Etnografia e seus sujeitos


A constituição do conhecimento antropológico



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adm, R.I.C.-2004-7
A constituição do conhecimento antropológico 
 
Como toda construção intelectual, a antropologia permanece ligada às condições 
históricas de sua instauração e de suas manifestações, isto é, aos meios teóricos e práticos que 
a transformou no que é atualmente, buscando, assim, compreender o papel do pesquisador e 
de seus sujeitos de pesquisa no texto e no trabalho de campo. Não há dúvida de que esta 
disciplina desenvolveu-se ao mesmo tempo em que se efetuava a expansão colonial européia e 
que se estendeu a uma porção cada vez mais vasta das terras habitadas. Vejamos como se deu 
este processo na antropologia. 
O período de 1860 a 1920 coincide com a fase de conquista colonial por parte do 
mundo Europeu e o advento da antropologia como estudo sobre o outro.
Já no próprio projeto de constituição de um saber mais sistemático sobre o 
homem, delineia-se como seu principal eixo uma compreensão da natureza e da cultura que 
eram o próprio fundamento epistemológico de sua cientificidade. Assim, durante um longo 
espaço de tempo, que compreende até os dias atuais, quase todas as suas variantes teóricas 
como, por exemplo, o evolucionismo, o funcionalismo, o estruturalismo, comprometeram-se 
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Renato Rosaldo, Michel FischerTalad Asad, Vicent Crapanzano, James Clifford, Georg Marcus e Stephen 
Tyler e outros. 
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Segundo Rubim (1999, p. 121), "[...] o niilismo antropológico é o desenvolvimento perverso do relativismo 
cultural como históricamente desenvolvido pela antropologia. Isto é, a perda absoluta de qualquer referência 
cultural de verdade". 


Revista de Iniciação Científica da FFC, v.4, n.1, 2004.
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com um saber sobre o outro vinculado às leis científicas que estabeleciam uma natureza una e 
hegemônica para todos os seres humanos, em contrapartida a constatação visível de culturas
em constante transformação. 
A natureza, entidade metafísica herdada da filosofia clássica, manifestava-se em 
nossa substância comum; enquanto que a cultura, ou as culturas no plural, já que o homem é 
essencialmente um animal fabricante de cultura, representa nossa pluralidade de línguas e a 
fragmentação do gênero humano. 
O período seguinte, é considerado um momento transformador do fazer 
antropológico através da observação participante, ou seja, o estabelecimento de uma distância 
entre o antropólogo e sua cultura e a cultura do grupo estudado. Esse distanciamento, que não 
é conseqüência completamente desavisada ou aleatória do processo da construção do 
conhecimento antropológico, está na base do surgimento de um novo contexto, diferente do 
evolucionismo presente no período anterior, pela construção de um conhecimento que surgiu 
pelo estabelecimento de uma relação especifica, não somente entre o pesquisador e seu objeto
mas também entre estes e o leitor. 
O início da década de vinte, coincide teoricamente com a influência do 
pensamento funcionalista de Émile Durkheim sobre a antropologia social inglesa. No mesmo 
ano de 1922, temos a publicação de Radicliffe-Brown com Os Ilhéus em Andanaman (1922) 
e, em 1925, O ensaio sobre o dom de Marcel Mauss. Assim, o conhecimento, pretensamente 
neutro do objeto etnográfico, substitui a construção especulativa das origens da família, do 
estado, da religião, da cultura como era praticado pelos chamados antropólogos de gabinete no 
evolucionismo.
Tomemos como referencia o funcionalismo tal com foi desenvolvido no 
estudo das sociedades tribais. A análise antropológica consiste em construir
sistemas a partir de uma realidade que aparece, de início, como fragmentada. 
A aparência fragmentada e destituída de significação decorre da exterioridade 
do observador e a construção de sistemas coerentes pela antropologia deve 
corresponder a uma integração real, constantemente realizada pelos membros 
da sociedade portadores da cultura, através de processos que são, o mais das 
vezes, inconscientes. Esse tipo de investigação pressupõe uma noção de 
totalidade integrada cuja reconstrução é objetivo último do pesquisador. 
(DURHAM, 1988, p. 21). 



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