Etnografia e seus sujeitos



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adm, R.I.C.-2004-7
Revista de Iniciação Científica da FFC, v.4, n.1, 2004.
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S
e o período de 1920 a 1945 assiste à uma expansão dos territórios colonizados, 
a época entre 1945 a 1960, corresponde ao início e depois a realização da descolonização, o 
que não deixa de ser traduzido por diversas pesquisas antropológicas. Contudo, as 
independências meramente formais decepcionaram: o imperialismo sucedeu ao colonialismo. 
Nunca a dependência econômica foi tão forte e alienante. 
Com o aparecimento da crise da ciência no mundo moderno, anunciada já na 
metade de nosso século, com a segunda guerra mundial, instala-se na antropologia o debate 
acerca de seus novos paradigmas: o que é a antropologia à luz dos novos questionamentos? 
Qual é o objeto de estudo da antropologia, já que as sociedades indígenas pareciam estar se 
extinguindo?
5
Qual o critério de cientificidade na antropologia, imposto pelas novas 
transformações científicas culturais? 
O problema se agrava quando tentamos estabelecer um novo status para noções 
até então monolíticas como a ciência, a natureza. É neste contexto que se instala a crise dos 
novos paradigmas na antropologia; uns prometendo a reformulação radical da própria natureza 
da científicidade como alguns autores pós-modernos e, outros, procurando adequar o edifício 
epistemológico da ciência às novas bases em gestação como os hermenêutas
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e outras 
correntes fenomenológicas
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É dentro deste contexto, a partir dos anos setenta que se instala uma nova corrente 
teórica denominada antropologia interpretativa – mais tarde hermenêutica - propondo novos 
referenciais para a disciplina. Assim, para estes autores
8
, cabe a antropologia não mais a busca 
de leis universais para o gênero humano, mas sim a interpretação das culturas existentes, a sua 
compreensibilidade por nós através de sua tradução
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. Ou seja, o critério de cientificidade deve 
residir na estruturação lógica da pesquisa, na compreensão do fenômeno estudado e não mais 
em uma neutralidade e objetividade absolutas do conhecimento. 
Recentemente, nos anos oitenta e noventa, e depois de alguns anos em que não se 
pode falar de nenhum paradigma dominante na antropologia, a disciplina tem sido 
5
Consultar o hoje clássico texto de Lévi-Strauss (1960), onde o autor teoriza uma possível crise da antropologia 
frente a extinção de seus objetos privilegiados de estudos, as sociedades indígenas. 
6
Podemos dizer que um dos maiores representantes norte americano é Clifford Geertz. 
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Gianni Vattino, um dos filósofos contemporâneas ligados à hermenêutica italiana e à ontologia existencial, e 
tem como mentores Nietzsche e Heidegger 
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Principalmete Geertz, em sua publicação, hoje já clássica: A interpretação das culturas (1973). 


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influenciada, nas palavras de Reynoso (1991), por uma moda intelectual que corresponde a 
premissas do que vem a ser pós-moderno. O debate é orientado na linha que conduz a 
multiplicidade de interpretações. 
Nas décadas de sessenta e setenta, como nos aponta Roque de Barros Laraia 
(1992), a antropologia possuía várias teorias que giram em torno da tarefa de reconstrução do 
conceito de cultura
10
. Assim para Kessing (apud LARAIA, 1986), as teorias dividem-se em: 
considerando a cultura como sistema adaptativo, tendo como representante Leslie White, 
Shalins, Harris, Carneiro, Rapparport, Vayda e outros. Em segundo, encontram-se as teorias 
idealista de cultura
, que se subdividem em três abordagens. São elas: a cultura como sistema 
cognitivo
, que podemos citar, como exemplo, o antropólogo Goodenough; a cultura como 
sistema estrutural
, tendo Lévi-Strauss, como seu representante; e a cultura como sistema 
simbólico
, posição desenvolvida por dois antropólogos, Clifford Geertz e David Scheider, nos 
Estados Unidos.
Em certos âmbitos da antropologia interpretativa é inquestionável, por exemplo, a 
influência da teoria crítica da Escola de Frankfurt, da filosofia de Nietzsche, da semiótica de 
Charles Sanders Peirce e do romantismo alemão, principalmente Willian Dilthey e Max 
Weber, através de seus método compreensivo. 
Assim, propõe-se uma série de novas alternativas para a antropologia: dialogia, 
polifonia, evocação
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. Tais alternativas, bem como as tendências que as propõem, de um modo 
geral, estão presentes no volume Writing Culture, editado por James Clifford e George 
Marcus em 1986. Trata-se de uma coletânea de ensaios apresentados originalmente num 
seminário na Escola de Investigação Americana de Santa Fé, Nuevo México em 1984, cujo 
tema central gira em torno da redação do texto antropológico, da autoridade etnográfica e da 
relação entre pesquisadores e seus pesquisados.
Segundo Reynoso (1991), é no fervilhamento dos acontecimentos históricos e, 
principalmente no advento da sociedade pós-industrial
12
, que a sociedade ocidental parece 
estar caminhando para uma grande transformação histórica, caracterizando um desgastamento 
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Esta concepção nos remete a defesa que faz Evans-Ptrichard (1950) da antropologia como tradução para a nossa 
cultura, da cultura daqueles que são nossos sujeitos de pesquisa.
10
Laraia utiliza o esquema elaborado por Roger Kessing em Theories of Culture (1974). 
11
Ver Denis Tedlock (1986), A tradição analógica e o surgimento de uma antropologia dialógica . 
12
Ou pós-estruturalismo, expressão de Frank Lentricchia (REYNOSO, 1991). 


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rápido das relações sociais. A fonte deste cataclisma inclui o racionalismo científico, as 
tecnologias, além de vários outros aspectos presentes em nossa cultura. Uma de suas 
transformações básicas é a burocratização crescente da ciência e da especialização do trabalho 
intelectual em parcelas cada vez mais microscópicas. E como conseqüência desse complexo 
processo histórico, dessas transformações, sociais, econômicas e de perspectivas filosóficas, 
que a antropologia americana pós-moderna desenvolveu-se (BELL, 1976)
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