Filipa lowndes vicente a a rte sem his



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PE N SA R O PR E S E NTE


A A RTE S E M H I STÓ R I A
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invisível;  quando  ele  é  feminino,  o  género  parece  constituir-se  en-
quanto factor ou critério. Quando uma exposição apenas tem homens, 
é simplesmente uma exposição; se só tiver mulheres, é uma exposição 
de “mulheres artistas”. Os exemplos são inúmeros: em 1996, a lista 
de quatro finalistas para o famoso Turner Prize, criado pela Tate, foi 
constituída só por homens, mas quando, em 1997, a lista apresentou 
quatro artistas mulheres e nenhum homem, as reacções críticas não 
se fizeram esperar. Isto não acontece obviamente apenas com prémios 
artísticos, mas com todo o tipo de escolhas onde os candidatos são ho-
mens e mulheres, ou com assuntos que tratam de mulheres enquanto 
objecto de estudo. Pollock conta como, em 1988, alguém questionou 
se não haveria demasiado “feminismo” no curso de história da arte da 
Universidade de Leeds (Reino Unido), isto porque, além da crítica 
feminista da história da arte a que os alunos estavam expostos nas di-
ferentes opções da licenciatura, havia uma disciplina sobre artistas fe-
ministas contemporâneas
309
. Quem é que se insurge contra o domínio 
do masculino na história da arte ensinada nas universidades? Porque 
é que os temas centrados nas “mulheres”, no “feminismo”, ou no “gé-
nero”, mesmo na supostamente crítica academia, continuam a causar 
tantas perturbações, enquanto a hegemonia do objecto historiográfico 
masculino passa quase sempre incólume e inquestionado? O que po-
deríamos dizer do caso português? Embora isto se tenha passado em 
Inglaterra há mais de vinte anos, a história da arte ensinada nas univer-
sidades portuguesas ainda não foi afectada pelas abordagens teóricas 
feministas. Que reacções surgirão quando isso acontecer?
Se a escolha recai sobre uma mulher, ainda é muito comum, em 
crítica de arte ou literária, considerar que se tratou de uma escolha 
“politicamente correcta”, uma escolha devida não ao mérito da pessoa, 
mas ao facto de ela ser mulher. Serão então as escolhas, dominantes, 
do masculino “politicamente incorrectas”? Porque é que, aí, o sexo se 
apaga para prevalecerem o mérito e a qualidade? Porque é que, perante 
o domínio das escolhas masculinas – para um prémio artístico, para 
as páginas de opinião dos jornais ou para os debates televisivos, para 
o enunciar de nomes “da nova geração de escritores” –, não surgem 
vozes a dizer que eles também foram escolhidos por serem homens?  
309.
    Griselda Pollock, Vision and Difference. Femininity, feminism, and the 
histories of art
 (Londres: Routledge, 1988), p. 9.


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Se  a  vencedora,  além  de  mulher,  for  negra,  então  é  muito  provável 
que a suspeita recaia imediatamente sobre as razões do júri. Vejam-se 
alguns dos comentários na imprensa à escolha do livro 
Trois Femmes 
Puissantes, da franco-senegalesa Marie NDiaye, para o prestigiado pré-
mio literário francês Goncourt na edição de 2009.
As questões relacionadas com as discriminações de género (ou 
étnicas,  ou  de  orientação  sexual)  e  tudo  aquilo  que  sugira  direitos 
das mulheres, equilíbrio, paridade ou justiça entre homens e mulhe-
res tornaram-se um alvo fácil de uma certa voz “politicamente incor-
recta” que se posiciona, supostamente, como sendo “contracorrente”. 
Não será o medo do politicamente correcto, pelo contrário, uma outra 
forma de revelar o temor daquilo que veio questionar as normas do 
poder instituído? Ou mesmo a persistência de uma condescendência 
e desprezo em relação às capacidades, direitos, criatividade, qualidade 
daqueles que antes não tinham (ou tinham menos) acesso à palavra, 
ao espaço público e ao poder
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? Não será que “transgredir” as nor-
mas passa muito mais por criticar as discriminações de género, étnicas 
ou de orientação sexual do que por endossá-las? Tudo isto tem sido 
estudado, e demonstrado, por estudos nas áreas das ciências sociais e 
humanas. Mas a passagem deste conhecimento para a opinião pública 
é muito mais difícil. Consideramos ser essa a principal diferença entre 
Portugal e outros países. Estas discriminações, obviamente, não acon-
tecem só em Portugal, fazendo parte de todas as zonas do mundo con-
sideradas democratas, paritárias e desenvolvidas. A principal diferença 
é que, noutros países, existe uma opinião pública (e não apenas uma 
classe académica) feita de mulheres e de homens mais conscientes da 
importância de se lutar contra preconceitos de género, etnia ou orien-
tação sexual, por exemplo. 

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