Filipa lowndes vicente a a rte sem his


parte das pessoas que nasceram em Portugal na década de 1970 não



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parte das pessoas que nasceram em Portugal na década de 1970 não 
foram familiarizadas com ideias feministas ou, para dar outro exemplo 
relevante, com questões ecológicas. Mas será que é assim tão diferente 
para aqueles que acabaram recentemente os seus estudos e estão a ini-
ciar as suas vidas profissionais? Tenho a certeza que têm, por exemplo, 
uma maior consciência ecológica do que teve a minha geração. Mas 
será que a consciência feminista está hoje muito mais enraizada?
O interesse que já tinha sobre o assunto antes de começar a in-
vestigação foi aumentando ao longo do percurso. Deu-me um enorme 
prazer escrever este livro, e uma das razões foi, sem dúvida, tê-lo feito 
enquanto historiadora, mas também enquanto mulher especialmente 
sensível a estes temas. O facto de ter escrito este livro nas margens dos 
meus projectos “oficiais” de investigação também me permitiu combinar 


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as normas da escrita académica com a liberdade própria do ensaio. 
Escrever este livro foi também a minha forma de activismo feminis-
ta. Talvez por não ser da minha natureza pertencer a movimentos ou 
associações – embora admire quem o faça e considere que os direitos 
que tomamos como adquiridos se devam a pessoas que, em diferentes 
períodos da história, fizeram do activismo político e de direitos hu-
manos a sua causa –, este foi o modo que encontrei de “fazer alguma 
coisa”. Este é um livro que não só é escrito por uma feminista, como é 
também um livro feminista. É também um livro que gostaria de chegar 
àquelas pessoas que se sentem incomodadas com a palavra feminis-
mo, quase sempre por desconhecerem o que é que quer dizer – antes 
de mais, e entre muitos outros possíveis significados, uma forma de 
promover os direitos humanos e um maior equilíbrio de poderes en-
tre mulheres e homens, um modo de lutar por um mundo mais justo, 
mais tolerante e com maior igualdade de oportunidades e direitos para 
todos, independentemente de terem nascido mulheres ou homens, de 
um modo paralelo ao de outros movimentos cívicos, como os movi-
mentos contra o racismo ou a homofobia. Fazendo minhas as palavras 
da historiadora da arte norte-americana Linda Nochlin, que afirmava 
que a história não é só aquilo que se passa num outro lugar e num ou-
tro tempo, mas também aquilo que vivemos todos os dias, penso que 
todos os gestos podem significar mudança – no nosso quotidiano, na 
educação que damos aos nossos filhos, nas posições reafirmadas em 
conversas entre amigos ou colegas, através da escrita ou nas decisões 
que tomamos profissionalmente –, mesmo que ela pareça ser ínfima. 
A análise dos modos de produção de conhecimento é algo que 
este livro tem em comum com outros dos meus projectos de inves-
tigação, aparentemente muito distintos. Como é que um objecto de 
estudo  foi  abordado  num  determinado  tempo  e  num  determinado  
espaço? Como é que a forma como se olha e se escreve sobre algo é 
indissociável do seu contexto histórico? Assim, este não é um livro 
sobre mulheres artistas, nem pretende, de modo nenhum, enunciar 
quais são as artistas que considero mais importantes para determina-
do período. Este livro é muito mais uma reflexão sobre como é que 
uma área do conhecimento, uma disciplina das ciências sociais e hu-
manas – a história da arte –, estudou, pensou e abordou as mulheres 
artistas e a representação das mulheres na arte. É também uma 
his-
tória da história da arte, uma história de como a arte produzida por 


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mulheres foi, durante muito tempo, uma arte 
sem história. E como, nas 
últimas décadas, passou a ser, também, uma arte 
com história. Mesmo 
que, como explicarei ao longo do texto, seja sempre mais difícil encon-
trar objectos e documentos para escrever sobre assuntos que, durante 
muito tempo, não foram considerados relevantes. 
Há mulheres artistas muito prestigiadas e reconhecidas que eu 
nem refiro e outras que, apesar de menos conhecidas, são relevantes 
para o meu argumento e, por isso, mencionadas. A “qualidade” das ar-
tistas, esse conceito tão fundamental à história da arte, não é indispen-
sável para este livro. Muito mais importante é tentar explicar como é 
que essa premissa da “qualidade” serviu, tantas vezes, para desclassifi-
car ou ignorar a obra de mulheres artistas. Todo o livro é também uma 
tentativa de demonstrar como uma perspectiva feminista é relevante 
para a história da arte, não como sendo a única abordagem, ou a mais 
válida,  mas  sim  como  sendo  uma  das  múltiplas  abordagens  críticas 
que contribuem para melhor compreender os seus objectos de estudo. 
Há historiadores da arte que consideram muitas das abordagens des-
te livro como sendo do âmbito da história ou da sociologia e não da 
história da arte. Não concordo e penso que a vasta bibliografia sobre o 
assunto, publicada nos últimos quarenta anos, demonstra como estes 
também são problemas da história da arte em si. 
Para que este projecto de escrita e de publicação fosse possí-
vel, houve muitas pessoas indispensáveis. Ao convidar-me, em 2005, 
para dar um curso intensivo no Museu de Serralves onde eu pude es-
colher o tema, a minha amiga Sofia Victorino deu-me a possibilidade 
de me dedicar a fundo, pela primeira vez, a um assunto que já me in-
teressava desde há muito, mas que ainda não tinha tido oportunidade  
de explorar. Mais tarde, as nossas conversas, sempre infindáveis, e a 
sua leitura de algumas secções do manuscrito vieram contribuir de 
outras formas para este livro. Assim, foi após a preparação para o curso 

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