Esta pesquisa pretendeu fazer uma análise dos processos de trabalho dos Agentes Comunitários


A Ergologia: introduzindo conceitos



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A Ergologia: introduzindo conceitos

Para Schwartz e Durrive (2007), a Ergologia se mos-

tra como um projeto de melhor conhecer, e, sobretu-

do intervir nas situações de trabalho com o objetivo 

de transformá-las. Segundo eles, a perspectiva e o 

olhar da Ergologia buscam fazer um constante vai-

vém entre o macro e o micro. O macro que é geral e 

prescrito pela sociedade – portanto, histórico –  e o 

micro é infinitamente singular e, se passa no dia a 

dia de cada atividade de trabalho. A isso eles chama-

ram de aprendizagem permanente dos debates de 

normas e de valores que renovam indefinidamente 

a atividade: é o “desconforto intelectual” diante da 

fragilidade que o saber do especialista representa 

para dar conta da complexidade do trabalho em ativi-

dade. O princípio das normas antecedentes engloba 

e amplia o conceito de trabalho prescrito de origem 

na Ergonomia da Atividade (Alvarez e Telles, 2004). 

Tais normas são tudo aquilo que encaminha uma 

ação a uma direção concebida a priori (daí antece-

dentes). Schwartz (1995) aponta três aspectos que 

demonstram o caráter híbrido da noção de normas 

antecedentes: contemplam “restrições de execução 

hétero determinadas”, compreendem construções 

históricas e são inseparáveis dos valores.

No que diz respeito ao primeiro aspecto das 

normas antecedentes que reitera seu caráter híbri-

do, há imposições do meio que frequentemente são 

identificadas como algo negativo, algo a ser evitado, 

o prescrito é, às vezes “assimilado à expressão de 

um dogmatismo científico amparado por um poder 

social” (Schwartz, 1995, p. 20). No entanto, o autor 

ressalta que o prescrito, ou melhor, as normas ante-

cedentes, desempenham um papel fundamental na 

atividade de trabalho, uma vez que são responsáveis 

pela determinação dos parâmetros elementares e 

necessários para que o trabalho ocorra. Um segundo 

aspecto dessas normas antecedentes diz respeito à 

compreensão das normas antecedentes como cons-

truções históricas.



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Schwartz e Durrive (2007) afirmam que a di-

mensão prescrita é o resultado de um patrimônio 

conceitual, científico e cultural. Neste patrimônio, 

podemos identificar, dentre outros, “o nível técnico-

-científico atingido e a história sempre particular 

que conduziu a este nível, os saberes-fazer histori-

camente constituídos, as linguagens que os forma-

lizam e que permitem sua expressão, os modos de 

vida que estruturam as relações ao tempo, ao espaço, 

à comunidade, etc.” (Schwartz, 1995, p. 20).

Sendo o terceiro aspecto das normas anteceden-

tes ligado aos valores que elas portam e que per-

meiam a organização do trabalho nas instituições 

e suas relações com o ambiente (Schwartz, 1995). O 

autor defende que normas são essenciais, mas, o que 

devemos analisar é que essas normas desempenham 

um papel que não é suficiente para a execução do 

trabalho, e aí entram os saberes da experiência do 

trabalhador. Este desempenha cada atividade de 

trabalho de forma diferenciada no plano do real.

Assim, podemos dizer que as normas anteceden-

tes são constituídas por “aquisições da inteligência 

e da experiência coletiva – portanto mais ou menos 

recebidas como bens ‘de todos’” (Schwartz, 1995, p. 

20). Este patrimônio, verdadeira matéria-prima das 

situações de trabalho, é influenciado por escolhas 

socioeconômicas, que se representam sob a forma 

de objetivos, de decisões a respeito das condições 

e meios a serem empregados, além de dispositivos 

hierárquicos, de procedimentos de avaliação, entre 

outros.

Desta forma, as normas antecedentes possuem 

dimensão mais ampla se comparada à noção de 

trabalho prescrito. As normas antecedentes são 

permeadas por valores, cultura e ciência, em âmbito 

coletivo, social. Indo além, elas também contemplam 

os meios físicos (materiais e equipamentos) para 

desenvolver as atividades. 

A partir da noção de valor, fica mais apreensível 

a seguinte colocação: “a atividade industriosa, como 

toda a atividade humana, contém uma arbitragem 

e por isto está relacionada a valores” (Schwartz, 

2004a, p.148). A importância dessa noção para a 

análise ergológica reside na pluralidade dos valores 

e como eles ajudarão a modificar, ou não, a norma 

antecedente. A renormalização das normas antece-

dentes se dá quando há um desencontro entre aque-

les valores que permeiam os valores da organização, 

a norma antecedente e os valores dos trabalhadores.

Para Schwartz e Durrive (2007), os valores atra-

vessam o micro da atividade, assim como atraves-

sam toda a sociedade. E é somente através do fazer 

que se tem acesso aos valores que cada trabalhador 

engaja no trabalho. São esses valores que farão com 

que o indivíduo enquanto trabalhador opte por de-

terminada conduta; como a atividade de trabalho é 

repleta de escolhas, esses valores são constantemen-

te requisitados. Assim, a análise da atividade está 

diretamente relacionada aos valores, e compreender 

a razão pela qual se optou por determinada conduta 

é o desafio a que a Ergologia se propõe (Schwartz, 

2004a).


Esse caráter híbrido das normas antecedentes, 

conforme descrito, influencia para que ocorra 

sempre uma reinvenção local, de forma que “toda a 

atividade de trabalho é sempre mais ou menos uma 

‘dramática do uso de si’, tomada entre essas normas 

antecedentes e a necessidade de se dar a si mesmo 

normas, aí onde as primeiras estão ‘inacabadas’” 

(Schwartz, 2003, p. 5).

Esta última citação nos remete a outro conceito 

da Ergologia e de grande importância para este tra-

balho, definido pelo autor como dramática do uso de 

si. O termo “dramática” remete à ideia de drama, pois 

toda escolha feita pelos trabalhadores quando da 

realização de cada atividade de trabalho é como um 

drama, onde ali se apresenta um verdadeiro embate 

de normas e valores “escolhidos” pelo trabalhador 

(Schwartz e Durrive, 2007).

A ergologia concebe esses “usos de si” de duas 

formas: o uso de si por si e o uso de si pelos outros. O 

uso de si pelos outros é o uso que trata do indivíduo 

imerso nas normas sócio-econômico-produtivas e 

nas instruções operacionais preconcebidas e plane-

jadas por outros (Schwartz, 2000). O uso de si por si 

é aquele uso que cada um faz de si mesmo em suas 

escolhas. Cada trabalhador se posiciona de uma ma-

neira entre esses dois usos, e, entender as forças que 

os levam a ocupar esse lugar-não-lugar-entre-lugar 

é também um desafio a que a Ergologia se propõe. 

Logo, “o uso de si por si é o uso do seu corpo, da sua 

inteligência, da sua história, da sua sensibilidade, 

dos seus gostos” (Schwartz e Durrive, 2007, p. 70).

Se as normas não antecipam tudo, então traba-

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lhar é fazer escolhas, é arriscar, é fazer uso de si em 

função de coletivos não impostos. Dessa forma, po-

demos afirmar que não existe meramente execução, 

e sim uso: toda atividade, todo trabalho é sempre uso 

– uso de si por si, uso de si pelos outros. Reafirmando, 

o uso de si por si mesmo é a convocação que cada 

trabalhador faz para julgar, pensar e interpretar 

as normas que lhes são colocadas, sendo sempre 

objeto de debates e confrontos por parte de cada ser 

humano, recriando-as, normalizando-as de novo, 

criando novas normas que produzem condições de 

vida (Rosa, 2001; Durrive, 2011). 

E a renormalização, quando aparece? Visto como 

o processo de retrabalho das normas antecedentes 

que acontece em todas as situações de trabalho, le-

vando-se em consideração as variabilidades do meio, 

os trabalhadores devem sempre arbitrar e encontrar 

os meios para atingir (e às vezes para não atingir) os 

objetivos fixados. Ou seja, as normas antecedentes, 

jamais são suficientes para “dar conta” da situação 

presente, são retrabalhadas, ou colocadas à prova 

por um ser vivente, em busca de reconstruir seu 

meio em função do complexo de valores que local e 

singularmente é o seu (Schwartz, 1998, 2000, 2004a; 

Schwartz e Durrive, 2007).

Ainda relativo à renormalização, Schwartz 

(2000) critica a visão “rasa” da relação homem-

-trabalho, na qual ela termina por negar a capacidade 

do sujeito de renormalizar não apenas sua atividade

mas todos os aspectos do meio que lhe impõem de-

terminada coerção. O autor prossegue combatendo 

a homogeneização dos sujeitos, que ocorre por meio 

dos infinitos “modelos” que tentam circunscrever 

uma massa uniforme de trabalhadores inertes. 

Nesse sentido, se a norma que é imprescindível para 

a realização do trabalho está do lado do prescrito 

(tarefa), a renormalização está do lado da atividade 

(Schwartz e Durrive. 2007).

O trabalho nunca é pura execução, pois o meio 

no qual é possível a sua realização é sempre infiel 

(Schwartz e Durrive, 2007). Ele jamais se repete exa-

tamente de um dia para o outro ou de uma situação 

de trabalho para outra. Logo, gerir essa infidelidade, 

onde há um “vazio de normas” é que demanda o “uso 

de si”. Cada trabalhador tenta lidar com essa lacuna 

descrita à sua forma, com sua própria história, seus 

valores, uma vez que ele também não pode fazê-lo 

de forma padronizada. Dessa maneira, contribui 

para singularizar ainda mais o meio, acentuando 

sua variabilidade. 

Diante do exposto, normas antecedentes, valor, 

dramáticas do uso de si e renormalização são con-

ceitos que envolvem princípios fundamentais que 

a Ergologia propõe, estando estreitamente ligados 

uns aos outros e cuja compreensão nos auxilia a 

entender que trabalho é sempre gestão e escolha.






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