Filipa lowndes vicente a a rte sem his


A A RTE S E M H I STÓ R I A



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A A RTE S E M H I STÓ R I A
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questões em torno do feminismo e demonstrativo da premência da 
sua publicação.
As mulheres artistas desconhecidas do passado não existem.
Só existem aquelas que se conhecem, cuja obra foi exposta,  
comentada,  debatida,  criticada,  mais  tarde  inventariada,  re-exposta, 
re-avaliada.
Por isso é que é necessário conhecer os processos da memória, 
as suas fissuras e os seus interstícios, espreitar para lá e, talvez, saber 
deixar aparecer o que, na sombra, continua a vibrar.


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INTRODUÇÃO
 
A página em branco
“A página em branco” (“The blank page”) é o título de um conto de Ka-
ren Blixen, assinado com o seu pseudónimo masculino de Isak Dinesen, 
uma história passada num convento carmelita em Portugal, onde as frei-
ras se dedicavam a fabricar o mais precioso dos linhos
1
. Este material, 
produto da criatividade feminina, era usado nos lençóis de casamento 
das casas reais, como folha de papel em branco, onde as princesas es-
tampavam, a encarnado, a sua virgindade. A mancha de sangue, sinal de 
pureza, regressava depois ao convento onde era emoldurada e exibida 
numa galeria. Neste corredor, apenas um pedaço de linho permanecia 
imaculado, a “página em branco”. E era à frente deste que se detinham 
as “antigas princesas de Portugal” e as “freiras velhas e jovens” que ha-
bitavam o convento. Os outros pedaços de linho eram as obras de arte 
possíveis do corpo das suas criadoras. 
Num texto de 1981, Susan Gubar usa este conto de Blixen para 
abordar questões acerca da criatividade feminina, segundo a perspecti-
va da “página em branco”, ou seja, da interrogação acerca do seu vazio
2

O conto serve de metáfora para Blixen e para Gubar reflectirem sobre 
as possibilidades e os limites da criatividade feminina e sobre o modo 
como o acesso à criatividade artística ao longo da história foi equivalente 
a outras formas de criação que pressupunham uma projecção no espaço 
público, como a escrita. A questão da criatividade exemplifica também 
a maneira como, durante tantos séculos, a cultura vigente implicou a re-
presentação do feminino enquanto ausência, 
tabula rasa, vazio, negação 
ou silêncio: o modelo da “pena/pénis que escreve sobre a folha virgem 
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