Filipa lowndes vicente a a rte sem his



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PE N SA R O PR E S E NTE


A A RTE S E M H I STÓ R I A
240
– se 
é assim, é porque deve ser assim –, tal como John Stuart Mill já 
alertava no século XIX, é que se poderá reverter o seu impacto e levar a 
cabo uma mudança de paradigma. Alguns críticos dos feminismos – a 
resistência à mudança é sempre difícil – consideram esta “consciência” 
uma forma de artificialidade e, mesmo, de automarginalização de um 
determinado grupo. É possível argumentar que tal crítica até seria per-
tinente num mundo onde não existisse discriminação de género (ou 
étnica, ou de orientação sexual). Num mundo onde ela existe, a sua 
nomeação e consciência são o único modo de a poder transformar. 
Não é apenas no espaço da criatividade ou do discurso que as mu-
lheres têm menos visibilidade do que os homens. São também os 
temas 
das mulheres, de género ou de feminismo que continuam a ser invisí-
veis, como demonstra o trabalho levado a cabo por Maria do Mar Perei-
ra no seu doutoramento sobre “o estatuto epistémico dos estudos sobre 
as mulheres, de género e feministas em Portugal”
314
. Através de uma 
análise de diversas formas de conhecimento, de programas de cursos a 
conteúdos de aulas, Maria do Mar Pereira revela como continuam laten-
tes os clássicos preconceitos que consideravam o feminismo um tema 
incómodo e ameaçador. E, de alguma forma, têm razão. O feminismo 
desafia os poderes instituídos, as normas vigentes e não-questionadas, 
aquilo que se aprendeu e aquilo que se vive todos os dias e que está in-
teriorizado. Numa auto-etnologia, Pereira nota como, mesmo na acade-
mia, onde mais dificilmente se encontram vozes críticas em relação a um 
conhecimento feminista, esta é uma perspectiva que não está interiori-
zada e que se encontra ainda longe de integrar o 
mainstream académico. 
O desenvolvimento de uma perspectiva crítica e feminista da dis-
ciplina da história da arte foi paralelo ao que sucedeu em todas as ou-
tras áreas das ciências sociais e humanas. As desconstruções e os ques-
tionamentos que a história da arte fez não só ao seu objecto de estudo, 
tal como a si própria, também tiveram lugar noutras formas de conhe- 
 
314.
    Maria do Mar Pereira, “Dentro ou fora das fronteiras do conhecimento? 
O estatuto dos estudos sobre as mulheres e de género em Portugal”, conferência 
proferida na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, Universidade Nova de 
Lisboa [14 de Abril de 2011]; Maria do Mar Pereira e Teresa Joaquim, “Women's, 
Gender, Feminist Studies in Portugal. Tracing Recent Changes, Challenges and 
Debates”, The Making of European Women’s Studies, IX (2009). Entre muitos outros 
estudos sobre o assunto, ver também Teresa Pinto, Teresa Alvarez e Isabel Cruz
eds., Mulheres e Conhecimento (Vila Franca de Xira: Associação Portuguesa de 
Estudos sobre as Mulheres, 2011). 


241
cimento, sobretudo a partir das décadas de 1970 e 1980. Um domínio,  
entre os muitos que poderíamos referir, é o da linguagem. Esta não é 
uma entidade à parte que sobrevive imutável à passagem do tempo, 
mas é constitutiva do contexto em que é utilizada. O masculino gené-
rico, por exemplo, serve, em muitas línguas e contextos, para designar 
o masculino e o feminino, enquanto este último detém um uso muito 
mais limitado
315
. Mesmo a utilização do género comum, em línguas 
como a inglesa, acaba por recorrer, muitas vezes, à noção de masculino 
para designar aquilo que é neutro. Quando o que é universal é mascu-
lino, as mulheres surgem como excepção – como aquelas que têm que 
ser identificadas como tal. Pensemos na utilização recorrente e acrítica 
da palavra “homem” para designar homens e mulheres, ainda tão usada 
em França, Itália, Espanha e Portugal, por exemplo, em discursos escri-
tos ou orais e, mesmo, na escrita académica. 
A língua, tal como a arte, constitui um modo de representação ins-
crito na história, que está intrinsecamente associado aos usos que dela 
se faz e às formas de construir a realidade, detendo o poder de legiti-
mar e naturalizar os seus discursos. Assim, o facto de muitos linguistas 
não reconhecerem que o género de determinadas palavras numa língua 
contém significados para lá das classificações técnicas que as designam, 
não quer dizer que estes significados não existam. De igual modo, não é 
por muitos historiadores da arte omitirem os nomes e a obra de mulhe-
res artistas que podemos afirmar que “não existem mulheres artistas”, 
embora a mensagem que é transmitida seja essa, mesmo que de forma 
subliminar. 

Catálogo: bitstream -> 10451

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