Esta pesquisa pretendeu fazer uma análise dos processos de trabalho dos Agentes Comunitários


Outras renormalizações, dramáticas do uso de si



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Outras renormalizações, dramáticas do uso de si 

e a gestão do trabalho

As renormalizações, escolhas e dramáticas dos usos 

de si nas atividades de trabalho das ACS da USF Ilha 

das Caieiras estão presentes em relatos anteriores, 

dada a dificuldade de se formalizar uma análise do 

trabalho destes profissionais sob o ponto de vista da 

atividade sem fazer emergir o “coengendramento” 

entre as normas antecedentes e o que as escapa no 

trabalho “vivo e em atividade” das ACS, ou seja, na 

gestão do seu trabalho no dia a dia. Algumas passa-

gens que serão descritas retratam os desafios e as 

demandas dos ACS. Acompanhamos uma situação 

interessante a qual demanda usos de si na gestão 

do trabalho das ACS nesta USF. Trata-se do manu-

seio de medicamentos no caso de usuários idosos 

que não conseguem ler os nomes dos remédios e 

as receitas dos médicos, ou dos pacientes que não 

sabem ler – que são em número significativo no local 

escolhido para investigação. As ACS desenvolveram 

em conjunto uma estratégia singular para lidar com 

essa situação. Numa tentativa de garantir que os 

usuários utilizem os medicamentos corretos e nos 

horários prescritos pelos médicos, elas agiram con-

forme Durrive (2011, p.3), participando “ativamente 

Saúde Soc. São Paulo, v.22, n.2, p.389-402, 2013  

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a serviço de uns pelos outros”. As agentes monta-

ram pequenas caixinhas com tampas nas quais 

os medicamentos para cada usuário que demanda 

tais cuidados especiais são depositados. Na tampa 

da caixa, é colado um papel com as divisões do dia 

que indicam as refeições ou não, no caso de jejum. 

Cada fração do dia é indicada por uma figura que 

melhor a simboliza. Por exemplo, o café da manhã 

é simbolizado por uma xícara de café e pão, etc. Tais 

frações do dia são coloridas, cada uma com uma cor 

diferente, indicando que aquele medicamento deve 

ser tomado naquele horário. Ilustrando a situação, 

se um paciente deve tomar um medicamento no 

almoço e no jantar e a figura do almoço foi colorida 

em vermelho e a do jantar em verde, as cartelas do 

respectivo medicamento levam um pequeno pedaço 

de fita adesiva vermelha e outro pequeno pedaço de 

fita adesiva verde.

Essa estratégia foi cuidadosamente desenvolvida 

e personalizada para cada usuário que demanda 

cuidados especiais e dificuldades na administração 

de medicamentos. Segundo a ACS A, “antes os pa-



cientes tomavam muitos remédios errados, [...] por 

isso muitos não apresentavam melhoras e outros 

pioravam o estado de saúde”. E, complementa uma 

farmacêutica “isso também acontece porque muda 



muito o nome e a cor dos remédios que o SUS man-

da, num mês o remédio para pressão tem um nome 

e as pílulas são azuis, no outro mês [...] tem outro 

nome e as pílulas são amarelas; confunde muito os 

pacientes”. Mas todos são unânimes em afirmar que 

após a estratégia da utilização das caixinhas com 

desenhos coloridos acompanhadas de fitas adesivas 

nas cartelas de medicamentos, os problemas de 

posologia indevida diminuíram. 

Esse relato ressalta usos de si por si feito pelas 

ACS na busca da estratégia de solução do problema 

para lidar com a prescrição para não alfabetizados, 

além de tornar evidente o espaço para autonomia de 

decisão desses profissionais lá onde os eventos e o 

não antecipável ocorrem e, a renormalização cole-

tiva no modo de ação a que são lançadas diante das 

variabilidades emergentes nas suas atividades de 

trabalho, quando refletem, engenham e socializam 

o método – o saber fazer – num processo de recriação 

das normas (Schwartz, 1998, 2004c, 2007b; Rosa, 

2001; Terssac e Maggi, 2004; Durrive, 2011).




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