Faculdade de letras universidade do porto



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Conclusão

Traduzir Angela Carter representou um desafio acrescido, dada a complexidade dos seus textos e as correntes literárias em que se insere. O facto de se tratar de uma escritora feminista a escrever sobre mulheres, ainda por cima numa determinada época do séc. XX, em que se acentuavam os movimentos feministas, no meio de grandes convulsões políticas e sociais, obrigou o tradutor a transportar para a língua de receção com a maior fidelidade possível, todos os detalhes de linguagem que possam refletir os aspetos mais marcantes dos textos, designadamente, os que refletem a posição particular da autora face a temas como a figura materna, o corpo feminino, a violência no feminino (a mulher como vítima e também agente da violência), a visão da sociedade em geral sobre a mulher.

Uma das principais dificuldades com que me deparei ao traduzir estes três textos de Angela Carter foi o uso de vocabulário específico de uma determinada zona geográfica (como o Lancashire, por exemplo), de um determinado grupo social, ou de uma determinada profissão. Em “Nossa Senhora do Massacre”, fui confrontado com termos índios, como “Algonquino”, “succotash”, por exemplo. Neste texto em particular, a principal dificuldade foi “recriar” em português atual expressões, ideoletos e dialetos, tornando compreensíveis para alguém de cultura e língua portuguesa (tomando como “português” a variante europeia) tais aspetos da língua e cultura inglesas.

Em “O Filho da Cozinha”, tive que me confrontar com termos ligados a duas áreas da cultura – o teatro, com as suas expressões próprias e a culinária, em que tive que recorrer até a dicionários de culinária (www.epicurious.com), para já não falar em dicionários de francês. Recordo-me, a esse respeito, da primeira linha do texto de partida: “Born in a trunk, they say when a theatrical sups grease-paint with mother’s milk...”, ou dos inúmeros neologismos baseados em termos culinários franceses que polvilham este texto: “to croquembouche her”, “milly filly her”, por exemplo.

Por último, “Os Assassínios de Fall River”. As dificuldades que tive em traduzi-lo dizem respeito ao texto como um todo. Não é por acaso que, dos três originais que analisei e traduzi, este é o mais documentado e mais analisado pela crítica literária, pois proporciona uma multiplicidade de leituras. Considero que, nos textos de Lizzie Borden (há dois na coletânea), Angela Carter dá largas ao seu estilo desafiador de convenções. Por conseguinte, em muitas expressões ou palavras usadas, havia que ter em conta as suas várias possíveis leituras e traduções, para que não se perdesse o sentido original, sempre sem deixar de ter em mente que se trata de uma autora cuja obra se insere numa certa filosofia feminista. Em suma, tentei respeitar a obra, “pintando-a com muito poucas cores para obter um efeito emblemático máximo.”



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