Filipa lowndes vicente a a rte sem his



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PE N SA R O PR E S E NTE


A A RTE S E M H I STÓ R I A
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não são afectadas por diferenças de género, mas apenas por aquilo que 
consideram ser merecedor e pelas características intrínsecas à obra. 
Esta postura, que aparentemente seria a ideal, não pode servir como 
pretexto para a negação da questão em si. Ou seja, não é pelo facto 
de quem tem o poder da escolha não discriminar uma mulher artista 
por ela ser mulher (mas apenas por ela ser uma “má” artista) ou não 
favorecer um homem artista por ele ser homem (mas sim por ele ser 
um “bom” artista) que se deve alhear da tomada de consciência de que 
estas discriminações são reais, apesar de quase sempre inconscientes 
ou não-assumidas.  
Outra resposta comum, não especificamente no mundo da arte 
mas em todos aqueles contextos que impliquem uma escolha, recai 
sobre a “qualidade” de quem escolhe: quem escolhe tem mérito e 
competências para o fazer e, portanto, se o fez, por alguma razão foi. 
Obviamente, estas questões nada têm a ver com o mérito, a inteli-
gência ou a capacidade de quem escolhe, mas sim com a 
consciência 
de quem faz essas escolhas. Há um paralelismo que nos pode ajudar 
a compreender este argumento. Há 30 anos, em Portugal, a consci-
ência ecológica da grande maioria da população era muito reduzida, 
sobretudo quando comparada com a de outros países da Europa. E, 
paradoxalmente, aqueles que em Portugal viviam de um modo “eco-
lógico” faziam-no, muitas vezes, sem consciência de que o estavam a 
fazer, porque muitas vezes eram os mais pobres, os mais analfabetos 
e aqueles que não tinham alternativas para viverem de outros mo-
dos. Hoje, é um facto que existe muito maior consciência ecológica 
no nosso País – devido a múltiplas razões, que vão da educação em 
vários  níveis  de  escolaridade  às  políticas  governamentais,  ao  mili-
tantismo de várias ONG, à globalização de certas questões, ou a um 
investimento neste assunto por parte da comunicação social. Seriam 
as pessoas de há 30 anos “menos” competentes do que o são agora? 
É pouco provável. Hoje são, sim, muito mais conscientes em relação 
à necessidade de se viver de um modo mais ecológico e sustentável. 
Como este, existem inúmeros exemplos – da escravatura aos direitos 
das crianças – de como a consciência colectiva em relação a muitos 
assuntos é indissociável do tempo e do espaço históricos. 
O mesmo pode ser invocado para a consciência feminista. Hoje, 
continua a existir um défice de consciência feminista na opinião públi-
ca generalizada, tal como há trinta anos havia um défice de consciência  


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ecológica.  Uma  consciência  feminista  leva  aqueles  que  escolhem  a 
pensar o mérito e a qualidade 
sem os preconceitos que ainda levam a 
escolher uma maioria masculina, mesmo em áreas onde o argumento 
da quantidade já não pode ser invocado. Enquanto aqueles que defi-
nem o que é a qualidade artística através das suas escolhas não forem 
conscientes de que “qualidade” é um critério determinado por signi-
ficantes mutáveis historicamente, onde também se podem encontrar 
preconceitos de género, de que eles próprios são também agentes, a 
“qualidade” continuará a ser usada acriticamente para justificar a au-
sência de mulheres. Um dos caminhos para uma mudança nesta des-
proporção é, sem dúvida, sensibilizar a consciência de quem escolhe. 
Mas, como tem sido muito estudado pelas ciências sociais e humanas, 
tudo aquilo que implique uma mudança dos nossos hábitos, da nossa 
forma de pensar e de agir quotidianamente, ou uma dificuldade acres-
cida  àquilo  que  fazemos  automaticamente,  gera  resistências.  A  mu-
dança implica parar e questionar, implica uma atitude proactiva que 
se pode tornar mais um obstáculo, a juntar aos muitos que a simples 
vivência da “normalidade” já proporciona. 
Claro que poderemos afirmar que as construções da história ou 
da história da arte implicam sempre a escolha de alguns e o esque-
cimento de outros, escolhas estas que estão sujeitas a critérios sub-
jectivos e vão sendo revistas pelo contínuo fazer da própria história. 
E,  aqui,  poder-se-ia  argumentar,  também  foram  muitos  os  homens 
artistas que, esquecidos durante muito tempo, foram mais tarde recu-
perados (Caravaggio, por exemplo). Mas a questão fundamental não é 
a das exclusões que tanto podem afectar homens como mulheres, mas 
sim o facto de o género ser determinante neste processo. Enquanto 
muitos homens e mulheres artistas podem não fazer parte do câno-
ne da história da arte por razões de outra ordem, 
 a apreciação do 
trabalho das mulheres artistas é que está condicionada pelo facto de 
serem mulheres. Ou seja, um homem pode ser esquecido por muitos 
motivos, mas nunca por ser “homem”, enquanto, ao ser generalizada, 
a ausência de mulheres artistas na historiografia da arte do século XIX 
e também do século XX demonstra que a componente “mulher” se 
constitui num factor de exclusão significativo.
Um sinal da persistência de formas de discriminação no mundo 
da arte contemporânea é o da visibilidade ou invisibilidade do géne-
ro. Ou seja, quando o género dos artistas é masculino, não se nota, é  

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