Filipa lowndes vicente a a rte sem his


    Patricia Mayayo, Historias de Mujeres, Historias del Arte (Madrid: Ediciones  Cátedra, 2003), p. 179. 11



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10.
    Patricia Mayayo, Historias de Mujeres, Historias del Arte (Madrid: Ediciones 
Cátedra, 2003), p. 179.
11.
    Tamar  Garb, “Hairlines”,  Carol Armstrong  e  Catherine  de  Zegher,  eds., 
Women  Artists  and  the  Millennium
  (Cambridge,  Mass.;  Londres: The  MIT  Press; 
October Books, 2006), pp. 255-274, p. 255.
A PÁG I N A E M B R A N CO


A A RTE S E M H I STÓ R I A
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Um dos principais e, muitas vezes, mais perversos argumentos 
para justificar a desproporção persistente entre mulheres e homens 
no mundo da arte contemporânea é o da “qualidade”. Como é que a 
qualidade e o mérito têm servido, tantas vezes, para iludir desigual-
dades  de  género,  no  campo  artístico  como  no  literário,  político  ou 
empresarial? Como é que uma disciplina – a história da arte – tem 
lidado com a “qualidade” enquanto um dos seus conceitos fundado-
res? Como é que a maior ou menor consciência feminista de cada país 
e respectiva opinião pública, comunicação social e academia afectam 
as escolhas de quem escolhe? Indissociáveis destas questões são, de 
facto, as diferenças nacionais. Se o desenvolvimento da história da arte 
enquanto disciplina científica, em países como o Reino Unido e os 
Estados Unidos da América, foi já influenciado desde há muito pela 
teoria feminista, o mesmo não se passou em Portugal? Porque é que 
subsistem estas diferenças entre países num mundo em que tanto se 
fala da globalização e circulação do conhecimento? Como é que se 
explica que o conhecimento sobre a arte se desenvolva de modos di-
versos em diferentes contextos nacionais numa altura em que, noutros 
aspectos, tenha deixado de fazer sentido pensar na produção artística 
em termos nacionais? 
Indissociável desta questão é a da globalização dos feminismos e 
da arte. Uma das transformações do feminismo teórico, tal como foi 
enunciado na década de 1970 (ou mesmo na segunda metade do sécu-
lo XIX em países como o Reino Unido, onde o feminismo já teve um 
grande desenvolvimento teórico), é que deixou de ser produzido ape-
nas por uma elite de mulheres brancas, cultas, privilegiadas e ociden-
tais para multiplicar as suas vozes e os seus discursos: do feminismo 
negro norte-americano, misturado com a luta contra as discriminações 
raciais, ao feminismo académico indiano, indissociável dos desafios do 
pós-colonialismo e das desigualdades sociais, ou aos feminismos teó-
ricos e activistas enunciados por mulheres provenientes de múltiplos 
contextos nacionais e religiosos, também daqueles países mais pobres 
e com mais desigualdades ao nível dos direitos humanos. Este fenóme-
no, que começou por afectar o feminismo enquanto instrumento de 
reflexão sobre o passado ou o presente, também tem afectado a história 
da arte, hoje muito mais atenta àquilo que se passa para lá das fronteiras  
onde foram definidas as “belas-artes” europeias. Neste aspecto, este 
livro entra em contradição: a minha formação, muito mais centrada  


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no espaço europeu, aliada à maior tradição historiográfica para a arte 
produzida por mulheres europeias, fez com que eu acabasse por re-
produzir essa ausência de uma perspectiva global. Também, neste ca-
pítulo, analisarei alguns dos desafios colocados pelo feminismo aos 
museus contemporâneos. Como é que os museus do presente lidam 
com a masculinidade das narrativas visuais que apresentam, muitas 
vezes intrínsecas aos momentos históricos em que as suas colecções 
foram formadas? Como é que o feminismo se tem cruzado com as 
práticas museológicas em diferentes contextos nacionais? E como é 
que a arte feminista – prática artística da década de 1970 – tem sido, 
ou não, integrada nos cânones artísticos do século XX? 
Em  suma,  se  existem  muitas  diferenças  nacionais  nas  formas 
como as disciplinas de ciências humanas e sociais têm evoluído, uma 
das  características  da  história  da  arte  actual,  sobretudo  no  mundo 
anglo-saxónico,  é,  sem  dúvida,  integrar  a  perspectiva  feminista  ou 
de género, considerada um elemento essencial para se compreender 
o processo de criação artística, o seu conteúdo e os modos como a 
própria arte é classificada e estudada
12
. Segundo esta perspectiva, a 
arte e os artistas não podem ser compreendidos fora do seu contexto 
histórico-cultural:  tão  importante  como  analisar  a  componente  de 
género na produção de um trabalho artístico – por exemplo, como 
é que o percurso e a obra de uma pintora do século XVII foram de-
terminados pelo facto de ela ser mulher – é fazê-lo em relação à for-
ma como esse trabalho foi avaliado – como é que a crítica de arte 
ou a história da arte escreveram sobre ele
13
. Neste aspecto, partilha 
algumas das premissas da história da arte influenciada pelo marxis-
mo. Centrada nas diferenças sociais (em vez de sexuais), esta aborda-
gem também considera que a arte (e a história da arte) é inseparável 
do contexto onde foi produzida, ao mesmo tempo que desafia uma 
ideia muito premente da história da arte de que o melhor dos artistas 
é capaz de transcender as suas circunstâncias ou, mesmo, que a ge-
nialidade “vem sempre ao de cima”. Como já Virginia Woolf afirmou 
na conferência que proferiu, em 1928, no Girton College – primeira 
universidade para mulheres, criada em Cambridge, na altura em que 

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