Filipa lowndes vicente a a rte sem his



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PE N SA R O PR E S E NTE


A A RTE S E M H I STÓ R I A
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com uma política de mérito e de qualidade – a excelente qualidade dos 
seus jornalistas assim o demonstra. O 
The Guardian (ou o Observer, ao 
domingo) apresenta uma grande quantidade de mulheres com coluna 
fixa a falarem de assuntos de domínio comum (e não apenas de assun-
tos que se consideram destinados a mulheres), tal como conta entre 
os seus colaboradores com homens e mulheres de diversas origens ét-
nicas, representativos, aliás, de um Reino Unido onde ser “britânico” 
deixou há muito de significar ser “branco”. Claro que o 
The Guardian 
ocupa as bancas de jornal com o 
Sun ou o Daily Mail, onde os discur-
sos visuais e as políticas e ideologias jornalísticas são outras, mas não 
é com eles que se deveria comparar um jornal da qualidade do 
Público 
ou do 
Expresso.
Um outro exemplo poderia ser o do cânone dos jovens escritores 
que tem vindo a ser instituído recentemente nos jornais de referência 
portugueses, do 
JL ao Público ou ao Expresso, ou em conferências e 
festivais literários
313
. Em artigos muitas vezes com direito a capa, o 
tema da “nova geração de escritores” tem ocupado um espaço substan-
cial das secções culturais da imprensa. Neles, pretende-se identificar a 
nova geração de escritores, aqueles que têm entre os 30 e os 45 anos 
e que, ao estarem no seu terceiro ou quarto livros, já deram provas de 
que a escrita é e continuará a ser a sua forma de vida. Consideramos 
que ainda mais surpreendente do que a masculinidade deste cânone 
assim instituído é não haver quem o questione. Porque é que as mu-
lheres estão quase sempre ausentes quando se fala nesta geração? Em 
que momento do processo de publicação literária é que surge esta dis-
paridade – no crivo editorial de quem decide o que é que se publica? 
No crivo da crítica que selecciona quem merece e quem não merece 
ser anunciado como promessa do mundo literário? No momento das 
reflexões mais gerais sobre a “nova geração” como aquelas que têm 
sido feitas ultimamente? Ou na conjugação de múltiplos factores que, 
consciente ou inconscientemente, continuam a associar o masculino 
a uma escrita “literária”, séria, credível, de qualidade e destinada ao  
leitor – homem e mulher – que lê literatura, e o feminino a uma escrita 
destinada a um público feminizado e menos erudito? 
313.
    Um exemplo entre vários: João Bonifácio, “O país dos poetas perdeu 
o medo de ser um país de narradores? David Machado e a sua geração”, Ípsilon
suplemento cultural do Público (29 de Abril de 2011), pp. 6-10.


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A  masculinidade  do  cânone  de  jovens  escritores  e,  sobre-
tudo,  a  ausência  de  interrogação  acerca  dos  porquês  desta  mas-
culinidade  são  factores  que  aproximam  o  mundo  elitista,  culto  e 
intelectual daquelas esferas consideradas distantes da arte ou da litera-
tura. É também mais um dos muitos exemplos de como aqueles que 
política  e  ideologicamente  se  identificam  com  posições  de  contra- 
-poder, de consciência cívica e social e de tolerância (ou de “esquerda”, 
como é muitas vezes referido no senso comum) no que se refere à aceita-
ção das mulheres enquanto agentes criativos e com voz com quem parti-
lhar o espaço cultural, acabam por reproduzir gestos e posições muito se-
melhantes aos tidos como “reaccionários”. Obviamente, não são apenas 
os homens que o fazem. Como também tem sido estudado pelas ciências 
sociais, as mulheres não apenas aceitam, muitas vezes, as normas patriar-
cais vigentes, como contribuem, tanto activa como passivamente, para a 
sua legitimação e reprodução. Estes exemplos só são relevantes porque 
demonstram que o mundo da arte não é distinto de outros mundos. 
Não está aqui em causa a competência 
daqueles que estão, mas sim 
a ausência 
daquelas que não estão. O que está em causa é o processo – 
múltiplo, mais inconsciente do que consciente – que leva a que a voz 
dominante da opinião pública, da palavra e da criatividade seja mascu-
lina, um fenómeno que, tantas vezes, se atribui a um passado remoto 
ou ao presente de países que consideramos muito longe do nosso em 
desenvolvimento  e  democracia.  Pensamos  que  só  quando  existirem 
muitos homens e mulheres de várias gerações, incomodados com esta 
ausência de vozes e caras femininas nos espaços mais prestigiados e in-
fluentes da opinião pública; só quando existir um número substancial 
de pessoas que considerem que estes são sinais de uma sociedade com 
um baixo défice de cultura democrática; só quando a crítica ao siste-
ma invisível de quotas masculinas vier de dentro – também daqueles 
que têm acesso à palavra, e nem sequer são mulheres – é que poderá 
aumentar a consciência em relação às fortes mensagens políticas e cul-
turais que estas escolhas significam. Perante o cenário actual, as novas 
gerações – as dos nossos filhos que são, hoje, crianças e adolescentes 
– acharão “natural” que sejam os homens a dominar o espaço público 
naquelas questões que são consideradas mais relevantes, da economia 
à política, à religião ou à cultura. Tal como acharão que é natural que as 
mulheres dominem a publicidade e o espaço visual daquilo que é “light” 
ou “feminino”. Só quando se tiver presente a força da “naturalização”  

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