Filipa lowndes vicente a a rte sem his



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PO D E R O LH A R


A A RTE S E M H I STÓ R I A
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que tendiam a reproduzir a imagem do homem ou da mulher anónimos 
e mais próximos daquilo que se identificava como sendo “primitivo” e 
que alimentava as fantasias de uma Europa a precisar de legitimar a sua 
empresa colonizadora. Em imagens produzidas cá ou produzidas lá, as 
mulheres ocupavam um enorme espaço visual onde as fronteiras da sua 
erotização eram muito ténues. Estas imagens não eram da sua autoria 
nem da sua iniciativa mas, pelo contrário, reificavam a sua impotência e 
a sua ausência de voz. 
Este género de fotografia produzida em contexto colonial pode, 
aliás, servir de metáfora para um outro aspecto inseparável deste fenó-
meno: o modo como o olhar masculino encontrava legitimidade para 
olhar o corpo desnudo de uma mulher. Tal como o fotógrafo, que mui-
tas vezes é também o antropólogo, pode e deve olhar para a mulher 
colonizada, o espectador masculino também o pode e deve fazer. Este 
“homem”, cidadão de uma nação quase sempre colonizadora, era en-
corajado a partilhar os valores de supremacia colonial ou étnica, nem 
que fosse com a verificação visual da sua existência. Provavelmente, 
nunca viajaria até às colónias, mas lera e, sobretudo, vira muitas pro-
vas da sua existência: nos jornais ilustrados, nas fotografias, gravuras,
 
posters, exposições universais e coloniais que se banalizaram em toda 
a Europa ao longo da segunda metade do século XIX e à medida que 
os processos de reprodução litográfica se foram tornando mais fáceis; 
ou ainda, a partir de finais do século XIX, em postais fotográficos que 
multiplicaram a vulnerabilidade dos corpos expostos ao torná-los dis-
poníveis às muitas pessoas que participavam na circulação e no colec-
cionismo de postais. 
Nos  postais  fotográficos,  como  nas  exposições,  a  legitimidade 
científica da antropologia ou do conhecimento colonial serviu para 
produzir imagens de um erotismo mais ou menos assumido. O que 
é que estas imagens de mulheres não-europeias nuas ou seminuas re-
velavam? A nudez pura e assexuada do “bom selvagem” de Rousseau,  
ou a pornografia tolerável (porque não expunha a mulher branca pa-
recida com a mãe, a irmã ou a mulher) para o coleccionador de postais 
europeus? A imagem “real” e etnográfica dos usos e costumes de ter-
ras distantes, ou a legitimidade em ver corpos nus sem incorrer numa 
transgressão? Como é que as imagens dos corpos seminus das mulhe-
res que vinham de longe, disponíveis ao olhar dos homens europeus, 
mimetizavam a própria natureza das relações coloniais, onde o coloni-


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zador era, por definição, o homem branco europeu civilizado, e a terra 
colonizada, o lugar virgem, selvagem, por controlar e civilizar, cujas 
descrições textuais pareciam, tantas vezes, metáforas de um corpo fe-
minino à espera de ser conquistado e penetrado?
Na mesma altura em que as mulheres seminuas e de pele casta-
nha-escura chegavam à Europa através das telas de Gauguin, das lito-
grafias dos jornais ilustrados ou das fotografias onde tantas vezes se 
cruzavam as fronteiras entre antropologia e pornografia, mulheres re-
ais e verdadeiras, também seminuas, vinham ocupar outros espaços de 
visualidade moderna nos centros das grandes urbes europeias e norte- 
-americanas
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. Pensamos nos jardins de aclimatação e nos jardins zo-
ológicos que, ao longo do século XIX e ainda nas primeiras décadas 
do século XX, receberam com regularidade grupos de pessoas prove-
nientes de lugares do mundo que, quase sempre, eram também lugares 
colonizados pela Europa que os exibia. Este fenómeno que tem sido 
trabalhado pelos estudos coloniais, ou pelas abordagens da cultura vi-
sual e da antropologia, e que é muitas vezes identificado com a desig-
nação de “zoos humanos”, sugere até que ponto a visualidade moderna 
e as novas práticas culturais e de lazer disponíveis nas grandes cidades 
europeias faziam uso dessa dicotomia entre “nós” e os “outros”, os já 
colonizados ou passíveis de o serem.
Assim,  em  finais  do  século  XIX,  o  público  europeu  podia  ver 
mulheres desnudas não-europeias e não-brancas em espaços bem pú-
blicos, e não somente nas paredes dos museus ou 
salons. Até então, 
as fronteiras entre as diferentes esferas estavam mais definidas – era 
clara a diferença entre um nu de Botticelli ou de uma estátua grega e 
as representações em gravura do nu erótico feminino que circulavam 
entre homens de classes altas, oculto e invisibilizado do espaço pú-
blico ou do olhar das mulheres do seu meio social. Mas as desigual-
dades e as assimetrias de poder indissociáveis das relações coloniais 
vieram colocar o corpo da mulher não-ocidental num outro lugar, de 
fronteiras mais indefinidas e numa visibilidade mais legítima. Aquele 
282.
    Filipa Lowndes Vicente, recensão ao livro de Nicolas Bancel, Pascal 
Blanchard, Gilles Boetsch, Éric Deroo e Sandrine Lemaire, eds., Zoos Humains: 
De la Vénus Hottentote aux 
reality shows (Paris: Éditions La Découverte, 2002): 
“Zoos Humanos”, Estudos do Século XX, n.º 3 (2003), pp. 389-395. Ver catálogo 
da exposição recente no Musée du Quai Branly: Human Zoo. The Invention of the 
Sauvage
, ed. Pascal Blanchard, Gilles Baëtsch e Nanette Jacomiyn Snoep (Paris: 
Actes Sud; Musée du Quai Branly, 2011).

Catálogo: bitstream -> 10451

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