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TEXTOS DE APOIO:

JANELAS DA LIBERDADE

Helena C. L. Brandão – Revista de História da Biblioteca Nacional



“Muitas pessoas que observam as bonecas namoradeiras nas varandas de alguns edifícios residenciais não imaginam que tais peças decorativas guardam o registro de um tempo em que as mulheres dependiam quase exclusivamente desse ambiente para ter contato com a rua. Este espaço da residência já foi importante para a socialização feminina no Rio de Janeiro e em muito contribuiu para sua liberação. No entanto, diante da liberdade que as mulheres desfrutam nos dias de hoje e do papel que desempenham na sociedade contemporânea, este passado pode parecer distante. 

No período colonial, a supremacia do homem era garantida por lei. Assim como a terra e os escravos, as mulheres eram consideradas uma propriedade. Uma das únicas maneiras que elas tinham de se colocar em sociedade era pelo casamento. Do domínio do pai, a mulher passava ao domínio do cônjuge, e, na ausência destes, passava a ser “administrada” por um tutor do sexo masculino: irmão mais velho, filhos ou qualquer outro indivíduo encarregado legalmente deste papel. A opção para aquelas que não se casavam era o convento. Sendo assim, a mulher acabava se comprometendo, fosse com homem ou fosse com Deus, e, subjugada ao sexo masculino, ficava confinada.

A historiografia dos dias de hoje reconhece a existência de mulheres até provedoras de seus lares, mas era raro e não oficial, isto é, não bem-visto pela sociedade. As varandas acabaram se tornando o único ambiente em que tinham contato com o mundo exterior, já que as saídas femininas se limitavam, na maioria das vezes, a idas até a igreja.  Somente no final do século XIX as mulheres começaram a frequentar a rua para fazer suas compras, atividade que passou então a ser vista também como lazer. 

Quando surgiram os primeiros núcleos urbanos, as mulheres se inteiravam dos acontecimentos através das frestas das varandas, muitas cobertas de muxarabiê (tipo de treliça de madeira colocada nas janelas). Aliás, as mulheres brancas, pois as negras circulavam pelas ruas, eram consideradas peças e não pessoas, e as índias, selvagens. Mas estas galerias mouriscas – como eram chamadas – também serviam para escondê-las no espaço doméstico, protegendo-as dos olhares de quem passasse. O comércio de produtos era feito em domicílio, e era possível abastecer os lares pelas rótulas (grades de ripas) das janelas das casas térreas ou das varandas dos sobrados.

Com a mudança da corte portuguesa para o Brasil no início do século XIX, a contribuição da varanda para as práticas sociais da mulher se tornou ainda mais intensa. Esta mudança está ligada às novas formas que este espaço adquiriu. Em 1809, D. João mandou tirar os muxarabiês que fechavam as varandas por serem de origem moura e envergonharem a Coroa ao lembrarem os tempos em que Portugal ficou submetido ao domínio árabe. As varandas com guarda-corpo – estrutura metálica que evita quedas – de ferro dos sobrados oitocentistas passaram a ser denominadas sacadas ou balcões. 

Com a saída dos muxarabiês de cena durante o Primeiro Reinado – o que contribuiu para a comercialização do vidro pelos ingleses –, as varandas, e posteriormente as sacadas, passaram a ser não apenas num posto de vigília, mas também de exposição. A mulher passava a poder ser vista. Essa transformação aparentemente pequena provocou mudanças nos costumes que só ocorreriam mais tarde, do final do século XIX ao início do XX, quando ela passa a frequentar livremente o espaço público. Segundo Gilberto Freyre no livro Sobrados e mucambos, a varanda e o caramanchão marcaram vitórias da mulher sobre o ciúme sexual do homem e “uma das transigências do sistema patriarcal com a cidade antipatriarcal”.

Mas os novos hábitos de exposição feminina, incentivados pela ausência dos muxarabiês, não foram assimilados imediatamente pela população. Foi preciso que a Câmara Municipal do Rio de Janeiro, na época de D. Pedro I, transformasse a ordem do príncipe regente em lei para que ela fosse cumprida.  Diante da mentalidade moura remanescente – deixar as mulheres reclusas atrás dos muxarabiês ou das burcas –, as mulheres que ficavam nas varandas eram mal faladas, sendo chamadas de janeleiras, namoradeiras ou até de rameiras. 

Até então, a presença feminina nas sacadas se restringia aos festejos públicos, nas procissões ou nos cortejos em homenagem à família real, quando as casas se abriam através das sacadas decoradas, onde os moradores se colocavam para participar das comemorações. Nesses poucos momentos, os rapazes aproveitavam para cortejar as moçoilas com a prática do “namoro do bufarinheiro” ou do “namoro do escarrinho”. No primeiro caso, os homens se comportavam como se fossem bufarinheiros, isto é, vendedores ambulantes, a anunciar seus produtos. No segundo, os jovens ficavam embaixo das janelas das moças que lhes interessavam, fungando, assoando o nariz e até dando cuspidelas. Se a mulher fazia o mesmo, queria dizer que a declaração havia sido correspondida.   

A socialização promovida pela varanda entre a mulher e os rapazes que passavam na rua rendeu a este espaço a fama de ser um local inapropriado para as donzelas. Um preconceito que só começou a ser desfeito com as mudanças no modo de vida que alteraram a ideia de submissão do “sexo frágil”. A educação e a inserção das mulheres no mercado de trabalho ajudaram-nas a cruzar a fronteira entre a casa e a rua. Ao frequentar livremente o espaço público, antes exclusivo dos homens, o sexo feminino vai desfrutar de diversas formas de socialização. Somente a partir da segunda metade do século XX é que a varanda deixa de lado sua “má reputação”. 

A liberação da mulher já não é mais tão recente, mas a contribuição da varanda dentro deste processo não foi esquecida. Sua importância como cenário de encontros amorosos está registrada em gravuras de época, nos romances e até na música popular brasileira. Um exemplo são os versos de Chico Buarque em “Flor de Idade”, de 1975: “A gente faz hora, faz fila na vila do meio-dia / pra ver Maria/ a gente almoça e só se coça e se roça e só se vicia/a porta dela não tem tramela a janela é sem gelosia/ nem desconfia/ ai, a primeira festa, a primeira fresta, o primeiro amor”.

Tendo chegado em terras brasileiras como adaptação da arquitetura portuguesa ao clima tropical, a varanda faz muito mais do que diminuir o impacto do calor dentro das moradias. São basicamente três as suas funções: serve como espaço de transição entre a casa e a rua, de socialização – isto é, de convívio e de lazer da família e desta com quem passa na rua – e de integração com o meio ambiente, funcionando para a contemplação da paisagem e para o contato com a natureza. Marco da história da arquitetura doméstica do Rio de Janeiro, ela expressa hábitos de moradia do carioca e seu comportamento cultural. 

Hoje, a varanda resguarda a família dos distúrbios vindos da rua, protege a privacidade da casa, comprometida pela proximidade entre as construções, e também é utilizada como camarote em muitas festas públicas. Além disso, ainda é considerada um dos principais atrativos de imóveis na cidade, tendo se tornado sinônimo de status. A presença maciça de varandas em grande parte dos lançamentos imobiliários no Rio de Janeiro demonstra a relação estreita com o modo de vida da população. Além disso, ela valoriza o imóvel ao conferir maior qualidade ao espaço arquitetônico. Não é à toa que, nos últimos anos, diversos prédios antigos em diferentes regiões da cidade do Rio vêm acrescentando varandas em suas fachadas. Assim como o samba e a praia, a varanda já faz parte da tradição carioca.”




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