-se das garantias de juros.

Embora o processo de instalação dos engenhos centrais apresentasse um bom desempenho nos países que os implementaram, era algo novo para o Brasil, por separar o processo de fabricação do açúcar, da lavoura de cana. A falta de experiência desses empreendedores com as novas unidades produtivas teve um grande impacto para o fim das companhias. Contudo, a separação da lavoura e a indústria foi o fator decisivo para o malogro dos engenhos centrais, uma vez que funcionaram muito abaixo de sua capacidade de produção. Grande parte da matéria prima utilizada pelos engenhos centrais estava na mão de seus fornecedores, que muitas vezes recusavam em negociá-las. Das 12 companhias analisadas neste capítulo, oito delas tiveram sua liquidação ou foram vendidas antes mesmo do fim do século XIX.




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