Faculdade de letras universidade do porto



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Os Símbolos

Podemos encontrar um conjunto de características góticas nestas três histórias, como, por exemplo, a presença de símbolos, à volta dos quais Angela Carter constrói as respetivas narrativas, designadamente em “Os Assassínios de Fall River”. Um desses símbolos é o anel de Lizzie Borden no dedo do pai: possível incesto escondido debaixo do casaco (uma possível razão pela qual ela acaba por matá-lo também).

As roupas (o modo como as pessoas se vestem, inadequado para aquele clima) são também um símbolo recorrente na história – quer Lizzie, quer os da casa, quer as pessoas que vão para o trabalho saem à rua “bem embrulhados em roupa interior de flanela, camisas de linho, camisolas interiores e casacos e calças de lã grossa e garrotam-se com gravatas, também, acham que é tão virtuoso estar-se desconfortável”. Aqui as roupas metaforizam o pecado, pois os índios nos dias de calor, tiravam as peles de veado e limitavam-se a sentar-se nos charcos com a água até ao pescoço, ao contrário do que faziam aqueles “santos autoflageladores”.

A existência de chaves, quer no conto “The Bloody Chamber”, integrado nesta coletânea (e onde servem para guardar segredos), quer na casa dos Borden também é um símbolo de pecado, segredo, morte. Em “The Bloody Chamber” as chaves são para coisas proibidas, segredos, mas, em ambas as circunstâncias, as chaves também envolvem sangue – menstrual e de morte.

A comida é também um símbolo e ponto aglutinador nestas três short stories. Por exemplo, toda a ação de “O Filho da Cozinha” se desenvolve em torno da confeção de um soufflé de lagosta que se vai repetindo vezes sem conta até ao momento em que o narrador/filho da cozinh(eir)a vier a descobrir quem é o seu pai; os assassínios de Fall River dão-se porque Abby deseja comer um empadão feito com os pombos de Lizzie; Abby comete o pecado – literalmente mortal – da gula; em Nossa Senhora do Massacre é também pela comida que nos é dado um retrato dos índios algonquinos.

Angela Carter usa o tropo da alimentação feminina, um local de relações de poder de género – nestas três short stories quem detém o poder são as mulheres – juntamente com imagens e metáforas de desempenho para mostrar o modo como as interações com as forças sociais, culturais e físicas do apetite refletem e informam as relações sexuais em geral.

O apetite pode também ser visto como uma metáfora para o poder. Para Abigail Dennis, em “The Spectacle of Her Gluttony – The Performance of Female Appetite and the Bakhtinian Grotesque in Angela Carter’s ‘Nights at The Circus”, Carter nunca esquece a primazia do corpo e dos seus apetites, qualquer que seja a elevação metafísica do seu tema.

Do mesmo modo que o poder sexual pode ser manipulado e explorado, o poder de satisfazer os apetites próprios e os dos outros é central nas relações de género e são muitas vezes uma força, tanto destrutiva, como positiva – o apetite desempenha um papel no processo de objetificação, particularmente, das mulheres.





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