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Os Assassínios de Fall River



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Os Assassínios de Fall River

Lizzie Borden com um machado

Deixou o pai em tal estado

Que quando viu a sua mãe

Deu-lhe com ele também.
Rima infantil
Manhã cedo do dia quatro de agosto de 1892, em Fall River, Massachusetts.

Calor, calor, calor … de manhã muito cedo, antes da sirene da fábrica mas, mesmo a esta hora, tudo cintila e estremece sob o ataque de um sol branco e furioso, já alto no ar imóvel.

Os seus habitantes nunca lidaram bem com estes verãos quentes e húmidos -- pois é a humidade, mais do que o calor que os torna intoleráveis; o clima pega-se como uma febre baixa que não se consegue sacudir. Os índios, que viveram aqui primeiro, tinham o bom-senso de tirar as suas peles de veado quando vinha o tempo quente e de se sentarem nos charcos com a água até ao pescoço, ao contrário dos descendentes dos industriosos santos autoflageladores que importaram por grosso a ética protestante para uma terra feita para a sesta e se mostram orgulhosos, orgulhosos! de enfrentar galhardamente a natureza51. Na maioria das latitudes com verãos assim, tudo abranda, pois. Fica-se o dia todo na penumbra, atrás de persianas corridas e portadas fechadas; usa-se roupas suficientemente largas para provocar a nossa própria brisa para nos arrefecermos nas raras ocasiões em que nos mexemos. Mas a derradeira década do último século52 encontra-nos no ponto alto do trabalho árduo, por cá; em breve tudo estará numa azáfama, os homens sairão para a fornalha da manhã bem embrulhados em roupa interior de flanela, camisas de linho, camisolas interiores e casacos e calças de lã grossa e garrotam-se com gravatas, também, acham que é tão virtuoso estar-se desconfortável.

E hoje é o pino de uma onda de calor; de manhã tão cedo e o mercúrio já tocou nos trinta graus e não mostra sinal de abrandar na sua subida desenfreada.

No que respeita às roupas, as mulheres apenas aparentavam safar-se mais ligeiramente. Nesta manhã em que, após o pequeno-almoço e o desempenho de algumas tarefas domésticas, Lizzie Borden irá assassinar os pais, irá, ao levantar-se, enfiar um vestido simples de algodão - mas, debaixo disso, já pôs um saiote de algodão, comprido e engomado, mais outro saiote de algodão curto e engomado; meias-calças53, meias de lã; uma combinação e um espartilho de barba de baleia que lhe segurava as vísceras com mão severa e lhas apertava muito firmemente. Também amarrou um pano de linho grosso entre as pernas porque estava com a menstruação.

Com estas vestimentas todas, perturbada e enjoada como estava, neste calor demencial, a barriga num torno, aquecerá um ferro de engomar num fogão e passará lenços com o ferro aquecido até ser altura de descer para a pilha de lenha da cave para apanhar o machado com o qual a nossa imaginação a equipa sempre - “Lizzie Borden com um machado” - do mesmo modo que estamos sempre a ver S. Catarina rodando na sua roda, o emblema da sua paixão.

Em breve, em tantas roupas como as que Miss Lizzie usa, apesar de menos finas, Bridget, a criada, ensopará de querosene uma folha do jornal da noite passada abolada com um ou dois paus de acendalha. Quando o fogo pegar, cozinhará o pequeno-almoço; o fogo far-lhe-á sufocante companhia quando ela estiver a lavar a louça depois.

Num fato de sarja que, só de olhar, seria o suficiente para causar arrepios de calor, o Velho Borden perambulará pela cidade transpirante, fuçando por dinheiro como um porco à procura de trufas54, até que regressará a casa ao meio da manhã, para o seu encontro urgente com o destino.

Mas aqui ainda ninguém está a pé55, afinal é de manhã cedo, antes da sirene da fábrica, uma calmaria perfeita de tempo quente, um céu já branco, a luz sem sombra da Nova Inglaterra é como um castigo de Deus, e o mar, branco, e o rio, branco.

Se esquecemos no geral os desconfortos físicos das roupas opressivas do passado causadoras de comichões e os efeitos corrosivos do perpétuo desconforto físico para os nervos, então esquecemos piedosamente também os cheiros do passado, os odores domésticos – carne mal lavada; roupa interior mudada poucas vezes; penicos de quarto; baldes de despejos; retretes mal canalizadas; comida a apodrecer; dentes descuidados; e as ruas não são mais frescas do que o interior das casas, o omnipresente cheiro forte e ativo de mijo e bosta de cavalo, vertedouros, súbito cheiro a morte velha dos açougues, o horror amniótico do peixeiro.

O leitor encharcaria o lenço com água de colónia e apertá-lo-ia contra o nariz. Salpicar-se-ia com violeta de Parma para que o fedor de carne em decomposição que transportava sempre consigo fosse sobreposto pelo do embalsamador. O leitor odiaria o ar que respirava.

Cinco criaturas vivas estão a dormir numa casa na Second Street, em Fall River. Totalizam dois velhos e três mulheres. O primeiro velho é o dono de todas as mulheres, seja por casamento, nascimento, ou contrato. A sua casa é estreita como um caixão e foi dessa maneira que constituiu a fortuna dele – era agente funerário, mas recentemente ramificou-se em várias direções e todos os seus ramos deram fruto da espécie fiscalmente mais gratificante.

Mas ao olhar para a sua casa, nunca se pensaria que ele é um homem bem sucedido e próspero. A casa é exígua, desconfortável, pequena e miserável – “despretensiosa”, poder-se-ia dizer, se quisermos bajulá-lo – enquanto a própria Second Street viu dias melhores há algum tempo. A casa dos Borden – veja-se ‘Andrew J. Borden’ a letras desenhadas na placa de metal ao lado da porta – fica isolada com uns poucos centímetros de pátio de cada lado. À esquerda fica um estábulo, que já não é usado desde que ele vendeu o cavalo. Nas traseiras crescem algumas pereiras, carregadas nesta época.

Nesta manhã em particular, quis a sorte que apenas uma das duas irmãs Borden dormisse em casa do pai. Emma Lenora, a filha mais velha, pegou em si mesma e foi para New Bedford, ali perto, durante uns dias, para apanhar a brisa marítima, e assim escapará ao massacre.

Poucos da classe social deles ficam em Fall River nos sufocantes meses de junho, julho e agosto, mas também poucos da classe social deles vivem em Second Street, na parte baixa da cidade, onde o calor se concentra como nevoeiro. Lizzie também foi convidada para fora, para uma casa de verão, junto ao mar, para se juntar a um grupo de alegres raparigas mas, como que propositadamente para flagelar a carne, como se coisas importantes a retivessem nesta cidade ressequida, como se uma fada malévola a tivesse amaldiçoado em Second Street, não foi.

O outro velho é uma espécie de parente dos Borden. O lugar dele não é este, encontra-se de visita, de passagem, é um espectador acidental, é irrelevante.

Tirem-no do guião.

Apesar de a sua presença na casa fatídica ser historicamente incontestável, este apocalipse doméstico deve ser pintado com muito poucas cores e a sua trama profundamente simplificada, para se obter um efeito emblemático máximo.

Tirem John Vinnicum Morse do guião.

Um velho e duas das suas mulheres dormem na casa em Second Street.

O relógio da Câmara Municipal range e crepita os prolegómenos da primeira badalada das seis e o despertador de Bridget dá um salto solidário e faz clique, ao mesmo tempo que o ponteiro dos minutos se aproxima da hora o martelinho inclina-se para trás, prestes a atingir a campânula no cimo do relógio, mas as pálpebras húmidas de Bridget não estremecem com premonição, deitada com a sua pegajosa camisa de noite de flanela, sob um lençol fino numa cama de ferro, de costas, como as boas freiras lhe tinham ensinado na sua meninice irlandesa, no caso de morrer durante a noite, para dar menos trabalho ao agente funerário.

É uma boa rapariga no geral, apesar de o seu feitio ser incerto às vezes e nessas alturas, às vezes dará respostas impertinentes à senhora e será forçada a confessar o pecado da impaciência ao padre. Dominada pelo calor e náusea – todos em casa irão acordar hoje enjoados – regressará a esta pequena cama mais tarde nessa manhã. Enquanto se recolhe para uns momentos de descanso, no andar de cima, o andar de baixo estará feito num autêntico inferno.

Um rosário de contas de vidro castanhas, uma pagela a cores representando a Virgem, trazida de uma loja portuguesa, uma fotografia desbotada da sua solene mãe em Donegal56– estas coisas estão pousadas ou encostadas na prateleira do fogão de sala que, por mais rigoroso que seja o inverno em Massachusetts, nunca viu um pau aceso. Uma arca de latão amassada aos pés da cama contém todos os bens mundanos de Bridget.

Há uma cadeira ao lado da cama com, sobre ela, um castiçal, fósforos, o despertador que ecoa pelo quarto com um clangor diádico metálico, pois é uma piada entre Bridget e a sua patroa que nada, nada faz acordar a rapariga, e por isso precisa do despertador, assim como de todas as sirenes da fábrica que estão prestes a ecoar, neste mesmo segundo, prestes a ecoar…

Um lavatório rachado de madeira suporta o jarro e a bacia que ela nunca utiliza; não vai acartar água para o terceiro andar, só para se lavar, ou vai? Só se não houver água suficiente na banca da cozinha.

O Velho Borden não vê a necessidade de banhos. Não acredita na imersão total. Perder os seus óleos naturais seria roubar ao seu corpo.

Um espelho sem moldura reflete às ondas um prato para sabão empoeirado e rachado contendo uma quantidade de alfinetes de cabelo pretos de metal.

Em retângulos brilhantes das persianas de papel movem-se as bonitas sombras das pereiras.

Apesar de Bridget ter deixado uma frincha aberta, na vã esperança de persuadir uma corrente de ar a entrar no quarto, todo o calor gasto do dia anterior se acumulou apertado no seu sótão. Uma crosta de caliça gasta cai como caspa do teto, onde uma mosca zumbe monotonamente.

A casa cheira profundamente a sono, esse odor adocicado e pegajoso. Quieto, tudo quieto; em toda a casa nada se mexe, exceto a mosca zunindo. Quietude nas escadas. Quietude pressionando as persianas. Quietude, quietude mortal no quarto de baixo, onde o Senhor e a Senhora partilham o leito matrimonial.

Se os cortinados estivessem abertos ou a luz acesa, podiam observar-se melhor as diferenças entre este quarto e a austeridade do quarto da criada. Temos aqui uma carpete salpicada de flores vigorosas, mesmo que a carpete seja de uma variedade barata e alegre; há flores de cerejeira malváceas, ocres e ásperas no papel de parede, mesmo apesar de o papel de parede já ser antigo na altura em que os Borden vieram viver para cá. Um toucador com outro espelho que deforma; não há espelho nesta casa que não pegue na nossa cara e a distorça. Em cima do toucador, um pano bordado com miosótis; sobre o pano um pente em osso com três dentes a menos e com cabelos grisalhos ligeiramente enredados, uma escova de cabelo em madeira ebanizada e uma quantidade de panos de renda debaixo de caixinhas de porcelana contendo alfinetes de ama, toucas, etc.. A pequena peruca que Mrs. Borden coloca na cabeça quase careca durante o dia está enrolada como um esquilo morto. Mas não há vestígios da ocupação masculina deste quarto por Borden, porque ele tem o seu próprio quarto de vestir, atrás daquela porta à esquerda…

E então a outra porta, a que fica ao lado dessa?

Dá para as escadas das traseiras.

E ainda aquela outra porta, parcialmente escondida atrás da cabeceira da pesada cama de mogno?

Se não estivesse bem trancada, levar-nos-ia até ao quarto de Miss Lizzie.

Uma peculiaridade desta casa é a quantidade de portas que os quartos contêm e, uma outra peculiaridade, como todas estas portas estão sempre trancadas. Uma casa cheia de portas trancadas que apenas dão para outros quartos com outras portas trancadas, pois, tanto no andar de cima como no andar de baixo, todos as divisões dão umas para as outras, como num labirinto de um pesadelo. É uma casa sem passagens. Não há nenhuma parte da casa que não tenha sido marcada como território pessoal de um dos ocupantes; é uma casa sem espaços partilhados, comuns, entre uma divisão e a seguinte. É uma casa de privacidades tão seladas, como se tivessem sido seladas com o lacre de um documento legal.

Só se passa para o quarto de Emma pelo de Lizzie. Não há saída pelo quarto de Emma. É um beco sem saída.

O hábito dos Borden de trancar todas as portas, dentro e fora, vem de uma altura, há alguns anos, pouco antes de Bridget vir trabalhar para eles, em que a casa foi assaltada. Alguém desconhecido entrou pela porta lateral numa altura em que Borden e a mulher tinham ido numa das suas raras viagens juntos; tinha-a carregado para uma carroça e pôs-se a caminho da quinta que possuía em Swansea para se certificar que o caseiro não lhe andava a extorquir dinheiro. As meninas ficaram em casa nos seus quartos, a dormir a sesta nas suas camas ou a coser bainhas, ou a coser botões soltos, ou a escrever cartas, ou contemplando ações de caridade entre os pobres que a merecessem ou a lançar um olhar vago para o espaço.

Não consigo imaginar que outra coisa poderiam elas fazer.

Aquilo que as meninas fazem quando estão sozinhas é-me inimaginável.

Emma é de longe mais misteriosa do que Lizzie, pois sabemos muito menos acerca dela. É um espaço em branco. Não tem vida. A porta do seu quarto dá apenas para a porta do quarto da irmã.

“Meninas” é, claro, um termo de cortesia. Emma está nos seus quarenta e tais, Lizzie nos seus trintas, mas não casaram e por isso vivem em casa do pai, onde permanecem numa infância imaginária, retardada.

Enquanto o senhor e a senhora estavam fora e as meninas a dormir ou ocupadas com outra coisa qualquer, alguém desconhecido subiu sorrateiramente pelas escadas das traseiras para o quarto matrimonial e embolsou o relógio de ouro da senhora Borden e a corrente, o colar de coral e a pulseira de prata da sua remota infância, e um maço de notas de dólar que o Velho Borden guardava debaixo de umas ceroulas lavadas57 na terceira gaveta da escrivaninha à esquerda. O intruso tentou forçar a fechadura do cofre, aquele bloco descaracterizado de aço negro, fazendo lembrar um cepo de talho ou um altar posicionado mesmo junto da cama do lado do Velho Borden, mas teria sido preciso um pé de cabra para penetrar adequadamente no cofre e o intruso tentou com uma tesoura das unhas que estava mesmo à mão em cima do armário, por isso aquilo não resultou.

Então o intruso mijou e cagou em cima da coberta da cama dos Borden, empurrou para o chão tudo o que estava em cima do armário, escaqueirando tudo, esgueirou-se para o quarto de vestir do Velho Borden para aí assaltar mal-intencionadamente o seu casaco fúnebre que estava pendurado na escuridão de naftalina do armário com a mesmíssima tesoura das unhas que tinha sido usada no cofre (a tesoura agora estava feita em dois e foi abandonada no chão do armário), retirou-se para a cozinha, escaqueirou o pote da farinha e o pote do melaço e a seguir garatujou uma obscenidade ou duas na janela da sala de visitas com a barra de sabão que vivia ao lado da banca da copa.

Que confusão! Lizzie ficou a olhar com uma vaga surpresa para a janela da sala de visitas, ouviu o ruído suave da portada aberta a bater impassivelmente, apesar de não correr brisa nenhuma. Que fazia ela, em pé apenas de espartilho no meio da sala de estar? Como tinha ela chegado ali? Ter-se-ia ela escapulido pelas escadas abaixo quando ouviu a portada ranger? Não sabia. Não conseguia lembrar-se.

Tudo o que aconteceu foi: de repente aqui está ela, na sala de visitas com uma barra de sabão na mão.

Teve uma sensação de vazio58 e só depois começou a gritar e a berrar.

“Socorro! Fomos assaltadas! Socorro!”

Emma desceu e reconfortou-a como a irmã mais velha tinha reconfortado a mais nova desde bebé. Foi Emma que limpou da carpete da sala de estar a farinha e o melaço que Lizzie inadvertidamente trouxera da cozinha agarrados aos pés descalços no seu transe de sonâmbula. Mas, das joias e das notas de dólar, nem um vestígio se encontrou.

Não consigo dizer-vos o efeito que o assalto teve em Borden. Desconcertou-o completamente; era um homem atordoado. Aquilo violentara-o, até. Era um homem violado. Aquilo levara a sua, até aqui inabalável, confiança na integridade inerente às coisas.

O assalto mexeu tanto com eles que a família quebrou o seu habitual silêncio para o discutir. Deitaram as culpas aos portugueses, obviamente, mas também às vezes aos canadianos. Se a sua raiva foi constante e não diminuiu com o tempo, ela era dirigida de acordo com as suas disposições, apesar de apontarem sempre o dedo da suspeita aos estrangeiros e recém-chegados que viviam nas repugnantes muralhas do alojamento da companhia, a uns poucos quarteirões imundos de distância. Não suspeitavam sempre exclusivamente dos estranhos de pele escura; às vezes achavam que o culpado poderia muito bem ser um operário acabado de chegar do impertinente Lancashire, lá do outro lado do mar que tinha cometido o crime, pois o senhorio de uma barraca tem poucos amigos entre as classes criminosas.

Contudo, a possibilidade de ter sido um poltergeist ocorre a Mrs Borden, apesar de não conhecer a palavra; sabe, contudo, que a sua enteada mais nova é estranha e conseguia fazer os pratos saltar, só por maldade, caso quisesse. Mas o velho adora a filha. Talvez seja então, depois do choque do assalto, que decide que ela precisa de uma mudança de cena, uma dose de ar marítimo, uma longa viagem, pois foi depois do assalto que a enviou à Europa em viagem59.

Depois do assalto, a porta da frente e a porta do lado eram sempre fechadas com três voltas, mesmo se um dos habitantes da casa só saísse para ir ao quintal para apanhar um cesto de peras do chão, na época das peras, ou se a criada saísse para pendurar uma roupa, ou se o Velho Borden saísse depois do jantar para urinar debaixo de uma árvore.

Era desta época que datava o costume de fechar à chave por dentro todas as portas dos quartos quando se estava dentro ou por fora quando se estava fora. O Velho Borden fechava a porta do quarto dele de manhã, quando saía, e punha a chave à vista de todos na prateleira da cozinha.

O assalto despertou o Velho Borden para a natureza evanescente da propriedade privada. A partir dessa altura levou a cabo uma orgia de investimentos. Daí em diante passou a investir os seus ganhos em imobiliário, pois quem é que enriquece com um edifício de escritórios?

Uma quantidade de contratos cessou em simultâneo precisamente nesta altura numa determinada rua da baixa da cidade e Borden apanhou-os a todos. Tornou-se dono do quarteirão. Deitou-o abaixo. Planeou o edifício Borden, um edifício de lojas e escritórios, de tijolo vermelho escuro, pedra escurecida com pormenores de ferro forjado, do qual, para a posteridade podia obter uma bela colheita de rendas intransmissíveis, e este monumento, tal como o de Ozymandias60 sobreviver-lhe-á por muito tempo - e ainda existe, sólido e atraente, o Edifício Andrew Borden, em South Main Street.

Nada mal, para o filho de uma pessoa que vendia peixe porta-a-porta61, hã?

Pois, apesar de “Borden” ser um nome antigo em Nova Inglaterra e de o clã Borden entre si possuir a maior parte de Fall River, os nossos Borden, o Velho Borden, estes Bordens, não surgiram de um ramo rico da família. Havia Bordens e Bordens e este era o filho de um homem que vendia peixe fresco num cesto de vime de casa em casa em casa. A parcimónia do Velho Borden era alimentada pela necessidade, mas aprendera a prosperar na propriedade62, porque a poupança tem um significado diferente para os pobres; não lhes dá prazer, é uma necessidade real para eles. Alguém já ouviu falar de um sovina sem dinheiro?

Taciturno e delgado, este “self-made man” é homem de poucos prazeres. A sua vocação é acumular capital.

Qual é o seu passatempo?

Moer a cabeça aos pobres, ora essa.

No princípio, Andrew Borden era um agente funerário, e a morte, reconhecendo um cúmplice, deu-se bem com ele. Na cidade dos teares, poucos chegavam a velho; as criancinhas que trabalhavam nas fábricas morriam com especial frequência. Quando era armador, não! - não era verdade que ele cortava os pés aos cadáveres para que coubessem em muitos dos caixões comprados barato como excedentes da Guerra Civil! Isso era um boato posto a circular pelos seus inimigos!

Com os lucros dos caixões, comprou um ou dois apartamentos para alugar e acrescentou novos lucros com os vivos. Comprou participações nas fábricas. Depois, investiu num banco ou dois, até que agora lucra com o próprio dinheiro, que é a forma mais pura de lucro.

Execuções de hipotecas e ações de despejo são o seu “pão-nosso de cada dia”. Não há nada de que ele goste mais do que de uma pequena usura. Já está a caminho do seu primeiro milhão.

À noite, para poupar o petróleo fica sentado às escuras. Rega as pereiras com a sua urina; no poupar é que está o ganho. Logo que os jornais diários são lidos, corta-os em quadrados geométricos e guarda-os na latrina da cave, para que todos possam limpar os seus rabos a eles. Lamenta que se percam os despojos orgânicos levados pela água do autoclismo. Gostaria de cobrar renda às próprias baratas da cozinha. Porém, não engordou com tudo isto; a chama pura da sua paixão escorreu-lhe da carne, a sua pele cola-se-lhe aos ossos por pura parcimónia. Talvez seja da sua primeira profissão que ele adquiriu a pose, pois caminha com a dignidade majestática de um carro fúnebre.

Ver o Velho Borden dirigir-se rua abaixo na nossa direção era ser preenchido por um respeito instintivo pela mortalidade, cujo macilento embaixador ele parecia ser. E também nos fazia pensar acerca da vitória sobre a natureza que era o facto de, quando nos erguemos, andarmos sobre duas pernas em vez de quatro, para começar! Pois ele mantinha-se ereto com um propósito de tal maneira pesado, que era uma lembrança perpétua para todos os que testemunhavam o seu caminhar de como não era natural estar-se ereto, que é um triunfo da vontade sobre a gravidade, em si mesma, uma transcendência do espírito sobre a matéria.

A sua espinha é como uma vara de ferro, forjada, não nasceu assim, impossível imaginar aquela espinha do Velho Borden enrolada no ventre como o C grande do feto; caminha como se as suas pernas não tivessem articulações nem nos joelhos nem nos tornozelos, de modo que os seus pés batem na terra fazendo-a vibrar, como um bailio bate pesadamente a uma porta.

Usa uma barba branca à volta do queixo naquele tempo já fora de moda. Parece que roeu os lábios. Está em paz com o seu deus, pois usou os seus talentos conforme mandam as Escrituras.

Mas não se pense que ele não tem pontos fracos. Como o Velho Lear, o seu coração e, mais do que isso, o seu livro de cheques, é facilmente manipulável pelas mãos da sua filha mais nova. No dedo mindinho - não se consegue vê-lo, está debaixo da capa - usa um anel em ouro, não um anel de casamento, mas um anel de liceu, uma bijuteria singular para um sovina fabulosamente misantropo. A sua filha mais nova oferecera-lho quando acabou a escola e pediu-lhe que o usasse, sempre, e ele usa-o sempre e usá-lo-á até à cova, para onde ela o vai mandar mais tarde, na manhã deste dia combustível.

Dorme completamente vestido com uma camisa de noite de flanela sobre a roupa interior de mangas compridas, e um gorro de flanela, e de costas voltadas para a sua mulher de há trinta anos, tal como as dela para ele.

São Mr e Mrs Jack Spratt63 em pessoa, ele alto e macilento, como um juiz de enforcamento, ela, uma redonda bolinha de massa em expansão. Ele é um sovina, ao passo que ela é uma glutona, uma comedora solitária, o mais inocente dos vícios e no entanto é a sombra ou a paródia do vício dele, pois ele gostaria de engolir o mundo inteiro, ou, se não o conseguisse, uma vez que o destino não lhe pôs uma mesa suficientemente larga para as suas ambições, ele é um Napoleão mudo e inglório, não sabe o que é que poderia ter feito, porque nunca teve a oportunidade -- já que não tem acesso ao mundo inteiro, gostaria de engolfar a cidade de Fall River. Mas ela, bem, ela empanturra-se docemente, continuamente, não é?; está sempre a mordiscar qualquer coisa, a ruminar, talvez.

Não é que ela extraia muito prazer disso, não é nenhuma gourmet, meditando eternamente acerca da requintada diferença entre uma maionese apaladada com algumas gotas de vinagre de Orleães, ou só com uma espremedela de sumo fresco de limão. Não, Abby nunca teve aspirações tão altas, nem nunca pensaria tê-las, mesmo que tivesse escolha; contenta-se com a simples gula e renega todos os requintes da sensualidade da satisfação. Dado que não aprecia nada do que mete à boca, sabe que a sua incessante gula não constitui pecado.

Cá estão eles na cama juntos, encarnações vivas de dois dos Sete Pecados Mortais, mas ele sabe que a sua avareza não é ofensa, porque nunca gasta dinheiro nenhum e ela sabe que não é gulosa porque a comida que engole às pazadas lhe causa indigestão.

Dá emprego a uma cozinheira irlandesa e as mãos rudes mas ágeis de Bridget na cozinha preenchem cada critério de Abby. Pão, carne, couves, batatas – Abby foi feita para a comida pesada que a fez. Bridget atira alegremente para cima da mesa com os pratos cozidos, peixe cozido, papas de milho, pudim índio64, queques de milho, bolachas.

Mas aquelas bolachas… ah!, aí tocamos na pequena fraqueza de Abby. Bolachas de melaço, bolachas de aveia, bolachas de passas. Mas quando deita a mão a um quadradinho de chocolate húmido, nessa altura sente uma sensação confusa de quase ter ido longe de mais, de que o pecado poderia estar mesmo ao virar da esquina, se o seu estômago não palpitasse imediatamente como uma consciência culpada.

A sua camisa de noite de flanela tem o mesmo corte que a camisa de noite dele, à exceção da renda descaída à volta da gola. Abby pesa noventa quilos. Mede um metro e cinquenta. A cama afunda para o lado dela. É a cama em que a primeira mulher dele morreu.

A noite passada medicaram-se com óleo de castor, devido a uma indisposição que os mantivera acordados e a vomitar toda a noite anterior; os resultados copiosos das suas purgas fazem transbordar os penicos debaixo da cama. Dá para fazer desmaiar um canalizador.65

Estão deitados costas com costas, eles. Podia pôr-se uma espada no espaço entre o velho e a mulher, entre a espinha do velho, a única coisa rígida que ele alguma vez lhe oferecera e o macio, quente, enorme rabo dela. As purgas flagelavam-nos. As faces evidenciam verde em decomposição na claridade do quarto de cortinas cerradas, em que o ar é demasiado espesso até para as moscas se mexerem.

A filha mais nova sonha atrás da porta fechada.

Vejam a bela adormecida!

Atirou o lençol para trás e a janela está completamente aberta mas não há brisa, lá fora, esta manhã, que agite deliciosamente o cortinado. O sol brilhante inunda as persianas, de modo que a luz cor de linho nos mostra o modo como Lizzie foi para a cama, como se esperasse dar uma receção66, numa camisa de noite linda, franzida, de musselina branca apanhada, com faixas de cetim cor de rosa pastel entretecidas nos ilhós da renda, ou não sejam os “marotos anos noventa” em todo o lado, menos na tristonha Fall River? Não significarão os resplandecentes barcos a vapor da Companhia Fall River o luxo desperdiçado dos Anos Dourados, com os seus interiores em mogno e os candelabros no teto? Mas não partem de Fall River, para onde, para qualquer lado, em que seja a Belle Epoque? Em Nova Iorque, Paris, Londres, saltam rolhas de Champanhe, em Monte Carlo a banca está falida, as mulheres caem de costas, num merengue estaladiço de saias, por diversão e dinheiro, mas não em Fall River. Oh, não. Por isso, na imutável privacidade do seu quarto, para seu próprio prazer, Lizzie veste-se com uma camisa de noite linda de menina rica, apesar de viver numa casa humilde, porque ela também é uma menina rica.

Mas ela é vulgar. A bainha da camisa de noite está enrodilhada acima dos joelhos, porque ela se mexe muito a dormir. O cabelo leve, seco e avermelhado, estalando com a eletricidade estática cai solto da trança noturna, encaracola-se e prende-se na almofada quadrada a que se agarra enquanto se estende sobre o estômago, tendo pousado o queixo na fronha engomada para se arrefecer durante a noite.

Lizzie não era um diminutivo afetuoso e sim o nome com que tinha sido batizada. Uma vez que ficaria sempre conhecida por “Lizzie”, pensava o pai, porquê sobrecarregá-la com o estéril e vistoso prolongamento “Elizabeth”? Sovina em tudo, até lhe colheu metade do nome antes de lho dar. Por isso ficou “Lizzie”, cru e sem adornos e ela é uma criança sem mãe, órfã desde os dois anos, a coitadinha.

Agora tem trinta e dois e contudo a memória daquela mãe de quem não se lembra permanece uma fonte duradoura de desgosto: “Se a mãe fosse viva, tudo teria sido diferente.”

Como? Porquê? Diferente de que modo? Não teria conseguido responder a isso, perdida na nostalgia de um amor desconhecido. Porém, como poderia ela ter sido melhor amada do que pela irmã, Emma, que desperdiçava os tesouros reprimidos do coração de uma solteirona de Nova Inglaterra naquela coisinha? Talvez de um modo diferente, porque a sua mãe natural, a primeira Mrs. Borden, sujeita, como era, a súbitos ataques de raiva, violenta e inexplicável poderia, ela mesma, ter dado com o machado no Velho Borden? Mas Lizzie ama o seu pai. Nisso todos estão de acordo. Lizzie adora o pai que a adora e que, depois que a mãe morreu, tomou para si outra mulher.

Os pés dela agitam-se um pouco, como os de um cão a sonhar com coelhos. O seu sono é leve e pouco satisfatório, cheio de terrores vagos e ameaças indeterminadas, a que não consegue atribuir nem nome, nem forma, depois de acordar. O sono abre dentro de si uma casa caótica. Mas só sabe que dorme mal e esta última e sufocante noite também foi agitada pela náusea vaga e pelas aflições da sua dor feminina; o seu quarto está acre com o odor metálico a sangue menstrual.

Ontem ao fim da tarde esgueirou-se de casa para visitar uma amiga. Lizzie encontrava-se agitada; estava sempre a mexer nervosamente no franzido da frente do seu vestido.

“Tenho medo … de que alguém … vá fazer alguma coisa”, dizia Lizzie.

“Mrs. Borden …” e aqui Lizzie baixava a voz e os seus olhos olhavam para todo o lado do quarto, exceto para Miss Russell … “Mrs. Borden -- oh! será que vai acreditar nisto? Mrs. Borden acha que alguém nos anda a tentar envenenar!”

Costumava chamar “mãe” à madrasta, como era seu dever mas, depois de uma discussão sobre dinheiro após o seu pai ter doado metade de um barracão à madrasta cinco anos antes, Lizzie falava sempre, com escrupulosidade fria, de “Mrs. Borden” quando era forçada a falar dela e chamava-lhe “Mrs. Borden” à frente dela, também.

“A noite passada, Mrs. Borden e o pai, coitadinho, passaram tão mal! Ouvia-os, do outro lado da parede. E eu, também não tenho estado lá muito bem o dia todo, sinto-me tão esquisita. Mesmo tão … esquisita.”

Pois havia aqueles ataques de sonambulismo. Desde criança, aguentava aqueles “ataques peculiares”, como se chamava naquela época e naquele lugar àqueles estranhos lapsos de comportamento, transes inesperados e involuntários, momentos de ausência. Aquelas alturas em que a mente se desliga. Miss Russell apressou-se a descobrir uma explicação dentro da lógica. Embaraçava-a mencionar os “ataques peculiares”. Todos sabiam que não havia nada de estranho com as meninas Borden.

“Qualquer coisa que comeu? Deve ter sido qualquer coisa que comeu. O que é que foi o jantar de ontem?”, perguntou solícita a boa Miss Russell.

“Espadarte aquecido. Comêmo-lo quente ao almoço, mas não consegui comer muito. Depois a Bridget aqueceu os restos para o jantar, mas eu só consegui engolir uma garfada. Mrs. Borden acabou com os restos e rapou o prato com o pão. Achou apetitoso, mas depois vomitou a noite toda.” (Nota de presunção aqui.)

“Oh, Lizzie! Com todo este calor, com este calor abrasador! Peixe requentado! Sabe muito bem como o peixe se estraga com este calor! A Bridget nunca vos deveria ter dado peixe requentado!”

Também era a altura difícil do mês para Lizzie; a sua amiga conseguia detetar isso, devido a uma expressão pálida, vítrea no seu rosto. Contudo, a sua educação impedia-a de mencionar isso. Mas como poderia Lizzie ter metido na cabeça que todos lá em casa estavam debaixo do cerco de forças malignas externas?

“Tem havido ameaças”, continuou Lizzie implacavelmente, com os olhos fixados nas pontas dos dedos nervosos. “compreende, há tantas pessoas que não gostam do pai.”

Isto não se pode negar. Miss Russel permaneceu em silêncio, por educação.

“Mrs. Borden estava tão enjoada, que chamou o médico lá a casa e o Pai insultou-o e berrou com ele e disse-lhe que não iria pagar a conta do médico enquanto tivéssemos o bom e velho óleo de castor em casa. Berrou com o médico e todos os vizinhos ouviram e eu fiquei tão envergonhada. Há um homem, compreende…” e aqui ela baixou a cabeça, enquanto as suas pestanas pequenas e pálidas batiam nas maçãs do rosto… “ o tal homem, um negro, com um ar, sim, de morte no seu rosto, Miss Russel, um negro que tenho visto fora da casa a horas invulgares e inesperadas, de manhã cedo, a altas horas da noite, sempre que não consigo dormir nesta sombra medonha, se levanto a persiana e espreito lá o vejo nas sombras das pereiras, no pátio, um negro… talvez deite veneno no leite, de manhã, depois de o leiteiro encher a lata. Talvez envenene o gelo, quando o homem do gelo chega.”

“Há quanto tempo é que ele a persegue?” perguntou Miss Russel, adequadamente perturbada.

“Desde… o assalto,” disse Lizzie e subitamente olhou Miss Russel mesmo na cara com uma espécie de triunfo. Que grandes eram os seus olhos; proeminentes, contudo velados. E os seus dedos bem tratados continuaram a beliscar na parte da frente do vestido, como se estivesse a tentar descoser o franzido.

Miss Russel sabia, ela sabia que este negro era um produto da imaginação de Lizzie. Perdeu rapidamente a paciência com a rapariga; negros do lado de fora da janela do seu quarto, francamente! Contudo, foi simpática e procurou maneiras de a tranquilizar.

“Mas a Bridget já anda para aí a cirandar à hora em que o leiteiro e o homem do gelo aparecem e a rua toda também já está com bastante movimento; quem é que iria atrever-se a deitar veneno no leite ou no balde do gelo à vista de metade da rua?67 Oh, Lizzie, é este verão horrível, o calor, o calor intolerável, que nos pôs doentes a todos, que nos torna irascíveis e nervosos, que nos põe doentes. É tão fácil imaginar coisas com este tempo, que estraga a comida e nos põe macaquinhos no sótão… pensava que tinha planeado ir para fora, Lizzie, para a beira-mar. Não estava a planear tirar umas feriazinhas, à beira-mar? Oh, vá! O ar do mar vai afastar essas tolices!”

Lizzie nem acena, nem mexe a cabeça mas continua a puxar o franzido. Pois será que não tem coisas importantes a tratar em Fall River? Naquela mesma manhã não tinha ela própria ido à drogaria para tentar comprar ácido prússico? Mas como pode ela dizer à boa Miss Russel que se debate com a imperiosa necessidade de permanecer em Fall River e assassinar os seus pais?

Foi à drogaria na esquina da Main Street para comprar ácido prússico, mas ninguém lho vendia, por isso veio para casa de mãos a abanar. Será que toda aquela conversa de veneno na casa dos vómitos a levou a pensar em veneno? A autópsia virá a revelar a inexistência de veneno nos estômagos dos pais. Não tentou envenená-los. Apenas tencionava envenená-los. Mas não tinha conseguido comprar veneno. O uso de veneno tinha-lhe sido negado; por isso, que pode ela estar a planear, agora?

“E este negro, prosseguiu ela, virada para a contrariada Miss Russel, “oh! Vi a lua cintilar num machado!”

Quando acorda, nunca consegue lembrar-se dos seus sonhos; apenas que dormira mal.

O quarto dela é um quarto agradável, de dimensões não pouco generosas, tendo em vista a casa ser tão apequenada. Além da cama e da cómoda, há um sofá e uma secretária; é o quarto dela e também a sua sala de estar e o seu escritório, pois a secretária está repleta de livros de contabilidade das várias organizações de caridade com que ocupa o seu vasto tempo livre. A Missão Fruto e Flor, sob cujos auspícios visita os velhos indigentes no hospital e lhes leva presentes; a União Feminina de Temperança Cristã68, para quem angaria assinaturas para petições contra a Bebida do Diabo; Empenho Cristão, seja lá o que isso for - é a época dourada das boas obras e ela atira-se vigorosamente para os comités. Que fariam de si as filhas dos ricos, se os pobres deixassem de existir?

Há o Fundo para o Jantar de Ação de Graças dos Ardinas; e a Associação Bebedouros de Cavalos69; e a Associação para a Conversão dos chineses - não há nenhuma classe, nem espécie que esteja fora do alcance da sua impiedosa caridade.

Escrivaninha; toucador; armário; cama; sofá. Passa os seus dias neste quarto, movimentando-se entre cada uma destas desinteressantes peças de mobília, numa ronda circunscrita, imutável, planetária. Ama a sua privacidade, ama o seu quarto, onde se fecha por dentro o dia todo. Numa prateleira, um ou dois livros: Os Heróis da Missão70, O Romance do Comércio71, O Que Katy Fez72. Nas paredes, fotografias emolduradas de amigas de liceu, com dedicatórias sentimentais e, enfiado numa das molduras, um postal com uma gravura de um gatinho preto espreitando por uma ferradura. Uma aguarela representando uma paisagem marinha de Cape Cod, executada com uma pungente incompetência amadora. Uma ou duas fotos monocromáticas de obras de arte, uma madonna de Della Robbia e a Mona Lisa, que comprou nos Uffizi e no Louvre, respetivamente quando foi à Europa.

A Europa!

Então não se lembram do que Katy fez depois?73 a heroína do conto juvenil apanhou o vapor para a velha e nevoeirenta Londres, para a elegante e fascinante Paris, para as ensolaradas e antigas Roma e Florença, a heroína do conto juvenil vê a Europa revelar-se diante de si, como se fosse uma elegante série de diapositivos de Lanterna Mágica que se projetassem numa tela gigante. Tudo está presente e tudo é irreal. A Torre de Londres; clique. Notre Dame; clique. A Capela Sistina; clique. A seguir as luzes apagam-se e ela volta a ficar na escuridão.

Desta viagem apenas reteve a mais circunspecta das lembranças, aquela madonna, aquela Mona Lisa, reproduções de objetos de arte consagrados por uma aprovação universal de gosto. Se regressou com um saco cheio de recordações carimbado “Para Nunca Mais Esquecer”, arrumou-o debaixo da cama na qual sonhara com o mundo antes de partir para o ver, e na qual, novamente em casa, continuara a sonhar, tendo-se o sonho transformado, não em experiência vivida, mas em memória, que é apenas outro tipo de sonho.

Melancolicamente: “Quando estive em Florença …”

Mas nessa altura, com prazer, corrige-se: “Quando estivemos em Florença …”

Porque uma boa, se não a maior, parte do prazer que a viagem lhe deu, deriva de ter partido de Fall River com um seleto grupo de filhas de ricos e respeitáveis industriais. Uma vez fora de Second Street, podia movimentar-se confortavelmente no segmento da sociedade de Fall River ao qual pertencia por direito de nome antigo e dinheiro novo, mas do qual, quando estava em casa, as abundantes excentricidades pessoais do pai a excluíam. Partilhando quartos, partilhando salões, partilhando beliches, as raparigas viajavam num alegre grupo, que já trazia consigo o seu próprio fado, pois elas eram as raparigas que não iriam casar, agora, e qualquer prazer que poderiam extrair da variedade e excitação da viagem era contrariado à cabeça pela consciência de que estavam a consumir o que poderia ser o seu bolo de casamento, a esgotar aquilo que deveria ter sido, se tivessem tido alguma sorte, os seus dotes de casamento.

Todas as raparigas à beira dos trinta, privilegiadas por sair e ver o mundo antes de se acomodarem às magras condições das solteironas de Nova Inglaterra; mas foi um caso de olhar sem tocar. Sabiam que não podiam sujar as mãos ou ver os vestidos amarrotados pelo mundo, ao mesmo tempo que a sua dedicada companhia de viagem tinha uma certa qualidade inabalável, determinada, enquanto elas iam galhardamente tirando o melhor partido do segundo melhor partido.74

Foi uma viagem amarga, de certo modo, amarga; e foi uma viagem de ida e volta, acabou no mesmo lugar amargo de onde tinha partido. Em casa, de novo; a casa estreita, todos os quartos fechados à chave, como os do castelo do Barba Azul, e a madrasta75 branca, gorda, que ninguém ama, parada no centro da teia de aranha, não se mexeu um milímetro enquanto Lizzie esteve fora, mas engordou.

Esta madrasta oprimia-a como um feitiço.

Os dias abrem os seus espaços exíguos para outros espaços exíguos e móveis velhos e nunca há nada a esperar, nada.

Quando o velho Borden desenterrou da sua bolsa o dinheiro para a viagem de Lizzie à Europa, o olho de Deus na pirâmide piscou ao ver a luz do dia, mas não há extravagância em demasia para a filha mais nova do avarento, que é a mais imprevisível de sua casa76e, segundo parece, pode ter tudo o que quer, e brincar com os dólares de prata do pai, se lhe apetecer. Ele paga-lhe todas as contas da costureira logo na altura, e como ela adora vestir-se bem! É viciada em frivolidades. Dá-lhe por semana para os alfinetes o mesmo que a cozinheira recebe por mês e Lizzie dá o que não gasta em adornos pessoais aos pobres que o mereçam.

Ele era capaz de dar à sua Lizzie tudo, tudo no mundo que viva sob o símbolo verde do dólar.

Ela queria ter um animal de estimação, um gatinho ou um cachorrinho, adora animais pequenos e pássaros também, coitadinhos. Empilha o comedouro para pássaros durante o inverno. Costumava ter pombos no estábulo abandonado, daqueles que parecem volantes de badminton e fazem “crrrruuu-crrruuu” suavemente como uma nuvem.

As fotos que restam de Lizzie Borden mostram um rosto que é difícil de contemplar como se não se soubesse nada acerca dela; os acontecimentos que se seguiriam projetam a sua sombra no seu rosto, ou então vê-se as sombras que esses acontecimentos projetaram - algo terrível, agourento neste rosto, com o seu queixo retangular, sobressaído e aqueles olhos perturbados dos santos de Nova Inglaterra, olhos pertencentes a alguém que não nos ouve, olhos de fanática, poder-se-ia dizer, se não se soubesse nada acerca dela. Se se estivesse a vasculhar uma caixa de fotografias antigas numa loja de velharias e se encontrasse este rosto amarelecido e desvanecido por cima dos colarinhos esganados dos anos 90, poder-se-ia murmurar ao vê-la: “Oh, que grandes olhos tens!”, como o Capuchinho Vermelho disse ao lobo, mas nessa altura uma pessoa até podia nem se deter para pegar nela e olhá-la mais de perto, pois o seu rosto, em si, não é dos que chamam a atenção.

Mas assim que o rosto ganha nome, assim que se a reconhece, quando se sabe quem ela é e o que foi que ela fez, o rosto fica como que o de uma possuída, e agora persegue-nos, olha-se para ele uma e outra vez, destila mistério.

Esta mulher, com o queixo de uma funcionária de campo de concentração e que olhos …

Na sua velhice usava lunetas e, na verdade, a chama de fúria desapareceu daqueles olhos, ou então foi desviada pelos óculos, se é que na verdade era uma chama de fúria, em primeiro lugar, pois não esconderemos todos nós em algum lado fotografias que nos fazem parecer assassinos furiosos? E, naquelas fotografias antigas da sua juventude ela parece mais alguém em solidão extrema do que uma assassina furiosa, ignorando aquela câmara em cuja direção sorri obscuramente, tanto que não seria surpresa nenhuma se se viesse a descobrir que é cega.

Há um espelho em cima da cómoda, no qual às vezes contempla aquelas ocasiões em que o tempo se divide ao meio e então vê-se com olhos cegos, clarividentes, como se fosse outra pessoa.

“Lizzie não parece ela, hoje.”

Nessas ocasiões, nessas irremediáveis ocasiões, podia ter erguido o seu focinho para a lua ardente e uivado.

Noutras ocasiões observa-se penteando o cabelo e experimentando roupas. O espelho que deforma reflete-a com a ondulante fidelidade da água. Veste vestidos e depois despe-os. Contempla-se no seu corpete. Acama o cabelo. Mede-se com a fita métrica. Estica a fita. Acama o cabelo. Experimenta um chapéu, um chapeuzinho chique de palha de abas estreitas. Fura-o com um alfinete de chapéu. Puxa o véu para baixo. Puxa-o para cima. Tira o chapéu. Espeta o alfinete no chapéu com uma força que não sabia que possuía.

O tempo passa e nada acontece.

Delineia os contornos do seu rosto com uma mão incerta, como se estivesse a pensar em desatar as amarras da alma, mas não é tempo para fazer isso, ainda: não está pronta para ser vista, ainda.

É uma rapariga com a calma do Sargaços.77

Costumava ter os pombos na parte de cima do estábulo abandonado e alimentava-os com milho nas palmas das mãos. Gostava de sentir o suave arranhar dos seus bicos. Murmuravam “crrrruuu-crrruuu” com infinita ternura. Mudava-lhes a água todos os dias e limpava-lhes a porcaria leprosa mas o Velho Borden começou a implicar com o seu arrulhar, aquilo dava-lhe cabo dos nervos, quem haveria de pensar que ele tinha nervos, mas ele inventou-os, mexiam-lhe com eles, uma tarde pegou na machadinha da lenha na cave e cortou-lhes rente as cabeças, sim, senhor.

Abby gostaria dos pombos para uma empada mas Bridget a criada bateu o pé, além do mais: o quê?! Fazer uma empada com as amadas rolas de Miss Lizzie? Minha Nossa Senhora!!!, exclamou ela com ímpeto característico, como podem estar a pensar nisso! Miss Lizzy é tão picuinhas, com os seus ataques78 e tudo! (A criada é a única da casa com juízo, essa é que é a verdade.) Lizzie regressou da Missão Fruto e Flor, para quem tinha estado a ler um trecho das Escrituras79 a uma idosa num lar de pobres. “Deus a abençoe, Miss Lizzie.” Em casa, tudo era sangue e penas.

Esta não é de choros, não está na natureza dela, é de águas calmas, mas quando mexem com ela, muda de cor, o rosto ruboresce, torna-se sombrio, irado, raiado de vermelho. O velho adora a filha, para cá da idolatria, dá-lhe tudo o que deseja, mas mesmo assim matou-lhe os pombos quando à mulher lhe apeteceu devorá-los.

É assim que ela vê a coisa. É assim que ela compreende a coisa. Agora não suporta ver a madrasta a comer. Cada mastigadela que a mulher dá parece fazer “crrrruuu-crrruuu.”

O Velho Borden limpou a machadinha e voltou a colocá-la na cave, ao lado da pilha de lenha.

Com o rubor a desaparecer-lhe da cara, Lizzie desceu para inspecionar o instrumento de destruição. Pegou nele e examinou-o na mão.

Isso foi umas semanas antes, no começo da primavera.

As mãos e pés estremecem durante o sono; os nervos e músculos deste mecanismo complicado não relaxam, não querem relaxar, toda ela é estremeções, toda ela é tensão, está tensa como as cordas de uma harpa eólica, da qual as incertas correntes de ar extraem melodias que não são as nossas melodias.

À primeira badalada do relógio da Câmara Municipal, soa a primeira sirene das fábricas e na badalada seguinte, mais outra, e outra, a Metacomet, a American, a Mechanics, até todas as fábricas da cidade entoarem alto o hino comum de chamamento e as vielas ardentes onde o pessoal das fábricas vive ficarem escuras com a turba apressada: vamos! depressa! para o tear, para a bobina, para a roca, para o fuso, para a tinturaria, como se fossem para locais de culto, homens e mulheres também e crianças, as ruas ficam escuras, o céu fica escuro com a chaminés a expelirem fumo, o clangor, o barulho, o chocalhar das fábricas começa.

O relógio de Bridget salta e estremece na sua cadeira, prestes a soar o seu próprio alarme. O dia deles, o dia fatal dos Borden estremece prestes a começar.

Lá fora, no alto, no já escaldante ar, vejam! o anjo da morte está pousado no telhado.





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