Esferas2-parte1-miolo-001-208. pdf



Baixar 32.12 Mb.
Pdf preview
Página255/371
Encontro24.07.2021
Tamanho32.12 Mb.
#16544
1   ...   251   252   253   254   255   256   257   258   ...   371
CAMPOS ESFERAS2-PARTE1-MIOLO-001-208
CAMPOS ESFERAS2-PARTE1-MIOLO-001-208
Capítulo I — Introdução
A ideia de nação e de pátria não existia para os homens de então do mesmo modo que existe para nós. 
O amor cioso da própria autonomia que deriva de uma concepção forte, clara, consciente, do ente coletivo 
era apenas, se era, um sentimento frouxo e confuso para os homens dos séculos XI e XII. Nem nas crôni-
cas, nem nas lendas, nem nos diplomas se encontra um vocábulo que represente o espanhol, o indivíduo 
da raça godo-romana distinto do sarraceno ou mouro. [...] O que falta é a designação simples, precisa, do 
súdito da coroa de Oviedo, Leão e Castela. E por que falta? É porque, em rigor, a entidade faltava social-
mente. Havia-a, mas debaixo de outro aspecto: em relação ao grêmio religioso. Essa sim, que aparece clara 
e distinta. A sociedade cristã era uma, e preenchia até certo ponto o incompleto da sociedade temporal. 
Quando cumpria aplicar uma designação que representasse o habitante da parte da península livre do 
jugo do Islã, só uma havia: christianus. O epíteto que indicava a crença representava a nacionalidade. E 
assim cada catedral, cada paróquia, cada mosteiro, cada simples ascetério era um anel da cadeia moral 
que ligava o todo, na falta de um forte nexo político.
Tais eram os caracteres proeminentes da vida externa da monarquia neogótica. [...]
O que se passava em Portugal era em resumido teatro o que pouco antes se passara em Leão. Ali, os 
amores de D. Urraca com o conde Pedro de Lara tinham favorecido as ambiciosas pretensões de Afonso 
Raimundes, concitando contra ela os ódios dos barões leonenses e castelhanos. Aqui, os amores de D. The-
resa acenderam ainda mais os ânimos e trouxeram uma revolução formal.
Se na batalha do campo de S. Mamede, em que Afonso Henriques arrancou definitivamente o poder das 
mãos de sua mãe, ou antes das do conde de Trava, a sorte das armas lhe houvera sido adversa, constituiría-
mos provavelmente hoje uma província de Espanha. Mas no progresso 
da civilização humana tínhamos uma missão a cumprir. Era necessário 
que no último ocidente da Europa surgisse um povo, cheio de atividade 
e vigor, para cuja ação fosse insuficiente o âmbito da terra pátria, um 
povo de homens de imaginação ardente, apaixonados do incógnito, do 
misterioso, amando balouçar-se no dorso das vagas ou correr por cima 
delas  envoltos  no  temporal,  e  cujos  destinos  eram  conquistar  para  o 
cristianismo e para a civilização três partes do mundo devendo ter em 
recompensa unicamente a glória. E a glória dele é tanto maior quanto 
encerrado na estreiteza de breves limites, sumido no meio dos grandes 
impérios da terra, o seu nome retumbou por todo o globo. 
Pobres, fracos, humilhados, depois dos tão formosos dias de pode-
rio e de renome, que nos resta senão o passado? Lá temos os tesouros 
dos  nossos  afetos  e  contentamentos.  Sejam  as  memórias  da  pátria, 
que tivemos, o anjo de Deus que nos revoque à energia social e aos 
santos afetos da nacionalidade. Que todos aqueles a quem o engenho 
e o estudo habilitam para os graves e profundos trabalhos da história 
se  dediquem  a  ela.  No  meio  de  uma  nação  decadente,  mas  rica  de 
tradições, o mister de recordar o passado é uma espécie de magistra-
tura moral, é uma espécie de sacerdócio. Exercitem-se os que podem 
e sabem; porque não o fazer é um crime. 
Editora Ática
D2_POR_EM_3046_V2_P1eP2_LA_001_368.indb   130
12/8/16   5:34 PM


131
Leitura e literatura
E  a Arte?  Que  a Arte  em  todas  as  suas  formas  externas  represente  este  nobre 
pensamento; que o drama, o poema, o romance sejam sempre um eco das eras poé-
ticas da nossa terra. Que o povo encontre em tudo e por toda a parte o grande vulto 
dos seus antepassados. Ser-lhe-á amarga a comparação. Mas como ao inocentinho 
infante da Jerusalém Libertada, homens da arte, asperge de suave licor a borda da 
taça onde está o remédio que pode salvá-lo. 
Enquanto, porém, não chegam os dias em que o puro e nobre engenho dos que 
então hão de ser homens celebre exclusivamente as solenidades da Arte no altar do 
amor pátrio, alevantemos uma das muitas pedras tombadas dos templos e dos palá-
cios, para que os obreiros robustos que não tardam a surgir digam quando a virem: 
“as mãos que te puseram aí eram débeis, mas o coração que as guiava antevia já 
algum raio da luz que nos alumia”.
HERCULANO, Alexandre. Capítulo 1: introdução. In: ______. O bobo. São Paulo: Ática, 1997. p. 13-20.
1.
  No primeiro trecho, o narrador conta ao leitor algo sobre a época da origem de 
Portugal. 
a) Qual é o fato histórico relatado?
b) Por que ele é importante?
2.
  Alexandre Herculano foi chefe da Torre do Tombo, daí ter grande conhecimen-
to da história de Portugal, especialmente da Idade Média. Como ele retratou a 
vida social e política portuguesa da época medieval?

Baixar 32.12 Mb.

Compartilhe com seus amigos:
1   ...   251   252   253   254   255   256   257   258   ...   371




©historiapt.info 2022
enviar mensagem

    Página principal