Filipa lowndes vicente a a rte sem his



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FO R A DA O R D E M


A A RTE S E M H I STÓ R I A
80
cidade
94
. Além de artista, Caterina Vigri também se notabilizou como 
escritora e música; porém, o que fez com que os seus talentos fossem 
descritos e a sua obra preservada foi o seu estatuto de santa. Ou seja, 
aquilo que ela produziu funcionou muito mais como relíquia do que 
como obra de arte. Neste, como noutros casos, a identidade religiosa 
sobrepôs-se  a  todas  as  outras:  canonizada  em  1712,  Santa  Catarina 
de Bolonha foi objecto de um quadro de Marcantonio Franceschini, 
poucos anos depois (1723), onde a sua faceta de pintora faz parte da 
construção da sua iconografia como santa – um anjo segura a tela onde 
surge o esboço de um Menino Jesus da autoria de uma Santa Catarina 
vestida de freira, a molhar um pincel na paleta
95
. Um século depois, a 
sua sucessora na genealogia de mulheres artistas bolonhesas é Lavinia 
Fontana (1552-1614), mais uma filha de artista que constrói uma car-
reira profissional de grande sucesso e produtividade (além de ter tido 
onze filhos). Prospero Fontana detectou desde cedo o “grande génio 
para a pintura” demonstrado pela filha e, em vez de a incentivar aos 
94.
    No capítulo dedicado à pintora Elisabetta Sirani, Carlo Cesare Malvasia 
aproveitou para estabelecer uma genealogia de mulheres artistas de Bolonha. 
Amigo e protector de Elisabetta Sirani, Malvasia intercalou o seu texto com um 
manuscrito-diário da própria pintora. É o principal responsável pela consagração 
de artista, por ele denominada “pintora heroína”: Felsina Pittrice. Vite dei pittori 
bolognesi
, introd. e textos de Marcella Brascaglia (Bolonha: Edizioni Alfa Bologna, 
1971), [1.ª ed.: Felsina Pittrice. Vite de pittori bolognesi alla maesta christianissima 
di Luigi XIV re di Francia e di Navarra il sempre vittorioso consagrate dal. Co. Carlo 
Cesare Malvasia fra gelati l’ascoso
, 2 tomos (Bolonha: Per l’erede di Domenico 
Barbieri, 1678)]. Segue-se o suplemento realizado por Luigi Crespi, Felsina Pittrice. 
Vite de’ pittori bolognesi. Tomo III che serve di supplemento all’opera del Malvasia
 
(Bolonha: Forni Editore, 1970). Edição fac-similada de Felsina Pittrice. Vite de’ pittori 
bolognesi. Tomo Terzo alla maesta di Carlo Emanuele III re di Sardegna
 (Roma: nella 
stamperia di Marco Pagliarini, 1769). Luigi Crespi refere as seguintes mulheres 
artistas bolonhesas: Giulia Bonaveri, Caterina Canossa, Angela Cantelli Cavazza, 
Ginevra Cantofoli, Lucia Casalini Torelli, Teresa Coriolani, Ersilia Creti, Vincenzia 
Fabbri, Francesca Fantoni, Veronica Fontana, Veronica Franchi, Maria Oriana, 
Galli Bibiena, Camilla Lauteri, Paris Maria Lazzari, Eleonora Monti, Anna Morandi 
Manzolini, Teresa Muratori, Elena Maria Panzachi, Antonia Pinelli Bertusio, Anna 
Sirani, Barbara Sirani e Elisabetta Sirani. Nos séculos XIX e XX, outras obras 
reforçaram esta característica da cidade: Gaetano Giordani, Notizie delle Donne 
Pittrici di Bologna 
(Bolonha: Tipografia Nobili e Comp., 1832); Carolina Bonafede, 
Cenni Biografici e Ritratti di Insigni Donne Bolognesi
 (Bolonha: Sassi, 1845); Laura 
Ragg, The Women Artists of Bologna (Londres: Methuen, 1907). Para um estudo mais 
recente, ver: Vera Fortunati, “Towards a History of Women Artists in Bologna 
between the Renaissance and the Baroque: Additions and Clarifications”, Italian 
Women Artists from Renaissance to Baroque
 (Washington, D.C.: National Museum 
of Women in the Arts; sVo Art, 2007), Catálogo de Exposição, pp. 41-48.
95.
    Angela Ghirardi, “Women artists of Bologna: The self-portrait and the 
legend from Caterina Vigri to Anna Morandi Manzolini (1413-1774)”, Lavinia 
Fontana of Bologna 1552-1614
, pp. 32-47, p. 32-33. 


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“exercícios humildes aos quais, quase sempre, e desde a mais tenra ida-
de, é condenado aquele sexo”, fez com que ela “se dedicasse ao estudo 
do desenho, no qual teve tal proveito que se tornou numa excelente 
pintora, rica de aplausos e de fama”
96
. Além de se referir especifica-
mente ao caso de Lavinia Fontana e ao modo como a sua educação foi 
fundamental para o seu desenvolvimento artístico, Baldinucci também 
teceu considerações mais gerais sobre as mulheres artistas: “Mas eu sei 
que, não só não é algo impossível, nem algo realmente novo, que o ta-
lento de uma mulher, se bem cultivado, se torne maravilhoso em qual-
quer faculdade”, desde que “seja posto em liberdade e se aplique aos 
bons estudos”, livre das “exigências humildes” a que as mulheres estão 
sujeitas
97
. Embora a obra de Lavinia Fontana também deva ser lida no 
contexto dos novos programas iconográficos, sugeridos pela Contra- 
-Reforma, e a sua devoção religiosa também faça parte da sua prática 
artística, Fontana nada tem a ver com o contexto conventual que, si-
multaneamente, possibilitou e coarctou os talentos de tantas mulheres. 
Indissociáveis dos espaços de criação eram as possibilidades de 
escolha dos motivos representados – um tópico que tem sido muito 
desenvolvido nas abordagens historiográficas às mulheres artistas dos 
séculos XVI e XVII. Num momento de profundas mudanças no estatu-
to do artista e da própria arte, o ensino artístico passou a concentrar-se 
no corpo humano, no conhecimento escrito e visual da Antiguidade 
Clássica e, finalmente, nas leis da perspectiva e nos cálculos matemá-
ticos
98
. Estes princípios implicavam, cada vez mais, o acesso ao estu-
do do nu, assim como deslocações a outros centros artísticos e a locais 
como Roma, onde a arqueologia revelava os vestígios da herança clássi-
ca, central ao discurso visual e escrito da Renascença. As limitações das 
mulheres em aceder a uma formação completa, mesmo nos casos ex-
cepcionais em que cresciam num 
atelier familiar ou recebiam uma edu-
cação, dificultaram-lhes a escolha daqueles temas onde, por exemplo, o 
96.
    “Lavinia Fontana. Pittrice Bolognese”, Filippo Baldinucci, Notizie dei 
Professori del Disegno…
, vol. III, p. 369.
97.
    Filippo Baldinucci, Notizie dei Professori del Disegno…, vol. II, p. 619. Já 
citado por Angela Ghirardi, “Women artists of Bologna: the self-portrait and 
the legend from Caterina Vigri to Anna Morandi Manzolini (1413-1774)”, Lavinia 
Fontana of Bologna
, p. 47.
98.
    Alberti elaborou um programa de educação artística que será central a 
Catálogo: bitstream -> 10451

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