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Classe e Género: Uma Feminista na Luta de Classes



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Classe e Género: Uma Feminista na Luta de Classes

Para Christine Berni o caso Borden ilustra a forma como a construção da história depende de coisas como classe e género (Berni 30). Em 1892 Fall River, Massachusetts era uma cidade com profundas divisões de classe.

O julgamento dos assassínios de Fall River originou, logo na época, uma disputa entre as várias visões da realidade social. Em 1892 definiam-se teorias do comportamento e teorias sociais, questionando-se, designadamente, o papel da mulher. Para o movimento feminista, que surgia na altura, e que Angela Carter parece desconstruir, desmitologizar, o ato de Lizzie não é monstruoso, é, sim, um produto de uma circunstância social monstruosa, uma avenida para a libertação da opressão do lar Vitoriano. A história que Angela Carter nos conta é emblemática do modelo feminista. A história de Carter aponta os horrores do espaço doméstico ao mostrar em detalhe a vida confinante - claustrofóbica da sua heroína solteirona. Para Schofield, citada por Christine Berni, Angela Carter constrói os crimes de Lizzie como se fossem motivados em parte pelo desejo que esta tinha de se libertar dos limites da casa ou do poder patriarcal. Carter diz-nos que Mr Borden “é o dono de todas as mulheres, seja por casamento, nascimento, ou contrato.” Carter subverte a narrativa, pois nunca conta o acontecimento central, os assassínios. O conto termina precisamente no local onde começa, na manhã do dia fatídico.

Carter resiste à teleologia, revelando a impossibilidade de se chegar a uma única e autêntica verdade histórica. Enumera as múltiplas circunstâncias atenuantes das matanças de 4 de agosto: o calor sufocante; as opressivas roupagens vitorianas; a casa desconfortável e exígua; o ciclo menstrual de Lizzie, a comida envenenada, a resposta de Lizzie à gula insaciável da madrasta; os “ataques e tudo! ” de Lizzie; o ciúme edipiano da madrasta e “last but not least”, a raiva de Lizzie contra o pai por este lhe ter matado os pombos. As circunstâncias são atenuantes porque, embora Carter fosse uma feminista, apenas nos quis fornecer um retrato “com muito poucas cores” dos acontecimentos.

A autora critica a ordem social vigente na altura, mostrando-nos que estamos a ler uma construção dos acontecimentos, partilhando o processo de elaboração da ficção com o leitor, como faz, por exemplo, quando descreve o que as meninas fazem nos seus quartos: “a dormir a sesta nas suas camas ou a coser bainhas, ou a coser botões soltos, ou a escrever cartas, ou contemplando ações de caridade entre os pobres que a merecessem ou a lançar um olhar vago para o espaço.

Não consigo imaginar que outra coisa poderiam elas fazer.

Aquilo que as meninas fazem quando estão sozinhas é-me inimaginável.” (“Os Assassínios de Fall River”, página 90 do presente volume)

As interrupções do fluxo narrativo de Angela Carter também nos mostram que a história é escrita de acordo com agendas particulares: “Cinco criaturas vivas estão a dormir numa casa na Second Street, em Fall River. Totalizam dois velhos e três mulheres. O primeiro velho é o dono de todas as mulheres, seja por casamento, nascimento, ou contrato. [...]

Tirem John Vinnicum Morse do guião.

Um velho e duas das suas mulheres dormem na casa em Second Street.” A autora procura aqui desimpedir a narrativa de pormenores que só atrapalhariam, como, por exemplo, a não participação nos acontecimentos de John Vinnicum Morse, o tio de Lizzie, mas, no entanto, fornece-nos uma pista sobre as relações de poder dentro daquela casa. “Tirem-no do guião”, vai ela ordenando, como se a história nos estivesse a ser apresentada num palco, em que as personagens, quais marionetas, são manipuladas pela nossa idiossincrasia. O casal Borden, por exemplo, é-nos apresentado através de estereótipos e caricaturas.





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