Filipa lowndes vicente a a rte sem his


parte de um lazer cultivado do qual também faziam parte a música



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parte de um lazer cultivado do qual também faziam parte a música 
e a literatura. 
Mais de um século depois, numa conferência proferida na Socie-
dade de Belas-Artes do Porto em 1914, “A Arte na Educação da Mu-
lher”, Antero de Figueiredo, prolixo escritor, reconhece a centralidade 
do tema da “mulher na sociedade moderna”
215
. Depois de se declarar 
213.
    Volkmar Machado, Nova Academia de Pintura Dedicada às Senhoras 
Portuguesas…
, pp. 4-5.
214.
    Volkmar Machado, Nova Academia de Pintura Dedicada às Senhoras 
Portuguesas
, p. 5; a sua irmã, Joaquina Isabel Volkmar Machado, também se 
dedicava à pintura, e a sua obra fez parte de colecções privadas e de igrejas. O 
pouco que se sabe sobre ela foi escrito pelo irmão: Aline Gallasch Hall, “Pintoras 
Portuguesas do século XVIII”, Luísa Capucho Arruda e Aline Gallasch Hall
Mulheres do Século XVIII. Pintoras portuguesas…
 (Lisboa: Ela por Ela, 2006), p. 75; 
ver também Henrique de Campos Ferreira Lima, Princesas Artistas (As filhas de 
el-Rei D. José)
 (Coimbra: Imprensa da Universidade, 1925).  
215.
    Antero de Figueiredo, A Arte na Educação da Mulher, conferência lida pelo 
autor, a convite da Sociedade de Belas-Artes do Porto, na oficina do insigne escul-
tor António Teixeira Lopes, em 26 de Abril de 1914 (Lisboa: Livraria Ferreira, 1914). 


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“antifeminista”, Antero de Figueiredo começa a delinear aquele que 
deve ser o comportamento ideal de uma mulher. Uma vez asseguradas 
a beleza e a higiene do corpo e da casa, o escritor estabelece o tipo de 
conhecimento artístico que uma mulher deve ter e fá-lo, antes de mais, 
estabelecendo os seus limites. No seu retrato não há lugar para a “ar-
tista”, mas sim para a “mulher do artista”
216
. Essa deve “saber acompa-
nhar, espiritualmente interessada, os anseios do marido. Um silêncio 
inteligente, uma aquiescência discreta é, na maioria dos casos, a sufi-
ciente colaboração, exigida pelo compositor, que todo vive no sonho 
da arte”. Perante a mesma obra de arte, mulheres e homens vêem coi-
sas diversas – enquanto “o homem transforma as imagens em ideias”, 
a “mulher despreza temas, pois só plasticamente a arte a interessa”. As-
sim, “instruamo-la de maneira suficiente”, advoga o escritor, num “sa-
ber curto, mas certo”. Com estas bases e o seu “instinto” e “emoção”, a 
mulher tudo apreenderá, e, como que para a familiarizar no mundo da 
arte, Antero de Figueiredo enuncia uma sucessão de nomes de artistas 
e estilos e termina afirmando que “esta instrução artística é mais que 
suficiente para a mulher”
217
. Além dos repetidos objectivos de saber 
entreter o marido, ou “receber com distinção o hóspede estrangeiro”, 
a educação artística na mulher servia sobretudo para que esta não en-
chesse a casa de objectos de má qualidade e gosto duvidoso, para que 
soubesse distinguir o verdadeiro do falso
218
. Este tipo de antinomia 
que associa à mulher a emoção e ao homem a razão foi repetido ao 
longo do século XIX, muitas vezes acompanhado com a chancela legi-
timadora da ciência. A proliferação da imprensa durante este período 
fez com que fossem infindáveis os textos – publicados em jornais, em 
revistas científicas ou sob outros formatos – que afirmavam esta dife-
rença, muitas vezes para justificar a impossibilidade de as mulheres 
acederem aos espaços onde imperava a razão, da prática artística ou da 
escrita, ao exercício da política, ou qualquer outro uso de um poder de 
decisão para lá do âmbito doméstico.
Em 1884, o historiador da arte britânico Leader Scott também 
estabelecera uma clara divisão entre as relações femininas com a arte 
e  as  equivalentes  masculinas,  chegando  a  conclusões  semelhantes 

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