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Os espaços e os temas possíveis: dos conventos aos ateliers



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Os espaços e os temas possíveis: dos conventos aos ateliers 
paternos, das naturezas-mortas aos auto-retratos
Até ao século XVIII, antes do desenvolvimento da vertente de ensino 
no interior das academias de arte, a aprendizagem artística era levada 
a cabo em 
ateliers de artistas, mais ou menos organizados, numa con-
juntura onde os laços familiares e as relações pessoais eram determi-
nantes na formação. Mesmo num período de redefinição do estatuto 
do artista em direcção a uma maior individualização, a relação com o 
mestre ou os mestres era parte intrínseca do seu percurso. Tendo em 
conta as limitações aos movimentos físicos das mulheres e à sua edu-
cação, era necessária uma conjuntura muito favorável para que os seus 
eventuais talentos fossem identificados. Assim, não é por acaso que 
a maioria das mulheres artistas dos séculos XVI a XVIII, como já foi 
referido, são filhas de artistas ou de pais especialmente empenhados 
na sua educação. 
O outro espaço propício a uma prática artística era o convento. De 
facto, a tipologia da freira-artista, sobretudo nos países católicos euro-
peus, apresenta indícios de vitalidade desde o século X, com iluminado-
ras e músicas como Hildegarda von Bingen (1098-1197), e prolonga-se 
até ao século XVIII. Tendo em conta que o analfabetismo feminino era 
generalizado, os conventos funcionavam muitas vezes como o único es-
paço onde as mulheres podiam receber uma educação básica. A tarefa de 
copiar manuscritos e, por vezes, decorá-los fez com que a aprendizagem 
90.
    Germaine Greer, The Obstacle RaceThe fortunes of women painters and 
their work
 (Londres: Picador, 1981).


79
elementar do desenho e da pintura, que será divulgada ao longo do sé-
culo XVI pelo modelo educativo proposto por Castiglione, estivesse já 
presente em muitos conventos femininos durante o período medieval
91

No entanto, se um convento podia significar uma maior liberdade 
para uma mulher desenvolver os talentos que as exigências familiares 
não permitiam, era também um espaço fechado, pouco propício à cria-
ção
92
. Apesar da grande quantidade de artistas-freiras identificadas no 
Sul da Europa até ao século XVIII, a falta de formação artística aliada 
ao isolamento em relação a um contexto artístico e ao mercado da arte 
influenciaram de forma negativa a sua produção. A propósito da sua 
contemporânea Suor Plautilla Nelli (1523-1587/88), já vimos como 
Vasari escreveu que a sua obra demonstrava que teria feito obras ma-
ravilhosas se, tal como os homens, tivesse podido estudar desenho e 
copiar objectos vivos e naturais
93
. Ou seja, se o convento proporciona-
va às mulheres artistas um espaço físico, não lhes outorgava o espaço 
de liberdade favorável à criação, não sendo por acaso que os múltiplos 
casos de mulheres artistas que se notabilizaram durante este período 
não tenham realizado a sua formação num convento. Por outro lado, 
mesmo que tenha havido casos de freiras artistas que experimentaram 
formas e temas inovadores, a sua identificação foi sempre muito dificul-
tada pelo próprio isolamento do convento.    
Ainda no século XV, Bolonha conhecerá o caso de Caterina Vigri 
(1413-1463), muitas vezes citado como o primeiro exemplo de uma 
genealogia de mulheres artistas que distinguirá a cidade italiana duran-
te um longo período. De facto, logo no século XVII, a obra de Carlo 
Cesare Malvasia contribuiu para identificar Bolonha como uma cidade 
especialmente rica de exemplos de mulheres artistas, sendo que, no sé-
culo XIX, esta genealogia artística feminina foi reforçada com outros 
livros especialmente dedicados às mulheres artistas ou intelectuais da 
91.
    Ann Sutherland Harris, “Medieval Women Illuminators”, Harris e Nochlin, 
eds., Women Artists: 1550-1950 (Los Angeles; Nova Iorque: Los Angeles County 
Museum; Random House, 1976), Catálogo de Exposição, pp. 17-20.
92.
    Ann Sutherland Harris, “The Status and Education of Women in 
Renaissance Italy”, Harris e Nochlin, eds., Women Artists: 1550-1950 (Los Angeles; 
Nova Iorque: Los Angeles County Museum; Random House, 1976), Catálogo de 
Exposição, p. 21.
93.
    “Madonna Properzia de’ Rossi. Scultrice Bolognese”, Giorgio Vasari, Le 
Vite de’ più Eccelenti Pittori, Scultori ed Architettori Scritte da Giorgio Vasari Pittore e 
Architetto Aretino con Nuove Annotazioni e Commenti di Gaetano Milanesi
, vol. V 
(Florença: G.C. Sansoni, 1880), p. 80.

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