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Introdução

Gostaria de começar com uma curiosidade acerca do nome da escritora que serve de tema a esta dissertação: Angela Stalker Carter – que nome, para uma autora que, ao longo da sua obra persegue o mito, o desconstrói, desmitologiza e nos arrasta para uma escrita que alguns críticos chamam de pós-modernista, pós-industrial ou ainda enquadram no realismo mágico! Carter nasceu subversiva, afirma Margaret Atwood (1992), citada por Linden Peach (Peach, Linden: 9).


Nesta dissertação procurarei tocar em alguns dos aspetos gerais que mais chamaram a minha atenção quando li e analisei as obras cuja tradução apresento e que se verificam, embora com preponderâncias variáveis, em cada uma delas.

As “short stories” que traduzi foram escolhidas de uma coletânea publicada postumamente, denominada “Burning Your Boats”, expressão inglesa que significa que, depois de se ter dito ou feito algo, não se pode voltar atrás; algo de definitivo1. Mais exatamente, escolhi traduzir os contos: “Our Lady of the Massacre”, “The Kitchen Child” e “The Fall River Axe Murders”, pelos quais perpassa esse tom de definitivo que foi, nestes três contos, um ato cometido por, ou sobre as protagonistas, todas mulheres, cada uma vítima do preconceito da sociedade da época em que se situa cada conto.

Cada um é, à sua maneira, subversivo relativamente ao estilo literário em voga na época em que foi escrito; iconoclasta, na medida em que destrói certas imagens pré-concebidas, “dessacralizando” o sagrado – veja-se o título da primeira história: “Nossa Senhora do Massacre”; “desmitologizante”, na medida em que questiona os mitos – a própria Carter, numa entrevista a Anna Katsavos diz a certa altura que está a tentar descobrir o significado de certas imagens, ou certas configurações de imagens na nossa sociedade, na nossa cultura – e questioná-las, subvertendo-as – Katsavos, Anna (1994: 11). Cada conto é revelador de uma imagem da figura materna, por vezes antagónica daquela que é tida como mais convencional – em “Nossa Senhora do Massacre” uma das mães (há uma mão-cheia de figuras maternas), a do Lancashire, chega a ser descrita de uma maneira que toca o chamado realismo mágico, pois revela poderes premonitórios, para além de se dedicar a atividades mais ligadas ao ocultismo e à bruxaria na Inglaterra daquele século: “Que as estrelas que consultara em nome da sua filha querida, como gostava de me chamar, lhe garantiam que eu iria numa longa viagem sobre o Oceano para o Novo Mundo e aí daria à luz uma criança abençoada, cujos avós nunca haviam viajado na Arca de Noé. E, das suas leituras, que haviam consumido os seus olhos, concluíra que aqueles ‘filhos vermelhos do deserto’ não podiam ser senão a Tribo Perdida de Israel, por isso, shalom, ensinou-me ela, além das palavras para “amor” e “fome” e muito mais de que me esqueci, para que pudesse falar com o meu marido quando eu o encontrasse. E se eu não fosse uma rapariga sensata, tinha-me dado a volta à cabeça com todos aqueles disparates, pois teimava que as estrelas previam que eu viria a ser nada menos do que Nossa Senhora dos Homens Vermelhos.”

Em cada um destes contos e, por vezes, nos três, há símbolos com que nos deparamos recorrentemente, como é o caso dos relógios: em “Nossa Senhora do Massacre” Sal rouba o relógio a um vereador da câmara e é castigada e deportada também por isso, mas não só; é o despedaçar do relógio do inglês que, vem a saber-se, é o governador da Virgínia, que atua como mau presságio relativamente aos acontecimentos subsequentes. Em “O Filho da Cozinha” um soufflé de lagosta demora “vinte e cinco minutos em forno médio.” Finalmente, em “Os Assassínios de Fall River”, os vários relógios estão à beira de dar a última badalada, o último “tac” naquele dia fatídico. Mas existem outros símbolos: a lua e o sangue, símbolos óbvios da sexualidade feminina, mas também da transformação em lobo de Lizzie; a comida, que atravessa todos os três contos. O ato de comer funciona também de maneira simbólica nas três histórias, assim como o Sol, a noção de pecado mortal, os autómatos, Lizzie Borden, só para enumerar alguns dos símbolos presentes.





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