Filipa lowndes vicente a a rte sem his



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FO R A DA O R D E M


A A RTE S E M H I STÓ R I A
102
pintura barroca portuguesa, Luís de Moura Sobral demonstra a sua eru-
dição textual e religiosa explorando os múltiplos sentidos das escolhas 
iconográficas de Josefa de Óbidos, do seu significado político à influên-
cia das gravuras que na altura circulavam na Europa. Mas não faz nenhu-
ma referência ao género: nem ao facto de a pintora ser uma mulher, nem 
de todos os quadros que analisa neste capítulo representarem mulheres, 
e mulheres que se distinguiram por mais do que a sua santidade
138
.  
Será que, por outro lado, como afirma Vítor Serrão, a sua obra e o 
seu nome terão beneficiado precisamente da percepção da sua excep-
cionalidade, levando até a um esquecimento da obra de seu pai?
139
 Ou, 
por outras palavras, será que parte da mitificação da artista não se deve 
precisamente ao facto de ela ser mulher? Se assim for, então esta é uma 
percepção que a história da arte deve problematizar e converter em ob-
jecto de estudo. Reconhecer que a identidade de Josefa de Óbidos en-
quanto mulher poderá ter contribuído para despertar a curiosidade dos 
seus contemporâneos, e um sucessivo interesse histórico não deverá le-
var a uma negação do factor de género como instrumento de análise. 
Ou seja, não deverá servir para contrapor ao factor género uma avalia-
ção supostamente objectiva e imparcial do seu valor histórico, como se 
pretendesse repor uma 
verdade que voltaria a colocar a artista no seu 
devido lugar das hierarquias qualitativas que sustentam a disciplina. Se, 
no século XVII, o facto de uma mulher se conseguir afirmar como artis-
ta ainda poder contribuir para a construção da sua fama, quando o seu 
número começou a aumentar, isto deixou de ser uma vantagem. 
Assim, o facto de Josefa de Óbidos ter sido mulher poderá ter 
funcionado como uma “vantagem”, mas tal não significa que, para mui-
tas outras mulheres artistas portuguesas, ou melhor, para a sua grande 
maioria, ser mulher não possa ter tido precisamente o efeito contrário, 
como veremos no capítulo seguinte, centrado no século XVIII. Quan-
do analisamos o trabalho de levantamento de Aline Gallasch Hall e 
Luísa  Arruda  sobre  mulheres  artistas  portuguesas  do  século  XVIII,  
138.
    Luís de Moura SobralDo Sentido das Imagens. Ensaios sobre pintura 
barroca portuguesa e outros temas ibéricos
 (Lisboa: Editorial Estampa, 1996), 
pp. 15-42, capítulo: “Josefa de Óbidos e as gravuras: problemas de estilo e de 
iconografia”. 
139.
    Vítor Serrão, “The painter Josefa de Ayala: A Tribute to Innocence”, pp. 15-
-31, p. 16. Na primeira parte do seu artigo, Vítor Serrão faz uma interessante análise 
da historiografia sobre a artista desde o século XVII, um tipo de abordagem que 
em muito favorece a compreensão da construção histórica de um artista.



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