Faculdade de letras universidade do porto



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Retratos

Mas, voltando aos retratos, há muitos retratos verbais de Lizzie. O primeiro, é construído a partir do pormenor histórico. Num futuro do indicativo, a ação torna-se estranhamente estática: “Nesta manhã em que, após o pequeno-almoço e o desempenho de algumas tarefas domésticas, Lizzie Borden irá assassinar os pais, irá, ao levantar-se, enfiar um vestido simples de algodão - mas, debaixo disso, já pôs um saiote de algodão, comprido e engomado, mais outro saiote de algodão curto e engomado; meias-calças, meias de lã; uma combinação e um espartilho de barba de baleia que lhe segurava as vísceras com mão severa e lhas apertava muito firmemente. Também amarrou um pano de linho grosso entre as pernas porque estava com a menstruação.” Logo a seguir recorre ao elemento fantástico para a colocar de acordo com a nossa imaginação e estabelece um paralelismo com a lenda de Santa Catarina, repetindo a estrofe inicial da rima infantil: “Lizzie Borden com um machado”.

Como curiosidade, se consultarmos o Google Earth, vemos que no nº 92 em Second Street, Fall River, Massachusetts funciona agora a Pensão Lizzie Borden Bed and Breakfast – Angela Carter não faria melhor subversão!... Para ironizar com uma frase retirada da entrevista acima mencionada, “há alturas em que a realidade se torna demasiado complexa para a Comunicação Oral” mas a lenda dá-lhe uma forma através da qual impregna o mundo.

Jean-Luc Goddard, citado por Janet Langlois (Langlois: 1998), afirma “O Conto de Fadas está para a lenda como a lenda para a história.” Elementos de lenda, de história e de conto de fadas entrecruzam-se constantemente desde o início da narrativa.

Carter “desmitologiza” a figura histórica de Lizzie Borden, que foi absolvida e alinha na visão da classe operária de Fall River de que mais uma vez uma ricaça se safou.

Depois de nos fornecer uma perspetiva sobre a lenda de Lizzie Borden, Angela Carter passa a um segundo nível de narrativa, “porque é que” matou. Ao abordar a questão das portas fechadas à chave, somos transportados para um assalto, ocorrido anos antes, mas precursor dos assassínios. O assalto “violou” Andrew Borden, mas a reação deste é, no mínimo, curiosa: passou a fechar todas as portas à chave, dando a entender que tinha sido alguém da casa o assaltante – quem sabe, Lizzie, num dos seus ataques na altura do período; ao fim e ao cabo, o assalto deu-se numa altura em que só Lizzie e Emma estavam em casa.

Lizzie é uma mulher aprisionada, oprimida pelas chaves, pelas roupas, mas também pelas convenções sociais, além, claro, de viver numa casa extremamente confinada, apertada, opressora, paralisadora e atrofiadamente pequena.

A subtileza está em que Angela Carter, apesar de nos indicar que Lizzie “irá assassinar os pais”, limita-se a traçar-nos um retrato de uma mulher da/naquela época lutando para se libertar dos constrangimentos sociais e dos estereótipos de género.

Existe uma dupla confusão com o sangue das vítimas do assassínio e entre a personagem histórica e as personagens de um conto de fadas: “O Barba Azul” ecoa em “Os Assassínios de Fall River”. O ato de Lizzie provoca derramamento de sangue e ela está com a menstruação, o seu sangue vital corre, enquanto o anjo da morte aguarda pousado num telhado próximo.



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