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Retratos da Figura Materna nestas Três Short Stories



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Retratos da Figura Materna nestas Três Short Stories:

Em “Nossa Senhora do Massacre”, logo na página 1, encontramos um enquadramento da situação inicial de Sal: “o meu pai [...]e a minha mãe [...] morreram os dois de Peste [...] pelos meus nove ou dez anos fizeram-me criada para todo o serviço de uma velha que vivia na nossa paróquia.”

Segue-se uma referência à Bíblia, mais exatamente, ao Génesis. Carter reescreve o mito do Éden e também, penso eu, do Apocalipse, pois a terra para onde Sal vai – e aqui há uma curiosa inversão do género – na profecia da mãe do Lancashire, chama-se Virgínia, que é comparada ao Paraíso e, quando o mundo acabar, os que merecerem irão para o Céu “e o meu querido menino sentar-se-á, sorridente acima de tudo com uma coroa dourada na cabeça.” No final da história, tal como no Génesis, também Sal é expulsa do Paraíso, por causa do pecado que cometeu.

A Queda não é só da Virgínia, que é vista como um Éden, mas dos mitos culturais que contribuíram para a opressão intelectual, emocional e sexual da mulher.

Mais tarde, a “mãe” aparece associada a canibalismo, mas para o desmitologizar. Sal reflete sobre o canibalismo dos índios – um mito cultural que lhe fora imposto no Velho Mundo, e que lhe foi desmentido pela sua “mãe” índia – e, num diálogo com um Ministro Anglicano, chega mesmo a comparar a Missa a uma espécie de “refeição sacramental”.

Esta “mãe” índia é uma mãe “Rousseauniana”, boa, quase como um Anjo, embora seja ela quem acaba por expulsar Sal daquele “Éden”, acusando-a de traição. Aliás, em “Nossa Senhora do Massacre” há muito poucas mulheres referidas positivamente e esta é uma delas – a outra é a mãe que ela deixou no Lancashire e que a preparou, sem o saber verdadeiramente, para a vida entre os índios (a palavra “índio” é mais uma convenção europeia, mas nesta, Angela Carter não toca, curiosamente).

No final da história há outra figura materna que aparece, mas penso que representa o próprio preconceito, a Instituição – é a mulher de um Ministro Anglicano – que, não podendo ter filhos, acaba por adotar o filho de Sal e de Nogueira Alta.

A tribo entre a qual Sal vive é uma sociedade patriarcal, mas em que as mulheres são quem detém o poder real – são elas que tratam da agricultura que dá sustento à tribo e os homens dedicam-se a outras “tontices”: “E se é que tenho algo a apontar a esta tribo é que os homens não tinham nada a ver com esta agricultura, apesar de ser trabalho pesado, mas iam à pesca no riacho, ou iam perseguir veados, ou metiam-se em danças e outras tontices que tais, para fazer crescer o milho.” E acrescenta: : “Não há mal nenhum nisso e assim eles não estorvam.” Vejo aqui um reflexo da infância de Angela Carter que, quando era criança, foi viver com a avó materna, que tinha uma personalidade muito forte e tinha um padrão de vida matriarcal.





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