Filipa lowndes vicente a a rte sem his


A S “ R E S E RVA S ” DA H I STÓ R I A DA A RTE PO RTU G U E SA



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A S “ R E S E RVA S ” DA H I STÓ R I A DA A RTE PO RTU G U E SA


A A RTE S E M H I STÓ R I A
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vivida nos museus, a escolha das palavras ou a escolha dos objectos 
artísticos – encarregou-se de apagar os traços tão visíveis destas mu-
lheres, outorgando-lhes, na maior parte dos casos, o lugar do esque-
cimento ou umas breves linhas numa nota de rodapé, as “reservas” 
de um museu nacional, as paredes de uma casa-museu pouco visita-
da e, sobretudo, as salas das casas particulares de tantas famílias que 
herdaram os quadros das bisavós e trisavós que pintavam. Claro, po-
deremos invocar que também existem nomes de artistas masculinos 
que se ficaram pelos catálogos de fim de Oitocentos, princípios de 
Novecentos, sem passarem pelo crivo de “qualidade” (do historia-
dor da arte ou do acaso). Mas se, como já vimos, isto pode aconte-
cer por inúmeras razões, não acontece pelo facto de o artista ser um 
“homem”. A quantidade de mulheres artistas que não passaram neste 
crivo é obviamente um factor indissociável do género.
Assim,  a  história  da  arte  portuguesa  centrada  no  século  XIX, 
princípio do século XX, não revela a quantidade de mulheres artistas 
deste período. E, mesmo que o argumento seja o da qualidade – “elas 
não são boas, não passaram pelo crivo da qualidade, não vale a pena 
estudá-las e, por isso, é que não as conhecemos” –, seria de esperar que 
este fenómeno fosse, pelo menos, mencionado, nem que fosse para 
tentar compreender as razões culturais e sociais que afectaram a pro-
dução artística de grande parte das mulheres, prejudicando a sua qua-
lidade  e  limitando  o  seu  desenvolvimento  individual.  Conhecemos 
assim grande parte dos nomes masculinos que, em vida, expuseram 
nas representações portuguesas das exposições universais ou nas da 
Sociedade de Belas-Artes de Lisboa. Mas os nomes femininos ficaram 
nas fontes primárias – nos catálogos e periódicos –, não tendo passado 
para a bibliografia secundária. Quem quiser empreender esta história 
terá que partir sempre muito mais dos documentos, das fontes, dos 
materiais originais do que da bibliografia secundária, porque ela sim-
plesmente ainda está por escrever. Por outro lado, ao ser feita, esta será 
sempre uma investigação muito textual, mais dependente da escrita 
que descreve a obra – dos catálogos de exposições da época, da crítica 
feita em jornais, ou dos espólios de correspondência e diários das pró-
prias artistas – do que da obra em si, porque esta foi menos comprada 
por instituições públicas ou museológicas, foi menos reproduzida em 
livros de história da arte e permanece, sobretudo, no espaço menos 
acessível de casas particulares.


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Poster da exposição de Helena Almeida
Galeria Módulo na Sociedade Nacional de Belas-Artes, Lisboa, 1978,
col. da autora

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