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Sumário




  • O tradutor – intermediário de línguas e culturas.

  • Brevíssima justificação da escolha destes três contos.

  • Queimando os Nossos Barcos – Nossa Senhora da Desmitologização: análise de três Short Stories de Angela Carter.

  • Conclusão.

  • Traduções.



O Tradutor – Intermediário de Línguas e Culturas


A tradução, qualquer que ela seja, implica a noção de transporte, movimento, transferência. Aliás, o termo inglês “translation” significa “tradução” mas também “translação”. Qualquer modelo de comunicação é, ao mesmo tempo, um modelo de translação, de uma transferência, vertical, ou horizontal, de significado.

A palavra em grego moderno para “transporte”, “metafora” é equivalente ao latim “translatio” e ambas as palavras significam “levar de um lado para outro” – transporte. Nesta aceção, metáfora é tradução, transporte. A noção de metáfora inclui a tradução, mas a noção de tradução também inclui a metáfora. A tradução é uma atividade de criação de metáforas, ou seja, de diferenças. Susan Sontag, no Suplemento Literário do Times de 13 de junho de 2003, afirmou que a tradução é o sistema circulatório das literaturas do mundo.

Muito do que se escreveu sobre a tradução tem a ver com a ética, o respeito pela diferença e da medida em que a nossa perceção do humano resulta enriquecida da consciência da multiplicidade linguística.

Os estudos de tradução são muito recentes, pois datam mais ou menos da década de 70 do séc. XX, altura em que se começa a reconhecer a importância da tradução enquanto fenómeno cultural. Nesta década houve a perceção da centralidade da tradução na história das culturas. Verificou-se isto com, por exemplo, a apreensão que a civilização romana fez da cultura grega. Nesta aceção, tradução é a passagem de um legado cultural para outro, há um ingrediente de transformação na tradução. Traduzir um texto literário é traduzir não só a literatura de um país, mas engloba também a respetiva cultura, pelo que o tradutor deve ser bilingue e bicultural, pois tão importante como a língua é a cultura. Se uma obra não está traduzida, é como se não existisse na cultura de chegada. O tradutor funciona num espaço de fronteira – a liminaridade.

Ao traduzir devemos ser capazes de preservar a coerência textual, ou seja, manter o papel fundamental de uma dada expressão.

Traduzir é sempre algo de subjetivo. Cada tradutor tem o seu ideoleto próprio, sendo o tradutor também um escritor. Traduzir é uma atividade central e instrutiva e o tradutor literário tem que se defrontar com a tríade de géneros literários: poesia, drama, prosa.

A construção destes géneros literários foi informada historicamente por juízos de valor, refratados através de preconceitos de classe, género, nação e raça, e a escrita de mulheres, ou as literaturas pós-coloniais (literaturas africanas, literaturas indianas) são exemplos dessa construção de géneros literários informados por juízos de valor. A tradução teve grande importância na disseminação dos vários estilos literários e na informação dos vários géneros literários que, de outro modo, ficariam para sempre confinados a uma determinada região geográfica, classe social, género, ou mesmo até, grupo étnico. Traduzir poesia, drama ou prosa – por exemplo, Shakespeare, Blake, Conrad, Melville, Angela Carter, o Corão, a Bíblia, os Contos das Mil e Uma Noites, ou até textos mais ideológicos – apresenta desafios próprios, inerentes a cada um dos autores, às obras em causa, bem como ao estilo de quem os vai “transportar” para a língua e cultura de chegada e ainda à época e classe social a que as obras dizem respeito.

Horácio, na sua Ars Poetica afirmava que o poeta que recorre à tradução deveria evitar uma determinada operação, designadamente uma tradução palavra por palavra, para escrever poesia distintiva. Aqui a função da tradução é construir autoria poética. Schleiermacher (1813:43) preconizava o literalismo “palavra por palavra” em linguagem elevada (não coloquial) para produzir um efeito de alteridade (“foreigness”) na tradução. Para ele, quanto mais de perto a tradução seguir o original, mais estrangeira parecerá ao leitor. As operações textuais produziam efeitos cognitivos e serviam funções culturais e políticas, que eram descritas e julgadas de acordo com valores que eram literários e nacionalistas, visando ajudar a construir uma língua e literatura alemãs durante as guerras napoleónicas.

Embora a Teoria da Tradução, tal como a conhecemos hoje, não existisse na antiguidade clássica, a verdade é que na época romana, os oradores, como Cícero, Plínio o Jovem e Quintiliano, consideravam a tradução como um exercício pedagógico para aqueles que aspiravam ascender à profissão de oradores. Os textos que dão corpo à nossa cultura ocidental foram traduzidos do grego e apropriados pelos romanos. A educação romana era bilingue e os alunos eram ensinados tanto em grego como em latim, sendo os exercícios de tradução implementados na aprendizagem da língua e no estudo da literatura.

As principais tendências em Teoria da Tradução encontram-se baseadas nas tradições literárias e filosóficas alemãs. Johann Wolfgang von Goethe (1819:64), por exemplo, considerava que havia três tipos, ou épocas de tradução: a primeira, dá-nos a conhecer o país estrangeiro, nos nossos próprios termos e a tradução em prosa é a que melhor serve este propósito. Neutraliza qualquer arte poética e reduz a águas calmas as ondas exuberantes do entusiasmo poético.

No segundo tipo, ou época de tradução, segundo ele, o tradutor atreve-se a transportar-se para a situação estrangeira, mas, na verdade, apenas se apropria da ideia estrangeira e representa-a como se fosse sua. Chama a esta época parodística (imitativa).

Finalmente, há uma terceira época, ou um terceiro tipo de tradução, que Goethe considera ser o mais elevado dos três, em que o objetivo é atingir a perfeita identidade com o original, para que um não exista em vez do outro, e sim, em lugar do outro.

Ezra Pound (1929:86), já no séc. XX, dizia que ou o tradutor faz uma tradução interpretativa, ou “recria”. (The Translation Studies Reader).

Para John Dryden (1680: 38) a tradução pode ser reduzida a estes três títulos: metáfrase, que consiste em verter um autor palavra por palavra, linha por linha, de uma língua para outra; paráfrase, ou tradução com latitude, em que o autor é mantido à vista pelo tradutor, para que este não se perca. As suas palavras não são tão estritamente seguidas como o seu sentido e este pode ser amplificado, mas não alterado. O terceiro título é a imitação, em que o tradutor assume a liberdade, não só de variar as palavras e o sentido, mas de os abandonar ou renunciar quando julgar apropriado.

Para Friedrich Schleiermacher, há uma considerável latitude que a tradução conceptual pode ter. A tradução é uma forma de unir homens separados pelas diferentes latitudes e longitudes, por diferentes séculos, por diferentes classes sociais e até por diferentes ideoletos. Temos até de traduzir as nossas próprias palavras, depois de algum tempo.

A nossa produção discursiva também tem a sua historicidade. Anos depois, já não há o mesmo nexo entre o que queremos e o que podemos dizer. Hoje em dia a tradução serve para nos podermos entender nos negócios mas, por exemplo, no tempo de Schleiermacher dir-se-ia que a tradução serve para transplantar os conhecimentos científicos para outra língua e também para os negócios.

Para este autor, diferentemente de Dryden, só há fundamentalmente dois métodos de tradução: o tradutor, ou deixa o autor tanto quanto possível em paz e desloca o leitor na sua direção, ou deixa o leitor em paz tanto quanto possível e desloca o escritor em sua direção.

A palavra-chave aqui é “deslocação”. Aquilo que procurei fazer, nesta aceção, foi “deslocar”, “transportar” o texto, tal como ele foi escrito por Angela Carter em direção ao leitor português, procurando respeitar as suas idiossincrasias linguísticas, mas também culturais e sociais.

Para Schleiermacher a tarefa do verdadeiro tradutor é “convocar” o autor estrangeiro à presença do leitor e mostrar a obra, tal como ela seria se tivesse sido escrita na língua do leitor. Uma das situações com que me deparei ao traduzir Angela Carter foi a inexistência em português de socioletos que correspondessem às mesmas expressões usadas na língua de partida. Estou a lembrar-me, por exemplo, da frase com que começa o conto “O Filho da Cozinha” – “born in a trunk” é uma expressão que, em minha opinião, não tem uma tradução, digamos, metafrásica, pelo que recorri à expressão “nascido em palco”, que se aproxima mais daquilo que a autora quis dizer, do que, por exemplo, “nascido num baú”.

Na tradição literária e filosófica alemã a tradução era vista como uma interpretação que necessariamente reconstitui e transforma o texto estrangeiro. Uma tradução participa na sobrevida de um texto estrangeiro representando uma interpretação informada por uma história da receção. Esta informação faz mais do que retransmitir mensagens; recria os valores que o texto estrangeiro acumula com o tempo. E desde que as diferenças linguísticas deste texto estejam assinaladas na língua de chegada (“translating language”), elas acabam por transmitir um conceito filosófico de “língua pura”, uma sensação de como as diferenças “mutuamente exclusivas” entre línguas coexistem com intenções de comunicar e de referir, que são complementares, intenções essas que são descarriladas pelas diferenças.

Para Walter Benjamin (Venuti: 79), a tarefa do tradutor consiste em encontrar esse efeito pretendido (Intention) sobre a língua para a qual está a traduzir que produz nela o eco do original. É um aspeto da tradução que basicamente a diferencia da obra do poeta, porque o esforço deste último nunca se dirige à língua como tal, à sua totalidade, mas única e imediatamente a aspetos linguísticos contextuais específicos, enquanto que o trabalho do tradutor se centra na língua na sua globalidade. Para Benjamin, a tradução oferece uma visão utópica da “harmonia” linguística.

Ao contrário de uma obra literária, a tradução não se encontra no centro da floresta da língua, mas no exterior, virada para ela. Grita para a floresta – mas não entra – em direção àquele ponto onde o eco pode dar na sua própria língua a reverberação da obra na língua estrangeira.

O ato de traduzir alarga não só as fronteiras culturais, mas também as linguísticas, tornando-se uma força revitalizadora e inovadora da língua. Rudolf Pannwitz, citado por Benjamin (1923: 82), criticava os tradutores alemães do séc. XVIII/XIX, que achava que reverenciavam o uso da sua própria língua, em vez do espírito da obra estrangeira: “the basic error of the translator is that he preserves the state in which his own language happens to be, instead of allowing his language to be powerfully affected by the foreign tongue. Particularly when translating from a language very remote from his own he must go back to the primal elements of language itself and penetrate to the point where work, image and tone converge. He must expand and deepen his language by means of the foreign language.” Isto só é possível se se levar a língua suficientemente a sério.

Para Jorge Luis Borges (1935: 96), mais importante do que os modos gerais de traduzir é o tradutor e os seus hábitos literários. A este propósito é mencionada a correspondência entre dois tradutores – Newman e Arnold, na qual se discute dois modos de traduzir: o modo literal, por um lado, e a eliminação dos detalhes que distraem, por outro. Aquele providencia pequenas surpresas continuamente; o último proporciona o encanto da uniformidade e da seriedade.

Mais recentemente, Vladimir Nabokov (1955: 120) postula que quem desejar traduzir uma obra-prima literária para outra língua, só tem apenas que cumprir um dever, reproduzir com absoluta exatidão o texto completo e nada mais do que o texto; tudo o resto é apenas uma imitação, uma adaptação ou uma paródia.

Jean-Paul Vinay e Jean Darbelnet (1958/1995: 128) estabelecem sete diferentes métodos ou procedimentos de tradução, que podem ser usados isoladamente, ou combinados. Começam por distinguir dois métodos gerais de tradução – tradução direta ou literal e tradução oblíqua. Em alguns casos, é possível transpor a mensagem na língua de origem elemento por elemento para a língua-alvo, mas noutros, devido a diferenças estruturais ou metalinguísticas, certos efeitos estilísticos não podem ser transpostos para a língua-alvo, sem perturbar a ordem sintática, ou até o léxico. Deparei-me com situações deste género em “Nossa Senhora do Massacre”, onde, logo na primeira linha, a expressão “my name is neither here nor there” não pode ter uma tradução direta. Mais adiante, na página 11 da tradução, optei por uma tradução mais oblíqua para a expressão “held a parley”, cujo sentido em inglês é um pouco mais lato do que em português, “realizaram conversações”, pois, “parley” pressupõe diferenças de opinião.

Na tradução direta distinguem o empréstimo, que ocorre quando o léxico da língua de chegada não oferece recursos que permitam a substituição por outros já existentes na língua de chegada. Ocorreu-me isto com a expressão “croquembouchar e Mille-feuilleá-la”, bem como com todos os termos franceses ou afrancesados que Angela Carter usa em “O Filho da Cozinha”.

A tradução literal é um outro tipo de tradução direta e foi aquela a que recorri para o corpo da tradução destes três contos.

A transposição é um método oblíquo que envolve a substituição de uma classe de palavras por outra. Recorri a este método na tradução de “The Fall River Axe Murders”. Logo no segundo parágrafo, o original “Hot, hot, hot”, que é a repetição de um adjetivo, foi traduzido para “Calor, calor, calor”, que é a repetição de um nome.

Um outro método oblíquo a que recorri, para utilizar a terminologia de Vinay e de Darbelnet, foi a modulação, que consiste na variação da forma da mensagem, que se justifica quando, apesar de gramaticalmente correta na língua de chegada, uma expressão resulta desadequada. É o caso de “flying in the face of nature”, que traduzi para “enfrentar galhardamente a natureza” (página 1 de “Os Assassínios de Fall River”). Outro caso é a expressão “sleep through anything”, que traduzi para “nada faz acordar a rapariga” (página 4).

Recorri também à equivalência, que consiste na utilização de uma expressão equivalente, quando dois textos utilizam métodos estilísticos e estruturais completamente diferentes. Em tais casos, este método produz textos equivalentes, como é o caso de “voo-croo”, por exemplo, que traduzi para “crrrruuu-crrruuu”.

O último método referido por Vinay e Darbelnet é a adaptação, de que a expressão “JesusMaryandJoseph” é um exemplo. O seu equivalente em português é “Minha Nossa Senhora!”.

Katharina Reiss (1971: 168) define a tradução interlinguística como um processo de comunicação bilingue mediado, normalmente dirigido à produção de um texto na língua-alvo que seja funcionalmente equivalente a um texto na língua de origem. Há dois “media”: a língua de origem e a língua-alvo, por um lado, e o tradutor, que se torna um emissor secundário, por outro. Por conseguinte, traduzir é uma comunicação secundária. O uso de duas línguas naturais mais um tradutor implica que a mensagem se altere durante o processo comunicativo, donde, a comunicação ideal é uma coisa rara, pois, mesmo quando a comunicação se faz numa só língua, há sempre diferenças entre o emissor e o recetor que a perturbam.

Para terminar, diria que a tradução atingiu hoje em dia um patamar de autoridade institucional que se manifesta na quantidade de programas de estágio para tradutores existente e na quantidade de trabalhos académicos que são publicados. Para além disto, a tradução assume, no mundo contemporâneo, um papel pacificador, de criador de pontos de contato entre os povos, “transportando” crenças, conceitos, filosofias e, no caso destas traduções, também movimentos literários que, de outro modo, estariam condenados ao isolamento.

Gostaria, por último, de citar um artigo de opinião, publicado num jornal diário que, a meu ver, relaciona a tradução com a atualidade que vivemos nesta Europa mergulhada numa profunda crise económica, financeira, mas também de identidade: “O mesmo conceito, expresso com palavras diferentes, em línguas diferentes, gera emoções diferentes. Na verdade, a indiferença da Alemanha perante a dor infligida na Grécia está inscrita na sua língua. Em inglês, como em várias outras línguas europeias, o termo austeridade deriva do grego austeros, que significa duro e severo, enquanto para os alemães é apenas um plano tecnocrático de poupança, um Sparprogramme”. Campanella, Edoardo (2012) “Crise europeia das línguas”. Público, 6 de agosto.





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