Filipa lowndes vicente a a rte sem his



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228
.
Aurélia de Sousa,
 
Santo António,
 óleo sobre tela, Casa-Museu Marta Ortigão 
Sampaio, Porto. Cortesia da Câmara Municipal do Porto.
227.
    The Journal of Marie Bashkirtseff, trad. de Mathilde Blind, introd. de 
Rozsika Parker e Griselda Pollock (Londres: Virago Press, 1985), p. 350.
228.
    Beatriz Berrini, Cartas a Emília (Lisboa: Biblioteca Nacional, 1993), 
p. 104: citado por Maria João Lello Ortigão de Oliveira, Aurélia de Sousa em 
Contexto. A cultura artística no fim de século
 (Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da 
Moeda, 2006), pp. 217-218. 
I D E NTI DA D E A RTÍ STI C A N O S ÉC U LO XI X


A A RTE S E M H I STÓ R I A
174
Os exemplos são inúmeros e prolongam-se pelo século XX. Um 
crítico que viu a obra de Aurélia de Sousa na Academia de Belas-Ar-
tes portuense, em 1909, também admirou o “talento varonil” de uma 
pintora que se encontrava na “plena posse das suas faculdades”
229

Em 1943, um dos críticos de uma exposição de Theodora Andresen 
de Abreu (1900-1989), pintora portuense que, tal como Aurélia de 
Sousa ou a brasileira Tarsila do Amaral (1886-1973), também es-
tudou  na  Academia  Julian  de  Paris,  caracterizou-a,  antes  de  mais, 
como “esposa”, “mãe” e “dona de casa”. “A sua casa é o seu mundo”, 
continuou o crítico, “não carece de ausentar-se dele para encontrar 
modelos. Um rosto de bambino, uma jarra com flores, um recanto, 
uma mesa com objectos – tudo lhe serve para o exercício da pin-
tura. E, como tudo dentro de casa é pequenino, carinhoso, minia-
tural, Theodora Andresen, olhando o seu mundo, pôs-se a pintá-lo 
amorosamente,  com  a  delicadeza  e  o  cuidado  de  quem  lavra  fina 
tessitura”
230
. Aqui vemos como o comentador delineou o retrato da 
“pintora ideal”, aquela que reproduzia o seu mundo “feminino”, sem 
dele sair, aquela que não transgredia as fronteiras de género e que 
usava a arte para reafirmar a sua feminidade.
Mas se, em 1943, a sua pintura estava contida nas categorias do 
feminino – mulher e artista são a mesma pessoa, sem entrar em con-
tradição (e sem sair de casa) –, em 1955, o mesmo crítico elogiou- 
-lhe a “técnica máscula e forte, que bem poderia atribuir-se a qualquer 
pintor  masculino”
231
.  A  propósito  da  mesma  exposição  da  pintora 
na Sociedade Nacional de Belas-Artes de Lisboa, em 1955, um ou-
tro crítico anónimo também narrou o seu progresso artístico, quer do 
ponto de vista geográfico, quer como uma transição das qualidades 
femininas para as masculinas. Assim, se os seus começos portuenses, 
sugeria o crítico, estariam marcados por “todas as qualidades e até de-
feitos da sua condição feminina, isto é: paisagens doces, miniaturas de  
229.
    Joaquim Costa, “Exposição d’arte”, Arte, n.º 53, Porto 1909, pp. 34-39: 
citado por Adelaide DuarteAurélia de Sousa (Matosinhos: QuidNovi, 2010), p. 81. 
230.
    Octávio Sérgio, “A propósito da exposição individual no Salão Fantasia
1943”, Theodora Andresen (1900-1989). Uma pintora portuense (Porto: Casa Tait, 
2001), Catálogo de Exposição, p. 58.
231.
    Octávio Sérgio, “A propósito da exposição individual em Lisboa, SBNA, 
1955”, Theodora Andresen (1900-1989). Uma pintora portuense, p. 59. Como 
acontece em quase todos os textos sobre mulheres artistas publicados em 
Portugal, independentemente da sua “qualidade” e “mérito”, a perspectiva de 
género é ignorada. 


175
flores, em que o sentimento visual domina a realidade”, a ida para Pa-
ris, no entanto, abrira-lhe os horizontes, fazendo com que “o seu talen-
to, numa viragem decisiva”, encontrasse o “rumo triunfal”
232
. Este tipo 
de avaliação crítica, em que as qualidades masculinas da obra de uma 
artista são citadas para a elogiar, foi muito comum no século XIX, mas 
persistiu por todo o século XX. Nestes casos, contudo, a apreciação da 
obra não se transferia para as artistas em si, ou seja, a feminilidade da 
artista não era ameaçada.
Num período que viu consolidada a teoria das “esferas separadas” 
– ou seja, a divisão entre espaço privado/feminino e espaço público/ 
/masculino – e que usou o poder da legitimidade científica para defi-
nir aquilo que era masculino e aquilo que era feminino, tudo o que saía 
destes limites corria o risco de ser considerado pouco “natural”. Assim, 
tal como a sufragista, que reclamava o direito ao voto, ou a mulher 
dedicada à escrita, a mulher artista oitocentista ocupava uma fronteira 
transgressiva onde sexo e género entravam em conflito, ou seja, onde o 
sexo biológico não se encaixava nas expectativas sociais e culturais de 
género que o definiam e moldavam. Criticadas pelas suas pretensões 
à esfera masculina da criatividade ou simplesmente caricaturadas nas 
litografias da época, somente o amadorismo das suas intenções podia 
remeter para um espaço natural, onde eram reempossadas da sua fe-
minilidade. Aí, a sua imagem deixava de ser ameaçadora para readqui-
rir a domesticidade que lhe era permitida. É preciso ter em conta que 
este era também o momento em que se consolidava a ideia do artista 
boémio, individualista e marginal, tal como a da feminista ou sufragis-
ta transgressora, antifeminina e perturbadora, série de prerrogativas 
incompatíveis com as noções de feminilidade mais prementes
233
. Foi 
nesta altura também que a masculinidade numa mulher passou a ad-
quirir um sentido claramente pejorativo. Por um lado, todas aquelas 
que, de alguma forma, não correspondiam ao ideal de mulher casada, 
dedicada ao espaço doméstico e aos filhos, corriam o risco de integrar 
232.
    Anónimo, “A propósito da exposição individual em Lisboa, SNBA, 
1955”, Diário de Lisboa, 1955, Theodora Andresen (1900-1989). Uma pintora 
portuense
, p. 59.
233.
    Ver o estudo de Lisa Tickner, The Spectacle of Women. Imagery of the 
suffrage campaign 1907-14
 (Chicago: The University of Chicago Press, 1988). Ver 
também a recensão a este livro: Jane Beckett e Deborah Cherry, “Spectacular 
Women”, Art History, vol. 12, n.º 1, Março de 1989, pp. 121-128; Patricia Mayayo, 
Historias de Mujeres, Historias del Arte 
(Madrid: Ediciones Cátedra, 2003), pp. 158-161.

Catálogo: bitstream -> 10451

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