Etnografia e seus sujeitos



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adm, R.I.C.-2004-7
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e, propõem um mundo onde não haja sujeitos e objetos no escrever etnográfico, 
discutindo aquilo que ainda está por vir: a redação do texto etnográfico. Através da crítica à 
ciência, suas formas de linguagem, sua aliança como discurso do valor e do trabalho e seu 
distanciamento da práxis, Tyler desvenda um contexto sócio-cultural - o mundo pós-moderno 
- no qual os fundamentos da ciência como representação e como conhecimento universal não 
mais operam enquanto tais. Como explica Trajano Filho: 
Tyler é muito eloqüente na utopia que vislumbra e promete: um mundo 
lúdicamente fragmentado, sem sujeitos e objetos, um mundo além da 
dominação no qual um madrigal a muitas vozes é repetidamente executada 
num espaço transcendente, cuja acústica reforça reflexões, reverberações e 
ecos - fundamento da fantasia, incitadores da evocação. (TRAJANO FILHO, 
1988, p. 141). 
No ensaio de James Clifford (1986), Sobre la alegoria etnográfica, a ênfase na 
pesquisa de campo recai nos elementos intersubjetivos do encontro etnográfico, 
diferentemente do que caracterizava a antropologia realista da modernidade, onde o 
conhecimento objetivo é puramente literário. Clifford é simpático à idéia de um texto com 
muitas vozes, mas acaba tendo que reconhecer que mesmo como polifonia, a etnografia é um 


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texto de autoria de um determinado antropólogo e a antropologia, portanto, uma 
ciência/disciplina que faz parte da tradição do mundo ocidental. 
Os dois ensaios revelam a possibilidade de um mundo melhor, onde poder e 
hierarquia deveriam ser minimizados e repensados criticamente. Evocam um horizonte que 
está além de toda a dominação, onde ninguém tem o poder de dar feição à estrutura final das 
histórias contadas coletivamente, nas quais todas as vozes devem ser igualmente ouvidas e 
consideradas. Segundo Trajano Filho:
Denunciando o poder e a dominação, eles pregam uma democracia 
que, em certos momentos, chega a negar o poder, ficando, assim, 
muito semelhante ao modo pastoral que no livro é contestado. 
(TRAJANO FILHO, 1988, p. 143).
Assim, fica evidente o caráter subjetivista que constitui o pensamento dos 
autores deste grupo. 
Já o terceiro grupo de autores que publicaram no Writing Culture, para Trajano 
Filho (1988) têm como representantes mais significativos George Marcus (1991) com seu 
artigo Problemas de la etnografia contemporánea en el mundo moderno, e Michael Fischer 
(1991), com El etnicismo y las artes potmodernas de la memoria. Os autores abordam o 
exame de forças concretas e existentes em etnografia e a autoridade da ciência em um mundo 
globalizado. 
Em seu artigo, Fischer analisa uma série de autobiografias étnicas, descobrindo 
nelas modos pelos quais a prática etnográfica poderia ser revitalizada. O autor revela cinco 
estratégias culturais - transferência, trabalho com sonhos, bifocalidades, interferência e humor 
irônico - usadas como lições para a escrita e a leitura etnográfica. 
Marcus (1986) procura, no corpo do texto, mostrar como os etnográfos de 
inclinação interpretativa podem articular o "[...]domínio micro dos significados culturais com 
o domínio macro dos sistemas sociais abrangentes e impessoais." 
(p. 236, grifo do autor). 
Assim, discute em detalhes, dois modos de construir o texto, de modo a articular o local com o 
sistema social mais abrangente. A longa discussão desses dois modo de construção do texto 
etnográfico, serve para demostrar como existe um desafio em articular a vida dos sujeitos com 


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a natureza do mundo e da economia política que tem na forma do ensaio moderno sua solução 
mais eficaz. Isto porque o ensaio é uma forma que "[...] se recusa a impor ordem, pela  
 O quarto grupo do  Writing Culture, é representado por Talad Asad e Paul 
escrita, num mundo cuja essência é ser fragmentada."
(MARCUS, 1991, p. 247, grifo do 
autor).Rabinow que discutem uma nova temática da relação entre o poder, a dominação e a 
política. Asad (1991) El concepto de la tradicción cultural en la antropologia social britanica, 
questiona as metáforas de tradução do texto para a antropologia e cultura, respectivamente, 
como modelos gerados e totalmente envolvidos nas situações e relações de dominação em 
escala global. 
Seu argumento central é que o capitalismo é também transformador de 
formas de saber, de estilos de vida locais e, com estes, de formas de 
linguagem. Daí, segue-se que existe uma desigualdade de poder entre 
os idiomas falados no mundo. Este poder transformador é de tal 
maneira vasto e se entremeia nas convenções lingüisticas da disciplina 
com tamanha forma que resiste até mesmo aos experimentos 
individuais realizados na feitura das etnografias. (TRAJANO FILHO, 
1988, p. 145).
Rabinow (1991) Las representaciones son hechos sociais: modernidade y 
postmodernidad en la antropología
, examina a tendência de pensar a etnografia como texto e 
as estratégias, neste caso, adotadas. Discute a questão da autoridade etnográfica, o surgimento 
de uma meta-antropologia e os conceitos de dialogia e polifonia. Rabinow relaciona esta nova 
tendência ao surgimento de uma crise de representação e com a emergência de uma cultura 
pós-moderna. O autor descarta qualquer tentativa de compreender o fazer etnográfico clássico-
realista ou experimental pós-moderno, somente pela via da reflexão teórico epistemológico. O 
ensaio de Rabinow constitui um dos mais ricos do livro Writing Culture, tentando buscar uma 
sugestão de uma nova abordagem para o tema que constitui o livro:
Portanto, a questão da autoridade etnográfica é examinada, no decorrer de 
Wrinting Culture, 
com o intuito de mostrar os limites de um fazer e um saber que se pretende 
objetivo. Os ensaios de Crapanzano e Clifford chegam a afirmar a parcialidade da verdade na 
antropologia e o caráter de ficção das etnografias construídas 


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