Filipa lowndes vicente a a rte sem his



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FO R A DA O R D E M


A A RTE S E M H I STÓ R I A
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comparação  com  outros  casos  de  mulheres  artistas  europeias,  não 
para encontrar semelhanças artísticas, mas sim para reflectir sobre o 
modo como a sua identidade de mulher marcou os seus percursos 
artísticos e a percepção da sua obra. Se pensarmos nas questões que 
têm  sido  colocadas  a  artistas  como  Artemisia  Gentileschi,  Lavinia 
Fontana ou Sofonisba Anguissola, verificamos como muitas delas se 
poderiam colocar também em relação a Josefa de Óbidos. 
Exemplifiquemos.  Ela  é  filha  de  um  artista,  Baltazar  Gomes  
Figueira, neta, por parte da mãe espanhola, de um amador e colec-
cionador de pintura, e afilhada de Francisco Herrera, enquadrando- 
-se  assim  na  tipologia  persistente  de  mulheres  artistas  que  foram 
criadas  num  ambiente  familiar  artístico.  Por  outro  lado,  Josefa  de 
Óbidos também foi educada num convento, o que coloca a questão 
da educação artística no espaço religioso que deu lugar ao fenóme-
no das artistas-freiras, também bastante estudado no contexto his-
toriográfico italiano. Saindo do convento para ir para Óbidos, onde 
passará grande parte da sua vida, Josefa de Óbidos levou a existência 
pacata e religiosa de uma mulher solteira, independente, económica 
e afectivamente, que conheceu o contexto adequado para se dedicar 
à pintura. Invocando Virginia Woolf mais uma vez, poderíamos afir-
mar que a pintora tinha “o seu quarto”, as condições que lhe permi-
tiam ter tempo, disponibilidade, dinheiro e espaço para se dedicar à 
prática da sua criatividade. 
Muitos dos textos que se escreveram sobre a artista, ainda no 
século XVII, dedicaram uma grande atenção a aspectos da sua vida 
privada, dando destaque à sua vivência casta e espiritual. Ora, como 
vimos a propósito de mulheres artistas desde o Renascimento, tem 
sido frequentemente identificada uma tendência para valorizar mais 
as suas vidas e as suas qualidades morais do que a sua obra. Por ou-
tro lado, também se poderia questionar se o facto de Josefa de Óbi-
dos ser considerada sobretudo uma autora de naturezas-mortas, de 
doces conventuais e flores, quando a sua obra ultrapassa em mui-
to este género, não estará também relacionado com a percepção da 
sua identidade feminina. Como já apontou Edward J. Sullivan, refe-
rindo-se a uma “natureza-morta com fruta, carne e ave” datada de 
1676 – que representava as entranhas dos animais de forma crua –, 
algumas das suas obras, mesmo as naturezas-mortas, contrariavam 
as designações de doçura, inocência e domesticidade espiritual que 



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