Filipa lowndes vicente a a rte sem his


Mulher a pintar paisagem ao ar livre



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Mulher a pintar paisagem ao ar livre,
 
fotografia impressa num postal, c. 1920, col. da autora.
Rapariga a pintar ao ar livre no Porto de St. Jean-de-Luz  
(Baixos Pirenéus, França), postal fotográfico, c. 1950,  
col. da autora.
I D E NTI DA D E A RTÍ STI C A N O S ÉC U LO XI X


A A RTE S E M H I STÓ R I A
168
Por sua vez, o texto de Octave Uzanne, publicado em 1894 e inse-
rido no seu livro sobre as mulheres parisienses, constitui-se num outro 
exemplo de um tipo de olhar masculino que visava classificar e iden-
tificar os diferentes tipos de mulheres através da escrita
222
. Numa tra-
dição de literatura popular e de artigos jornalísticos que descreviam a 
contemporaneidade através da perspectiva divagadora de um 
flâneur
Uzanne reconhecia o fenómeno, cada vez mais visível, das mulheres 
artistas. As suas palavras ilustravam bem um fenómeno que já referi-
mos a propósito de outros períodos históricos: quando as mulheres 
artistas  com  percursos  artísticos  paralelos  aos  dos  seus  congéneres 
masculinos eram uma excepção e, portanto, percebidas como uma mi-
noria e, quando as mulheres artistas amadoras permaneciam num es-
paço privado sem pretensões a outras esferas artísticas, a sua existên-
cia não constituía uma ameaça. Mas, quando a presença das mulheres 
se começou a fazer sentir em diversas profissões e em diversos espaços 
públicos, algo que aconteceu ao longo do século XIX, multiplicaram- 
-se as vozes contra a sua emancipação. Uma das formas de lidar com 
um fenómeno ameaçador consiste em sobrevalorizar a sua força e ca-
ricaturar o seu impacto, tal como fez Uzanne nesta passagem:
Estamos no início de uma nova era, uma era que dará às mulheres a 
possibilidade de desenvolverem ao máximo as suas faculdades intelectuais. 
Em nenhuma outra época foram os seus talentos para a pintura, escultura 
e, sobretudo, literatura tão consideráveis como no presente. As mulheres 
pintoras e músicas multiplicaram-se durante os últimos vinte anos, entre os 
círculos burgueses, mas também no demi-monde
Na pintura, especialmente, elas não se deparam com a oposição violenta 
que tiveram que aguentar noutros tempos. Até se poderia dizer que 
elas são demasiado favorecidas, demasiado encorajadas pelo orgulho e 
pela ambição das suas famílias, e que correm o risco de se transformar 
numa verdadeira praga, uma confusão a temer, e um terrível fluir de 
mediocridade. Um verdadeiro exército de mulheres pintoras invadiu os 
222.
    Octave Uzanne, “Women Artists and Bluestockings”, La Femme à 
Paris: Notes successives sur les parisiennes de ces temps dans leurs divers milieux, 
états et conditions
 (Paris: Ancienne Maison Quartin, Libraries-Imprimeries, 1894); 
edição inglesa: The Modern Parisienne (Londres: Heinemann, 1912), pp. 125-133. 
Reproduzido na antologia Art in Theory 1815-1900. An anthology of changing ideas
eds. Charles Harrison, Paul Wood e Jason Gaiger (Oxford: Blackwell Publishers
1998), pp. 777-781.  


169
estúdios e os Salons, e elas até abriram uma exposição de mulheres pintoras 
e escultoras, onde os seus trabalhos monopolizam galerias inteiras. A 
profissão da mulher pintora está agora consagrada, registada e bem vista. 
Quando Uzanne parece estar a congratular-se com a “nova era” 
onde as mulheres passaram a ter acesso às profissões criativas, as suas 
palavras revertem para uma linguagem quase bélica onde as mulheres 
“invadem” os espaços que anteriormente lhes estavam vedados e, até, 
os “monopolizam”. É necessário ter em conta que a linguagem com 
que ele se refere às mulheres artistas era muito comum em relação às 
mulheres feministas, apontadas como uma ameaça assustadora.
Uma das formas de Uzanne caracterizar as “mulheres artistas”, 
em número cada vez maior, é precisamente sublinhando as diferenças 
irreconciliáveis com os verdadeiros artistas, ou seja, os homens. Para 
justificar o seu raciocínio, o autor apela às palavras do filósofo político 
Proudhon, do historiador Jules Michelet ou do antropólogo italiano 
Cesare Lombroso que, no seu estudo 
L’Uomo di Genio…, apresentara 
as razões científicas da incapacidade feminina para a genialidade
223

O génio tinha género e ele era masculino. Partindo desta premissa, 
as raras excepções femininas que, de alguma forma, o demonstraram 
fizeram-no porque a sua natureza era masculina. Assim, a masculiniza-
ção daquelas mulheres cuja 
qualidade artística era considerada eviden-
te foi um dos caminhos escolhidos para reafirmar a impossibilidade da 
genialidade artística feminina. Aquelas mulheres que o demonstravam 
simplesmente não eram femininas, não eram “mulheres”. 

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