Filipa lowndes vicente a a rte sem his



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PE N SA R O PR E S E NTE


A A RTE S E M H I STÓ R I A
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os mais diversos assuntos é inseparável do 
lugar e do momento em que 
esse discurso foi enunciado. O desenvolvimento de uma perspectiva 
feminista, no interior das ciências sociais e humanas, a partir da dé-
cada de 1970, sobretudo nos contextos norte-americano e britânico, 
mas também no francês, por exemplo, deve ser entendido como par-
te das profundas transformações político-sociais onde o pensamento 
feminista passou a ocupar um lugar central. Mas, se estas mutações 
também se deram em muitos outros países, não quer dizer que as suas 
implicações se tenham sentido no interior do discurso da academia. 
O caso português é bem exemplo disso – o pensamento feminista e 
as enormes mudanças da condição feminina ao nível jurídico, social 
ou político, que tiveram lugar a partir da década de 1970 em Portugal, 
pouco se fizeram sentir no ensino e na escrita académicos durante esse 
período e, mesmo, nas décadas seguintes. 
A  situação  do  Portugal  contemporâneo  poderia  ser  compa-
rada à do Reino Unido em meados dos anos 70, a ensaiar, de um 
modo fragmentário, a introdução do feminismo nos baluartes aca-
démicos com as suas resistências instrínsecas. A palavra feminismo 
continua a incomodar muitos académicos, intelectuais, jornalistas e 
editores,  não  apenas  homens  mas  também  mulheres,  enquanto  as 
teorias críticas que lhe deram voz persistem, maioritariamente, em 
ser remetidas para o estatuto de assunto menor, quando não ignora-
das. Apesar de um enorme desenvolvimento na última década, estas 
abordagens tendem a estar concentradas em núcleos de investigação 
específicos,  normalmente  ao  nível  da  pós-graduação  (mestrados  e 
doutoramentos), com repercussões limitadas entre os alunos de li-
cenciatura. Ainda é possível, em Portugal, concluir muitas licencia-
turas de ciências sociais e humanas – da sociologia à história ou à 
psicologia – sem nunca encontrar a palavra feminismo, nem sequer 
tomar conhecimento da existência de teorias feministas sobre as áre-
as disciplinares estudadas
317
. Funcionando quase sempre como uma 
espécie de disciplina independente, está longe de se integrar no in-
terior de cada discurso científico como uma das suas componentes 
intrínsecas. Muitos estudantes portugueses, das mais variadas áreas 
317.
    E mesmo a palavra “feminismo” é problemática. Não é raro ouvir 
académicos ou jornalistas, para só falar daqueles que trabalham especialmente 
com o conhecimento escrito, a dizer “femininismo” em vez de “feminismo”, num 
fenómeno que só revela a falta de familiaridade que a palavra tem na nossa cultura.


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de conhecimento, só se confrontaram com uma abordagem feminis-
ta em mestrados e doutoramentos realizados fora de Portugal. Os 
muitos sinais de mudanças positivas são ainda bastante fragmenta-
dos, mas, sob a forma de departamentos, programas universitários, 
revistas ou colóquios e, mesmo, publicações, os estudos de mulhe-
res, feministas ou de género, estão, lentamente, a imprimir a sua mar-
ca na academia
318
. Mas mais numas áreas do que noutras. A antro-
pologia ou os estudos literários, por exemplo, talvez devido a uma 
maior tendência destas disciplinas para a contemporaneidade e, em  
geral, para a abertura ao exterior, têm demonstrado uma maior permea- 
bilidade em relação aos vários caminhos de um feminismo teórico. 
O porquê desta especificidade do caso português pode ter múl-
tiplas respostas e também tem sido objecto de reflexão por parte de 
alguns investigadores, mas certamente que a situação política portu-
guesa da década de 1970 poderá ser uma das principais explicações. 
A mudança de regime, a politização da sociedade civil, a redefinição 
de liberdades e direitos e a consolidação da democracia, assim como 
a  própria  reconstrução  do  ensino,  levaram  a  que  a  teoria  feminista 
não tivesse ainda espaço para desafiar as formas de conhecimento. O 
feminismo vivido em Portugal tentava assegurar direitos básicos de 
igualdade jurídica entre mulheres e homens, inexistente até à década 
de 1970, ou simplesmente aceder a palavras que até então eram prer-
rogativa masculina – como aconteceu com o livro de poemas eróticos 
de Maria Teresa Horta, 
Minha Senhora de Mim, publicado em 1971
319
.      
 Até há umas décadas, era mais fácil encontrar estas e outras ra-
zões para a impermeabilidade nacional a uma abordagem feminista, 
razões estas que eram indissociáveis umas das outras: um isolamento a 
vários níveis; ausência de bibliotecas que possuíssem livros publicados  
318.
    Em 2010, por exemplo, foram reeditadas as Novas Cartas Portuguesas
a famosa crítica ao patriarcado dominante em Portugal, escrita em 1972 pelas 
“três Marias” (Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta e Maria Velho da Costa), 
que foi apreendida pelas autoridades políticas por ser considerada obscena 
e um atentato à moral pública. Pela iniciativa de Ana Luísa Amaral, talvez esta 
reedição venha sensibilizar os professores dos vários níveis de ensino para a 
centralidade deste texto do ponto de vista literário e para a compreensão de um 
determinado momento histórico português e passe a fazer parte dos programas 
de ensino secundário, assim como de muitas licenciaturas de ciências sociais e 
humanas: Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta, Maria Velho da Costa, Novas 
Cartas Portuguesas 
(Lisboa: Futura, 1974); 1.ª ed. (Lisboa: Estúdios Cor, 1972).

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