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Desmitologização e Subversão



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Desmitologização e Subversão


Particularmente interessante é “Os Assassínios de Fall River”, que descreve os últimos dias da família de Lizzie Borden. A história toma a forma de uma bolha de azeite subindo pela água, até que, ao chegar à superfície, rebenta e liberta a tensão de uma só vez, acabando no momento em que Lizzie Borden acorda, no dia dos assassínios. Vandermeer, Jeff (2011), The Infernal Desire Machines of Angela Carter. Tallahassee, Florida, Cheeky Frawg Books.

Em “Nossa Senhora do Massacre”, “O Filho da Cozinha” e “Os Assassínios de Fall River”, Angela Carter abandona um pouco, se não totalmente, os mundos fantásticos de “Black Venus” (“A Vénus Negra”) e “American Ghosts and Old World Wonders”. Nestas três obras Carter vira-se para o real, para o retrato, ao invés da narrativa. As melhores peças destes últimos livros são retratos – da jovem negra Jeanne Duval, de Baudelaire, de Edgar Allan Poe e, em duas histórias, de Lizzie Borden muito antes de ela “pegar num machado”, e da mesma Lizzie no dia dos crimes, um dia descrito com precisão e atenção ao pormenor lânguidos - as consequências das roupas pesadas numa onda de calor, de comer peixe requentado, desempenham ambas um papel. Para lá do hiper-realismo, existe, contudo, um eco de “The Bloody Chamber”, pois o ato de Lizzie é um ato de sangue e, para além disso, está com o período. O seu sangue vital flui, enquanto o anjo da morte aguarda pousado num telhado ali perto. (Mais uma vez, como nas histórias de lobos, fica a ansiar-se por mais, pela romance de Lizzie Borden que não poderemos ter.)

Na opinião de Rushdie (Rushdie, Salman Prefácio a Burning Your Boats, Carter, Angela (2006), Collected Stories. London, Vintage Books.), Carter desconstrói e sabota Baudelaire, Poe, Shakespeare onírico, Hollywood. Pega no que conhecemos e, depois de o desmontar, volta a construí-lo no seu estilo picante e cortês; “her words are new and not new, like our own.”

Linden Peach (Peach, Linden (1998), Angela Carter. New York, MacMillan Modern Novelists.) afirma que existe uma natureza subversiva e contenciosa na obra de Angela Carter, que é impossível menosprezar, mas tem de se evitar a colagem de etiquetas, tais como, “realismo mágico” à sua escrita não-realista e filosófica que explora as “realidades” em que muitos de nós vivemos. Para Linden Peach há necessidade de reconhecer o modo como a obra de Carter desconstrói os processos que produzem as estruturas sociais e os significados partilhados. Isto nota-se, por exemplo, na sua recorrente desmitologização da figura materna e no modo como a manifestação do corpo feminino na sua obra perturba a construção social das mulheres como Mulher.



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