Faculdade de letras universidade do porto



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Relógios, de Novo


Quando anteriormente falei em símbolos, referi a certa altura a existência de relógios. No caso de “Os Assassínios de Fall River”, vemos e ouvimos os martelos do relógio-despertador de Bridget, a criada irlandesa dos Borden prestes a tocar na campainha ao aproximar das 6.00; ouvimos também o mecanismo do relógio da câmara municipal, que “range e crepita os prolegómenos da primeira badalada das seis” no alvorecer daquele dia fatídico. Mas, ao contrário de Bridget, cujas “pálpebras húmidas não estremecem com premonição”, de morte, diria eu, quando Nogueira Alta pega no relógio que Sal tinha tirado ao cativo inglês que a tribo acabara de matar e lhe havia oferecido, quando o relógio começou a dar “as doze horas, pois era meio-dia [...] ele assusta-se, deixa-o cair, aquilo parte-se tudo, as rodas dentadas e molas espalham-se pelo chão, e o meu marido, pobre selvagem supersticioso que era, apesar de ser o melhor homem do mundo, o meu marido começou a tremer como varas verdes e disse que o relógio era “mau remédio” e mau presságio.”

Aquele relógio, ao desfazer-se no chão, pressagia para os índios toda a destruição que estava para vir e Sal não conseguiu avisar a tribo sobre a vingança que certamente se seguiria, por eles estarem bêbados a comemorar o que pensavam ser uma vitória sobre os brancos.

Este acontecimento acaba por ser central na narrativa, pois representa mais um ponto de viragem: morte da mãe natural; morte da “mãe” do Lancashire; mudança geográfica para Londres; violação (a vários níveis) e transformação na “prostituta do Lancashire”; julgamento e deportação para a Virgínia por causa do roubo de um relógio; fuga do cativeiro; encontro com a terceira “mãe”, a mulher índia; redenção e casamento com Nogueira Alta; captura pelos ingleses, devido à vingança que se seguirá. Podemos até resumir e estabelecer um paralelo com o Novo Testamento: de Virgem Maria, Sal transforma-se sucessivamente em Madalena, a prostituta; em Madalena, a prostituta arrependida, que até casa com Nogueira Alta (não haverá aqui um “Jesus”, que a redime?) se torna mãe, libertando-se do pecado original; Madalena, a condenada pela norma e pela convenção e, finalmente a mulher revoltada contra essa norma e convenção: “Passado pouco tempo, a mulher vem ter comigo e diz-me: “Ainda és uma mulher nova, Mary e o Jabez Mather diz que te tomará por esposa, uma vez que a dele morreu de disenteria, mas não te fica com a criança, por isso, fico eu.” Mas ela jamais terá o meu rapazinho como filho, nem eu tomarei o Jabez Mather por marido, nem qualquer outro homem vivo, antes sentar-me e chorar junto às águas da Babilónia.”

Sal acaba, como vimos, por ser apanhada pela história. O que os ingleses fizeram como vingança pela captura e posterior morte do governador da Virgínia foi uma autêntica carnificina. Neste conto, a opressão volta a surgir depois da carnificina, ao contrário de “Os Assassínios de Fall River”, em que, não tendo mais por onde fugir, Lizzie Borden desata à machadada para se libertar.

Em “Nossa Senhora do Massacre” a carnificina não liberta, oprime mais ainda. Podemos até dizer que este conto é um autêntico libelo anticolonial e anti-todas as convenções sociais vigentes na Europa do séc. XX até aos anos 50, designadamente, no Império Britânico.





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