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Mais Símbolos: Relógios, Mecanismos, a Morte



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Mais Símbolos: Relógios, Mecanismos, a Morte

Como já referi antes, são símbolos centrais nas três histórias que apresento, o relógio e o ato de comer. Mas há outros símbolos: o Sol, que se torna a cada volta do seu vórtice a Roda de Santa Catarina, o mostrador de um relógio, a boca de um Demónio, de um Ogre, uma fornalha, um ânus, um espelho humilhante que, qual laço de forca, distorce as caras sem piedade. Os autómatos: para Rikki Ducornet em “A Scatological and Cannibal Clock: Angela Carter’s The Fall River Axe Murders”, os Borden são, todos eles, autómatos. Aberrações da natureza, personificam os pecados mortais e deambulam dentro do espaço circunscrito de uma casa que lembra o mecanismo de um relógio. Envoltos numa espiral frenética, giram em torno do buraco negro da raiva de Lizzie, num órbita cada vez mais baixa.

Para Eric White, em “Insects and Automata in Hoffmann, Balzac, Carter, and del Toro”, o termo “autómatos” refere-se a máquinas intrincadamente idealizadas, concebidas, não só para reproduzir o aspeto externo de seres vivos – no caso, seres humanos – mas também para imitar o seu comportamento típico. Nesta conformidade, penso que poderemos considerar Andrew J. Borden como um autómato; veja-se a descrição da sua maneira de andar, por exemplo: “caminha com a dignidade majestática de uma carro fúnebre” e, mais adiante, “como se as suas pernas não tivessem articulações, nem nos joelhos, nem nos tornozelos.” Os seres humanos são reduzidos a um estado robótico por um processo de repressão psíquica. Pode notar-se isto no estado a que Lizzie Borden é conduzida pelo comportamento misantrópico do pai, mas também ao estado a que Sal, em “Nossa Senhora do Massacre”, é conduzida pelo mecanismo repressor da sociedade inglesa dos séculos XVII/XVIII. Em relação a “O Filho da Cozinha”, esta situação não é tão óbvia mas, ainda assim, o que é aquela cozinheira, se não um autómato, por força da pressão que a aristocracia daquela época exerce sobre aquela mulher em particular? Encontrando-se cercada por todos os lados, àquela cozinheira não restou alternativa se não a repetição “ad aeternum” de um soufflé de lagosta, na vã esperança de corrigir um erro do passado – “trop de cayenne” e de, quem sabe, se revoltar contra quem lhe fizera um filho daquela maneira tão pouco ortodoxa.

Lizzie é, ela própria, um símbolo, como Santa Catarina: carrega um machado que a oprime; é o oposto da santa, o “lado escuro da lua” (“The lunatic is in my head/the lunatic is in my head/.../there’s someone in my head, but it’s not me”, Brain Damage, Pink Floyd; há um pouco de esquizofrénico em Lizzie, não é verdade?); a sua ascensão não leva ao céu, mas ao inferno. Em vez de um halo, Lizzie ostenta um penico. Tal como Santa Catarina, Lizzie sangra, o ciclo menstrual funcionando como um relógio, a sirene da fábrica, o sol, a lua e o penico, são todos lembranças incontornáveis da mortalidade, da nossa efemeridade.

Tudo parece um relógio: as crises de Lizzie correspondem aos seus ciclos menstruais, e até os chilreios dos pássaros nas árvores se reduzem aos do mecanismo do relógio da Câmara Municipal.

Fall River é uma “wasteland” e, se fizéssemos como Spielberg em “A Lista de Schindler” (Spielberg, Steven, Schindler’s List, Universal Pictures, 1993, 195min), a única coisa a cores seriam as pereiras. Mas mesmo estas, em vez de serem regadas com água, são-no com a urina do velho.

Mais símbolos: o apetite. Borden e a sua mulher gorda; a casa com a forma de um pão de forma. Lá dentro, todos estão ameaçados pelo poço sem fundo que é a boca de Abby.

Forma-se uma trindade diabólica: tempo – calor – comida, cujo “sanctum sanctorum” é um penico que reflete as purgas da refeição anterior (“os resultados copiosos das suas purgas fazem transbordar os penicos debaixo da cama. Dá para fazer desmaiar um canalizador.”)

Um outro símbolo que podemos encontrar em os Assassínios de Fall River é a morte. A morte é a transgressão final. Mas a morte também está representada naquelas imagens que Carter nos dá do velho Borden: “Ele caminha com a dignidade majestática de um carro fúnebre. Ver o velho Borden dirigir-se rua abaixo na nossa direção era ser preenchido por um respeito instintivo pela mortalidade, cujo macilento embaixador ele parecia ser.” E, mais adiante, “Ele é alto e macilento, como um juiz de enforcamento.”

Até os objetos pessoais de Abby falam de morte: o pente em osso – que se parece com uma caveira e ao qual até faltam três dentes – e uma peruca que parece um esquilo morto (o esquilo está enrolado, como um feto, mas morto).

A lista de objetos roubados inclui “o relógio de ouro da senhora Borden e a corrente, o colar de coral e a pulseira de prata da sua remota infância, e um maço de notas de dólar que o Velho Borden guardava debaixo de umas ceroulas lavadas na terceira gaveta da escrivaninha à esquerda.” O relógio, obviamente, representa o tempo (gaguejando) e o colar, o nó corrediço do enforcado.

Toda a casa respira sono, ou premonição da morte: “A casa cheira profundamente a sono, esse odor adocicado e pegajoso. Quieto, tudo quieto; em toda a casa nada se mexe, exceto a mosca zunindo. Quietude nas escadas. Quietude pressionando as persianas. Quietude, quietude mortal no quarto de baixo, onde o Senhor e a Senhora partilham o leito matrimonial.” (página 89 do presente volume)

Naquela casa tudo é confinado, exceto o apetite – não apenas o apetite de Abby é prodigioso, mas o velho Borden conseguia devorar a cidade de Fall River. Há sempre uma constante confusão entre boca e ânus, entre ingerir e digerir, caixão e casa, bolsos, penicos e relógios. Os Borden são “Mr e Mrs Jack Spratt em pessoa, ele alto e macilento, como um juiz de enforcamento, ela, uma redonda bolinha de massa em expansão. Ele é um sovina, ao passo que ela é uma glutona, uma comedora solitária, o mais inocente dos vícios e no entanto é a sombra ou a paródia do vício dele, pois ele gostaria de engolir o mundo inteiro, ou, se não o conseguisse, uma vez que o destino não lhe pôs uma mesa suficientemente larga para as suas ambições, ele é um Napoleão mudo e inglório, não sabe o que é que poderia ter feito, porque nunca teve a oportunidade -- já que não tem acesso ao mundo inteiro, gostaria de engolfar a cidade de Fall River.” (página 95 do presente volume)

Para introduzir um pouco de humor, podemos dizer que esta é uma história rica em colesterol.

A raiva de Lizzie aumenta, porque não lhe deixam nada. Não é uma comedora, mas é comida (verbo) e a raiva que lhe causa o ventre que sangra torna-a sobrenatural. Tem o maxilar de uma guarda de campo de concentração e os olhos do Lobo Mau (“Esta mulher, com o queixo de uma funcionária de campo de concentração e que olhos …”). É um lobisomem regido pela lua. Até quase conseguimos ouvi-la uivar: “Nessas ocasiões, nessas irremediáveis ocasiões, podia ter erguido o seu focinho para a lua ardente e uivado.”

Ainda os relógios: numa edição diferente da que foi usada para esta dissertação, há um relógio na sala que está misteriosamente parado, ou antes, está certo duas vezes por dia. Um relógio parado, de mármore negro, como um mausoléu grego. Talvez esta versão, que é a versão americana, nos possa fornecer uma pista para o desenlace dos acontecimentos naquela manhã fatídica de 4 de agosto. Nela, Angela Carter demora-se um pouco a descrever o modo como as pessoas se sentavam à mesa, hierarquizadamente, com o patriarca à cabeceira e, recorrendo à mitologia grega – lá está, desmitologizando-a, fornece-nos uma perspetiva do funcionamento das relações interpessoais entre Andrew J. Borden e a sua filha mais nova e do funcionamento da mente desta. Há um relógio parado, em mármore preto, fazendo lembrar um mausoléu grego. Borden, qual Zeus, devora Métis, por recear que esta venha a ser mais exaltada do que ele, mas fica com uma dor de cabeça tal, que acaba por pedir a Vulcano que lha abra, para se libertar. Armada e adulta, Minerva salta para fora da cabeça do pai. Entra Freud. Lizzie é o produto da cabeça de Borden. Ao abrir ao meio a cabeça do pai, Lizzie nasce “armada e adulta”.

Voltando à Roda de Santa Catarina, esta era feita de lâminas e aqui vale a pena comparar a lenda da Santa com o que aconteceu a Lizzie. Para resumir, a roda partiu-se com violência tal que acabou tudo num enorme banho de sangue, com cabeças cortadas e corpos desmembrados, mas “este apocalipse doméstico deve ser pintado com muito poucas cores e a sua trama profundamente simplificada, para se obter um efeito emblemático máximo.”



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