Esta pesquisa pretendeu fazer uma análise dos processos de trabalho dos Agentes Comunitários



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A relação com o território

Se para as ACS da USF Ilha das Caieiras por um 

lado  “é muito bom trabalhar perto de casa, perto 

da família e dos amigos, ver os filhos crescerem [...] 

como lembra a ACS A, por outro “todos sabem quem 



somos, onde moramos; então somos ACS 24h por 

dia [...]. Não desligamos nunca do nosso trabalho” 

pondera ACS B. Uma característica desse trabalho 

aparece bem demarcada, o engajamento involun-

tário na atividade sem delimitação clara de tempo 

dedicado a ela, característica do imaterial nele con-

tido (Amorim, 2009).

Mas essa moeda tem também outros lados. Um 

deles é a restrição para mudança de endereço por 

parte das ACS, que apareceu nesta pesquisa e foi 

abordado por Queirós e Lima (2012). Além disso, 

como lembra a ACS B, “sabemos demais sobre nos-

sa área, sobre o que acontece ali, e sabemos demais 

sobre a vida das pessoas que vivem ali, isso nos dá 

medo e insegurança [...], nos sentimos ameaçadas 

por saber demais”. Acompanhamos algumas situa-

ções que “dão vida” a essa fala, quando “subimos as 

escadarias” para ir até a microárea da parte mais 

alta dos bairros e nos percebemos acompanhadas 

por um homem, o qual se mantendo a uma distância 

mínima que nos permitisse “fazer o nosso trabalho”, 

deixava claro que “ele estava por ali”. Após o retorno 

à USF, conversávamos sobre algumas situações e a 

ACS B afirmou “nós sabemos o que acontece ali, e 

eles sabem que nós sabemos, mas nós fingimos que 

não vimos nada [...], e assim continuamos o nosso 

trabalho”. Nessa mesma microárea, onde ocorreram 

essas passagens aqui relatadas, havia transcorrido 

“um fato” que fez com que a ACS B ficasse por três 

meses sem visitar as residências por proibição de 

alguns moradores. Passagens como estas mostram a 

interferência da territorialidade no trabalho das ACS 

e, a inteligência mobilizada para saber trabalhar em 

tais contextos é aspecto da atividade industriosa 

(Schwartz, 1995). E, como dito por Schwartz (2011, 

p. 8) “todo sujeito, todo grupo humano no trabalho 

é um centro de vida, uma tentativa de apropriação 

do meio, e sua vida no trabalho não é uma cerca 

separada de sua ambição de vida global.” 

São relatos da complexidade do trabalho. Se 

estas complexidades são conhecidas dos gestores 

públicos, também estes devem estar cientes das 



398  

Saúde Soc. São Paulo, v.22, n.2, p.389-402, 2013




renormalizações necessárias, pois ficar três meses 

impedida de realizar o seu trabalho pelas ruas do 

morro somente é possível porque há renormaliza-

ção do trabalho em outras instâncias, superiores

também. Outros profissionais não veem ou fingem 

não ver o que acontece para que a ACS em questão 

possa renormalizar o seu trabalho, tendo em vista 

as dificuldades e variabilidades colocadas pelo meio 

(Schwartz e Durrive, 2007; Durrive, 2011). Ou seja, di-

ferentes facetas da importância da transversalidade 

do trabalho humano permeando os sistemas buro-

cráticos são colocadas em evidência ao se analisar 

situações como essa, que no mínimo dão visibilidade 

a tolerâncias permitidas, porém não prescritas para 

o trabalho dos agentes públicos.






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