Filipa lowndes vicente a a rte sem his


partir, para uma mulher, podia representar uma dupla libertação. Será



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partir, para uma mulher, podia representar uma dupla libertação. Será 
que, se Paula Rego tivesse ficado em Portugal, o seu percurso artístico 
não teria sido limitado 
também pelo facto de ela ser uma mulher, além 
das outras condicionantes de lugar periférico analisadas por Alexandre 
Melo? Apesar de pertencer a uma família culta e apreciadora da cultura 
anglo-saxónica, facto determinante na sua ida para Londres, Paula Rego 
não deixava de ser uma menina de “boas famílias”, a morar na zona de 
Cascais, com todas as expectativas e limitações sociais que isso pressu-
punha. Naturalmente, a ida para Londres e para a Slade School of Arts 
significou uma libertação onde faz todo o sentido incluir o factor género, 
como a própria Paula Rego reconhece ao citar aquilo que o pai lhe dizia 
antes de ter partido para Londres, para estudar: “Vai-te embora deste 
país, porque não é um país para mulheres.”
304
 
Assim, consideramos que, tão pertinente como pensar a saída de 
Portugal de duas das artistas portuguesas mais conhecidas internacio-
nalmente em termos de centro e periferia é o de nos questionarmos acer-
ca do seu género. As geografias do género, os modos como a história 
fez do masculino o centro e, do feminino, a periferia, são tão pertinentes 
como as que levaram tantos investigadores a reflectir sobre as relações 
entre centros e periferias no interior de espaços locais e nacionais. Mes-
mo num momento em que, cada vez mais, a arte se pensa de um modo 
transnacional, em que os artistas têm carreiras internacionais e a mobili-
dade e a circulação estão imbuídas em percursos artísticos onde a nacio-
nalidade pode deixar de fazer sentido enquanto instrumento de análise, 
continuam a existir muitas diferenças nacionais em relação a questões de 
género e mesmo nos modos como as diferentes áreas de saber se cons-
troem em diferentes países . Mas normalmente, quando isto acontece, 
não se dá apenas na esfera artística, mas também em várias outras esferas. 
304.
    Continua Paula Rego, nas palavras proferidas ao receber o prémio 
Personalidade Portuguesa do Ano atribuído pela Associação de Imprensa 
Estrangeira em Portugal: “Nessa altura o meu pai tinha razão. Agora já não é  
bem assim. Eu voltei para a Casa das Histórias e é já uma prova que isto é  
um país para mulheres.”: http://mulher.sapo.pt/celebridades/vip/paula-rego- 
premiada-1108725.html


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Uma rápida passagem pela história da arte portuguesa dos últi-
mos 60 anos, nas suas exposições retrospectivas e publicações, sugere- 
-nos como as mulheres artistas foram alvo daquela discriminação in-
visível que é característica de um período em que já não se podem 
identificar os obstáculos mais óbvios. Perguntar-nos-íamos mesmo se 
o facto de outras mulheres artistas na segunda metade do século XX, 
como Helena Almeida, Ana Hatherly, Lourdes de Castro, Ana Vieira, 
ou Luisa Correia Pereira, só terem sido “descobertas” (para o grande 
público, para as retrospectivas, para as bienais) décadas depois de esta-
rem a trabalhar não estará também relacionado com o facto de serem 
mulheres? A propósito da exposição antológica da Helena Almeida 
na Casa da América (Madrid, 1998), comissariada por Isabel Carlos, 
Rosa Cunha considera-a “uma das mais importantes artistas portu-
guesas  do  pós-guerra.  Insuficientemente  conhecida,  praticamente 
não  estudada  nem  referida  em  termos  internacionais,  constitui  um 
caso único de originalidade e individualidade nos caminhos da con-
temporaneidade portuguesa”
305
. Do mesmo modo, João Pinharanda, 
num artigo sobre uma exposição antológica de Ana Vieira em 1999, na 
Fundação de Serralves, reconhece como a artista tem “30 anos de um 
percurso fundamental, embora pouco conhecido”
306
. O texto sobre a 
retrospectiva da obra de Luisa Correia Pereira (1945-2009), organiza-
da na Culturgest, também nota como a artista “produziu, ao longo de 
quase quatro décadas, uma obra de pintura e de desenho idiossincráti-
ca, com notáveis fulgurações, mas que uma grande parte do mundo da 
arte desconhece ou à qual permanece indiferente”
307
. Apesar de isto 
nunca ser dito, não estará o facto de elas terem sido reconhecidas mui-
to tempo depois de terem começado a trabalhar também relacionado 
com o facto de a história e a crítica da arte portuguesas nos anos 80 e 
90 terem sido narradas sobretudo no masculino (os anos 80, por ve-
zes, são enunciados somente com artistas masculinos)? Não estariam 
305.
    Rosa Cunha, “Casa da América. Helena Almeida”, Arte Ibérica, n.º 11 
(Fevereiro de 1998), p. 12; ver também, por exemplo, o catálogo de uma 
exposição de Helena Almeida organizada por Delfim Sardo no Centro Cultural  
de Belém: Helena Almeida – Pés no Chão, Cabeça no Céu (Lisboa: Centro Cultural 
de Belém, 2003).

Catálogo: bitstream -> 10451

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