Filipa lowndes vicente a a rte sem his


Merveilleuse au Parc Royal



Baixar 5.05 Mb.
Pdf preview
Página154/298
Encontro09.02.2022
Tamanho5.05 Mb.
#21513
1   ...   150   151   152   153   154   155   156   157   ...   298
Merveilleuse au Parc Royal,
 mulher mascarada a pintar aquilo que parece ser um 
retrato de Napoleão, fotografia assinada por H. Manuel, Paris, c. 1904, col. da autora.   
Constituindo  apenas  uma  amostra  ínfima  da  proliferação  de 
discursos sobre o assunto, aqueles que aqui iremos analisar também 
apontam para um fenómeno sempre latente: as mulheres não são ne-
cessariamente mais atentas aos direitos das mulheres só por serem mu-
lheres. Como tem sido tão estudado nas últimas décadas, as mulheres, 


163
tal  como  os  homens,  fazem  parte  de  um  mesmo  contexto  político, 
social, cultural – com diferentes configurações históricas – e, como 
tal, também reificam e reproduzem a hegemonia patriarcal da socie-
dade onde vivem, contribuindo elas próprias para a sua subalterniza-
ção. Se, ao longo do século XIX, há cada vez mais mulheres (e alguns 
homens),  em  determinados  contextos  nacionais,  a  manifestarem-se 
contra as múltiplas formas da sua opressão, também existiram muitas 
outras que, incomodadas com as vozes de outras mulheres, sentiram a 
necessidade de defender as normas estabelecidas. Assim se explicam 
as muitas vozes femininas a remeter a prática artística das mulheres 
para a domesticidade não-perturbadora que ela sempre ocupara.
Em 1817, foi publicado em Portugal um livro de Cyrillo Volkmar 
Machado que tinha sido escrito no século anterior, dedicado à educa-
ção artística das mulheres portuguesas
212
. Era, antes de mais, um tra-
tado da pintura, com referências aos seus teóricos e com exemplos de 
artistas, assim como uma pequena história do ensino artístico através 
das principais academias europeias, que se assumia como um com-
pêndio para ser lido por mulheres amantes das artes ou artistas. Ao 
contrário do que acontecerá em muitos textos equivalentes para os sé-
culos XIX e XX, Volkmar Machado não parece distinguir o tipo de en-
sino artístico adequado para uma mulher daquele que seria facultado 
a um homem. Ou seja, apenas o título e algumas palavras na introdu-
ção e na conclusão especificam o público-alvo, sem que isso aconteça 
ao longo do livro. Somente o formato de compêndio, em que muitas 
ideias e teorias são expostas de forma concisa, poderia explicar-se de-
vido à menor necessidade de conhecimento por parte das mulheres 
– o saber “curto, mas certo” que, mais tarde, Antero de Figueiredo veio 
a considerar suficiente para as mulheres de inícios do século XX. Ao 
contrário deste, no entanto, que nem sequer antevia a possibilidade de 
existência da mulher artista, Volkmar Machado dirigia-se àquelas que 
212.
    Cyrillo Volkmar Machado, Nova Academia de Pintura Dedicada às 
Senhoras Portuguesas, Que Amão ou se Aplicão ao Estudo das Belas-Artes 
(Lisboa: 
Impressão Régia, 1817). Sobre este livro, ver: Luísa Capucho Arruda, “Contributos 
para o ensino artístico das senhoras portuguesas”, Luísa Capucho Arruda e Aline 
Gallasch Hall, Mulheres do Século XVIII. Pintoras portuguesas (Lisboa: Ela por Ela, 
2006), pp. 23-25. Para um exemplo de um livro também dedicado a uma mulher, 
neste caso pintora, ver: José Gomes da Cruz, Carta apologética, e analytica, que 
pela ingenuidade da pintura, em quanto sciencia, escreveo com profundíssimo respeito
à Illustríssima... D. Anna Lorena
a rogo de André Gonçalves pintor ingénuo ulissiponense 
(Lisboa: Régia Oficina Silviana e da Academia Real, 1752).

Catálogo: bitstream -> 10451

Baixar 5.05 Mb.

Compartilhe com seus amigos:
1   ...   150   151   152   153   154   155   156   157   ...   298




©historiapt.info 2022
enviar mensagem

    Página principal