Filipa lowndes vicente a a rte sem his



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PE N SA R O PR E S E NTE


A A RTE S E M H I STÓ R I A
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etc. – e a ignorância em relação aos significados da palavra levam, 
ainda hoje, muitas mulheres a apresentarem-se publicamente como 
antifeministas (em entrevistas a jornais e revistas, por exemplo). Isto 
acontece sobretudo com aquelas mulheres que parecem temer que o 
seu poder, notoriedade ou perfil público possam ficar prejudicados 
com uma eventual conotação feminista ou, mesmo, que a sua “femi-
nilidade” seja posta em causa (talvez como resposta à oposição que 
o senso comum faz entre ser feminista e ser feminina). 
Num  texto  apresentado  na  Academia  das  Ciências,  o  historia-
dor da arte Vítor Serrão fez uma “reflexão sobre conceitos de modos 
de ver a obra artística e contribuições para uma prática consequente 
da disciplina da História da Arte” onde afirma que “a arte não é só 
o tesouro reconhecido das apregoadas ‘obras-primas’ que uns quan-
tos ‘génios iluminados’ produziram num dado momento para gáudio 
de uma ‘minoria inteligente’”
330
. É este, segundo Serrão, um tipo de 
história da arte “onde não cabem os periferismos nem as produções 
‘normais’, e onde tudo o que merece ser valorizado é apenas e só a 
‘grande arte’ dos vencedores, em geral brancos de espada e cruz içada, 
europeus, cristãos, possidentes, conquistadores”. E “homens”, acres-
centaríamos nós. Esse tipo de abordagem que Serrão aqui critica está 
ainda  muito  influenciado  por  um  modo  de  escrever  sobre  arte  que 
tende a valorizar a obra em si, a sua técnica, a sua forma, a sua com-
posição e que, por outro lado, subestima o contexto de produção do 
objecto artístico, acabando por se constituir num “álibi para a perda 
de patrimónios imensos que ‘não interessava’ estudar, ‘não eram dig-
nos de preservação’”
331
. Tudo aquilo que remeta para uma análise do 
contexto de produção, fruição ou consumo da arte, ou para conceitos 
de identidade artística – Quem o fez? Porque o fez? Quem encomen-
dou a obra? A quem se destinava? Qual a formação e o contexto social 
do autor da obra? –, ou seja, abordagens essenciais para se compreen-
der historicamente o percurso e a obra de muitas artistas mulheres, 
é, frequentemente, considerado como sendo um tema da sociologia. 
330.
    Vítor Serrão, “Os Cinco Sentidos da Arte da Pintura. Práticas de 
leitura artística integrada a partir de ‘casos de estudo’ na pintura portuguesa”, 
conferência proferida na Academia das Ciências, em Lisboa, no dia 14 de 
Fevereiro de 2011, pp. 1-4, pp. 3-4. 
331.
    Vítor Serrão, “Os Cinco Sentidos da Arte da Pintura. Práticas de leitura 
artística integrada a partir de ‘casos de estudo’... na pintura portuguesa”, pp. 1-4, 
pp. 3-4.


253
Continua a prevalecer a ideia de que as questões relacionadas com a 
arte e as mulheres são do âmbito dos estudos de género ou, quando 
muito, da sociologia da arte. Discordamos desta posição e considera-
mos que os caminhos que a história da arte tem tomado nas últimas 
quatro décadas demonstram que este é também um problema e um 
tema da história da arte. Isto não é um assunto “de moda”, como às 
vezes também é invocado (tal como é invocado em relação à ecologia, 
por exemplo). É uma perspectiva crítica que influenciou, irreversivel-
mente, as ciências sociais e humanas, e que também tem estado expos-
ta às transformações e aos questionamentos a que todas as formas de  
conhecimento estão sujeitas.

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