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Lizzie Borden E A Companhia dos Lobos



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Lizzie Borden E A Companhia dos Lobos

A narradora apresenta-nos Lizzie de duas maneiras distintas: desafiando o leitor a encontrar fotografias antigas de Lizzie, este poderia deparar-se com uma cara (ou focinho?) amarelecida, desbotada e murmurar: ‘“Oh, que grandes olhos tens!”, como o Capuchinho Vermelho disse ao lobo, mas nessa altura uma pessoa até podia nem se deter para pegar nela e olhá-la mais de perto, pois o seu rosto, em si, não é dos que chamam a atenção.”, fazendo-nos supor que, pelo menos aqui, Bela e Monstro habitam o mesmo corpo. A referência, quando se fala no “Capuchinho Vermelho”, é mais à história “A Companhia dos Lobos” (Jordan, Neil, The Company of Wolves, ITC Cannon, 1984, 95min) do que, propriamente ao conto de fadas de Perrault.

Num segundo momento, Lizzie contempla-se ao espelho, numa daquelas “ocasiões em que o tempo se divide ao meio e então vê-se com olhos cegos, clarividentes, como se fosse outra pessoa.

“Lizzie não parece ela, hoje.

Nessas ocasiões, nessas irremediáveis ocasiões, podia ter erguido o seu focinho para a lua ardente e uivado.”

E, mais adiante: “É uma rapariga com a calma do Sargaços.”

Há, portanto, uma imagem dupla de Lizzie, que nem sequer é “Elizabeth”, pois o pai é tão sovina que lhe ficou com metade do nome (“porquê sobrecarregá-la com o estéril e vistoso prolongamento “Elizabeth”? Sovina em tudo, até lhe colheu metade do nome antes de lho dar.”) Lizzie é, ao mesmo tempo, lobo e pessoa normal: “’Oh, que grandes olhos tens!’, como o Capuchinho Vermelho disse ao lobo, mas nessa altura uma pessoa até podia nem se deter para pegar nela e olhá-la mais de perto, pois o seu rosto, em si, não é dos que chamam a atenção.”

O final da narrativa, com a carnificina dos pombos e a transformação destes em ingredientes culinários (“Em casa, tudo era sangue e penas.”) até nos mostra uma Angela Carter compreensiva para com o crime de Lizzie e mais consentânea com a opinião que o tribunal teve quando a absolveu, na época, apesar de ter vivido ostracizada pela sociedade de Fall River, para quem só poderia ter sido ela a autora de tais crimes hediondos.

Apesar de ser de “águas calmas”, o modo como Lizzie dorme é, apesar de tudo, sintomático, pressagiador: os pés estão sempre a mexer, tem um sono agitado. A morte dos pombos foi despertar o Lobo e é curioso ver como Lobo e Capuchinho Vermelho se fundem numa só personagem. Aliás, nesta casa, sono e morte andam sempre muito perto: “a casa é estreita como um caixão”; “as pálpebras húmidas de Bridget não estremecem com premonição, deitada com a sua pegajosa camisa de noite de flanela, sob um lençol fino numa cama de ferro, de costas, como as boas freiras lhe tinham ensinado na sua meninice irlandesa, no caso de morrer durante a noite, para dar menos trabalho ao agente funerário.” A terceira menção a sono ou morte ocorre na página 5 da tradução que submeto: “A casa cheira profundamente a sono, esse odor adocicado e pegajoso. Quieto, tudo quieto; em toda a casa nada se mexe, exceto a mosca zunindo. Quietude nas escadas. Quietude pressionando as persianas. Quietude, quietude mortal no quarto de baixo, onde o Senhor e a Senhora partilham o leito matrimonial.” Mais à frente, há uma descrição dos objetos que estão em cima do toucador que pressagia os acontecimentos: “Em cima do toucador, um pano bordado com miosótis; sobre o pano um pente em osso com três dentes a menos e com cabelos grisalhos ligeiramente enredados, uma escova de cabelo em madeira ebanizada e uma quantidade de panos de renda debaixo de caixinhas de porcelana contendo alfinetes de ama, toucas, etc.. A pequena peruca que Mrs. Borden coloca na cabeça quase careca durante o dia está enrolada como um esquilo morto.” Há uma certa entropia neste quarto, que só pode ter um fim... Finalmente, “Estão deitados costas com costas, eles. Podia pôr-se uma espada no espaço entre o velho e a mulher, entre a espinha do velho, a única coisa rígida que ele alguma vez lhe oferecera e o macio, quente, enorme rabo dela. As purgas flagelavam-nos. As faces evidenciam verde em decomposição na claridade do quarto de cortinas cerradas, em que o ar é demasiado espesso até para as moscas se mexerem.” A história começa a ter a chamada massa crítica e tudo se encaminha para o clímax final. Depois há uma intromissão de outro conto de fadas: “A filha mais nova sonha atrás da porta fechada.

Vejam a bela adormecida!” – só que não é o beijo de um príncipe que a acorda e sim o sangue e as penas dos seus amados pombos que faz despertar nela o Lobo Adormecido que vive dentro dela e no qual ela se transforma.

“Os Assassínios de Fall River” é uma história com relativamente pouca conotação sexual e está mais centrada na dinâmica familiar, estando Lizzie constrangida pelas regras vitorianas que lhe são impostas, tanto em casa, como em sociedade. Ao contrário do “Capuchinho Vermelho” em “A Companhia dos Lobos”, em que há um cariz marcadamente sexual, ou mesmo até em “Dornröschen” (A Bela Adormecida), já referido anteriormente, a Lizzie nada acontece, “o tempo passa e nada acontece” e, apesar de acharmos que às vezes pode uivar à lua cheia, vai mantendo sempre um comportamento frio. Afinal de contas, “she is a girl of Sargasso calm”. Parece haver aqui espécie de “Dr. Jekyll e Mr. Hyde”.

Voltando às fotografias, ela tem os olhos de uma santa de Nova Inglaterra, mas são uns olhos dementes, “pertencentes a alguém que não nos ouve, olhos de fanática, poder-se-ia dizer, se não se soubesse nada acerca dela.”

No final da narrativa, o futuro de Lizzie é deixado ao leitor e aquilo que lemos situa-se integralmente antes daquele milésimo de segundo, já Lizzie ergueu o machado.



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