Filipa lowndes vicente a a rte sem his



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FO R A DA O R D E M


A A RTE S E M H I STÓ R I A
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por reificar uma correspondência entre mulher artista e mulher bela 
que esteve presente desde a Renascença e que, como veremos, se tra-
duziu numa valorização dos auto-retratos de artistas mulheres como 
forma de dupla beleza. 
Artemisia Gentileschi, Judite e a sua criada com a cabeça de Holofernes,
 
1612-1618, óleo sobre tela, Galleria Palatina, Palazzo Pitti, Florença, Itália.  
Curiosamente, quando, em 1681, Filippo Baldinucci traçou o per-
fil de Artemisia Gentileschi na sua obra de vários volumes sobre vidas 
de  artistas,  também  deu  um  especial  destaque  à  sua 
Inclinazione,  ou 
Alegoria da Inclinação, fresco pintado no tecto da casa de Michelangelo 
Buonarroti, em Florença: “Esta virtuosa mulher pinta de uma maneira 
belíssima uma figura muito próxima do natural, refiro-me a uma mulher 
de aspecto belíssimo, muito vivo e orgulhoso.”
75
 O outro destaque dado 
por Baldinucci à obra de Artemisia é o de uma 
Aurora, uma mulher nua 
de cabelos soltos, que está muito longe dos temas que, hoje, associamos 
75.
    Filippo Baldinucci, “Aurelio Lomi, pittore pisano, discepolo del Cigoli. 
Nato..., morto... Orazio Gentileschi, fratello d’Aurelio e discepolo e Artemisia 
Gentileschi, figlioula e discepola”, Notizie dei Professori del Disegno da Cimabue 
in qua per le quali si dimostra come, e per chi le belle arti di pittura, scultura e 
architettura, lasciata la rozzezza delle maniere greca e gotica, si siano in questi 
secoli ridotte all’antica loro perfezione
, ed. de Filippo Baldinucci, vol. III (de 7 vols.) 
(Florença: Per V. Batelli e Compagni, 1846; 1.ª ed. 1681-1728), pp. 708-716, p. 714. 


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a Artemisia, como 
Judite e HolofernesSanta Catarina ou Clio. A estas, 
o autor dedicou apenas umas curtas frases, para passar logo a referir o 
talento de Artemisia para pintar “todo o género de frutas”
76

Apesar destas tentativas para invalidar o conteúdo ameaçador e 
forte dos seus temas, no século XVII como no século XX, a artista já 
faz parte de uma galeria de referências feministas que vão para lá da 
sua obra ou da sua identidade enquanto objecto de estudo
77
. A viola-
ção sofrida por Artemisia perpetrada pelo seu professor de Perspecti-
va, amigo do pai, e o processo legal que se seguiu contribuíram para a 
identificação da artista como uma vítima de violência sexual que de-
nunciou o opressor e, também, usou esse episódio marcante da sua 
vida na sua própria criatividade
78
. Esta inseparabilidade entre vida e 
obra foi também reforçada por um livro escrito em 1947, assinado por 
Anna Banti, pseudónimo de Lucia Longhi, mulher do historiador de 
arte italiano Roberto Longhi
79
. A sua original abordagem baseou-se 
numa investigação histórica do processo de violação; de aspectos au-
tobiográficos da vida da própria autora, que perdeu o primeiro manus-
crito do livro devido às vicissitudes de uma Florença bombardeada 
durante a Segunda Guerra Mundial; e de uma narrativa ficcionada em 
que Artemisia serve como pretexto para uma reflexão sobre a criati-
vidade feminina. A obra de Anna Banti contribuiu muito para divul-
gar a artista para lá de um reduzido grupo de especialistas. O caso de  
76.
    A autoria do quadro Judite e Holofernes tem sido objecto de revisão, 
havendo quem o atribua a seu pai, Orazio Gentileschi: ver referências a este 
debate no artigo de Ann Sutherland Harris, “Sofonisba, Lavinia, Artemisia, and 
Elisabetta: Thirty Years after Women Artists: 1550-1950”, Italian Women Artists from 
Renaissance to Baroque
 (Washington, D.C.: National Museum of Women in the 
Arts; sVo Art, 2007), Catálogo de Exposição, pp. 49-62, p. 54.
77.
   Por exemplo, Artemisia é o nome de uma associação, sediada em Florença, 
que ajuda as mulheres e as crianças vítimas de violência física e sexual. 
78.
    Artemisia Gentileschi, Lettere Precedute da Atti di un Processo per Stupro
ed. por Eva Menzio, com um ensaio de Annemarie Sauzeau Boetti e uma nota de 
Roland Barthes, col. Carte d’Artisti, n.º 55 (Milão: Abscondita, 2004).
79.
    Anna Banti, Artemisia, trad. e posf. de Shirley D’Ardia Caracciolo (Londres 
e Nova Iorque: Serpent’s Tail, 1995). Primeira edição italiana: Artemisia (Florença: 
Sansoni, 1947). Ver também: Susan Sontag, “A Double Destiny. On Anna Banti’s 
Artemisia”, At the Same Time. Essays & speeches, ed. de Paolo Dilonardo e Anne 
Jump, pref. de David Rieff (Nova Iorque: Farrar Straus Giroux, 2007), pp. 37-56; 
Anna Banti escreveu também outros livros, entre eles: Quando le Donne si Misero 
a Dipingere
 (Milão: La Tartaruga, 1982). Entretanto, foram publicadas outras 
versões romanceadas da vida de Artemisia: Alexandra Lapierre, Artemisia (Paris: 
Robert Laffont, 1998); Susan Vreeland, The Passion of Artemisia (Nova Iorque: 
Viking Press, 2002). 

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