Filipa lowndes vicente a a rte sem his



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PE N SA R O PR E S E NTE


A A RTE S E M H I STÓ R I A
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uma mudança de geração entre aqueles que escrevem os artigos de opi-
nião de actualidade e política nos jornais portugueses. Mas este espaço 
de palavra atribuído às novas gerações, aqueles que têm entre 35 e 50 
anos, não mudou de género: os homens mais velhos foram substituí-
dos por homens mais novos. Olhemos para uma edição do 
Expresso ao 
acaso, tendo em conta que esta constatação poderia ser feita para todos 
os nossos melhores jornais
311
. A página de “Editorial & Opinião” apre-
senta cinco artigos de opinião com fotografia, ou seja, de colaboradores 
permanentes, e dois artigos de colaboradores pontuais. Todos os sete 
colunistas são homens. Acaso? Coincidência? Não existirão mulheres 
competentes na área da política nacional e internacional, informadas 
e cultas que também o possam fazer? Ou será que aquelas que seriam 
competentes para o fazer estão menos interessadas na exposição pú-
blica e nas exigências implícitas numa crónica semanal? Esta página 
está em harmonia com as outras páginas deste exemplar do primeiro 
caderno do 
Expresso, onde todas as colunas de opinião são masculinas, 
onde quase todas as fotografias ou entrevistas são de homens e onde a 
principal presença feminina do caderno é a modelo de uma marca de 
roupa interior a ocupar uma página inteira de publicidade. Ironia? 
Não por acaso, os homens tendem a ter uma identidade e um 
nome, e a representarem-se a si próprios, enquanto as mulheres sur-
gem muitas vezes na cultura visual contemporânea sem nome nem 
identidade, a representar “a mulher”. Esta tendência de uma mulher 
representar “as mulheres” também se dá num outro sentido. Quando 
as mulheres têm nome e identidade, mas têm também uma má ima-
gem pública, esta tende a servir de prova de como a conjugação entre 
mulher e poder não resulta. Isto é muito frequente em relação a figuras 
políticas. Os líderes políticos de diferentes momentos históricos, por 
muito autoritários ou violentos que sejam, são vistos na sua individua-
lidade e não enquanto representativos dos “homens”. Quando se quer 
criticar as mulheres políticas (Margaret Thatcher é um exemplo muito 
referido), pelo contrário, o factor “mulher” já surge como relevante. 
Elas surgem como exemplificativas de um modo de agir e fazer das 
“mulheres”, enquanto prova da inaptidão das “mulheres” para o poder 
político, ou enquanto exemplos de mulheres-masculinas.
311.
    Expresso, Primeiro Caderno, 5 de Março de 2011. Os exemplos são 
inúmeros e generalizados em todos os nossos jornais de referência.


237
Indissociável deste fenómeno é o facto de o masculino tender a re-
presentar o ser humano, enquanto o feminino se representa a si próprio: 
quando os assuntos debatidos na comunicação social se relacionam com 
política nacional ou internacional, economia, estado da nação, relações 
com o exterior, etc., impera claramente a voz masculina; as mulheres, 
por outro lado, tendem a predominar naqueles programas ou secções 
destinados a “assuntos” que se consideram femininos. Este império da 
voz masculina entre nós não é somente na comunicação social. Os ciclos 
de conferências sobre grandes temas da actualidade – da globalização 
ao futuro – organizados pelas nossas mais prestigiadas instituições são 
outro exemplo desta desproporção abissal
312

O  contraste  com  este  cenário  de  predomínio  maciço  de  caras 
masculinas a manifestarem-se sobre a nação, o mundo e a cultura em 
vários meios de comunicação social, festivais literários ou ciclos de 
conferências  organizados  por  instituições  culturais  e  fundações  em 
Portugal e aquilo que acontece em muitos outros países onde exis-
te uma maior consciência igualitária é muito evidente. Um exemplo 
poderá ser o de um jornal como o 
The Guardian britânico, um jornal 
cuja “qualidade” ninguém poderá questionar, mas também um jornal 
que tem uma clara política de diversidade e representatividade entre 
os jornalistas e colaboradores que dão o nome e a cara. Além de dar 
grande  destaque  a  questões  relacionadas  com  os  direitos  humanos, 
incluindo os direitos das mulheres, este jornal é também a prova de 
que uma política de diversidade de género e étnica não é contraditória 
312.
    A Câmara Municipal de Cascais, mais uma vez, organizou um excelente 
programa de conferências internacionais, desta vez sobre Global Challenges. Local 
Answers
 (Maio de 2011). Mas, ao convidar apenas 3 mulheres entre 24 homens, 
acaba por passar uma mensagem política que contraria o próprio título do ciclo de 
conferências. É que um dos mais relevantes factores de desenvolvimento de um 
país é precisamente o grau de igualdade de género que ele apresenta, naquele que 
é, sem dúvida, um dos principais “desafios globais” dos nossos tempos; Serralves 
organizou, também em 2011, um ciclo de conferências intitulado O Imaterial: 
Os Novos Paradigmas da Contemporaneidade
. Dez conferências, cada uma com 
um orador e um moderador, à excepção de uma delas com dois oradores, ou 
seja, vinte e um participantes. Quantas mulheres? Uma. Uma das nossas mais 
prestigiadas instituições demonstra como a contemporaneidade ainda está plena 
de “velhos paradigmas” que passam despercebidos e inquestionáveis. O Festival 
do Silêncio
, iniciativa muito interessante que decorreu numa Lisboa “Capital da 
Palavra” em Junho de 2011, é mais um exemplo de um acontecimento cultural 
extremamente original e interessante mas onde a palavra ainda é, sobretudo, a 
proferida no masculino e sobre o masculino (ou seja, quer os escritores e poetas 
evocados, quer os artistas/escritores convidados para se debruçarem sobre essas 
palavras foram homens na sua maioria).  

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