Esferas2-parte1-miolo-001-208. pdf


O paralelismo nos textos verbais



Baixar 32.12 Mb.
Pdf preview
Página238/371
Encontro24.07.2021
Tamanho32.12 Mb.
#16544
1   ...   234   235   236   237   238   239   240   241   ...   371
CAMPOS ESFERAS2-PARTE1-MIOLO-001-208
CAMPOS ESFERAS2-PARTE1-MIOLO-001-208
O paralelismo nos textos verbais
No capítulo anterior, vimos que um verbete se constitui de unidades relativamente autônomas; por isso seu 
enunciado não tende a apresentar palavras ou expressões que retomam termos citados e que funcionam como 
elementos de coesão entre as partes. No entanto, o leitor identifi ca um conjunto constituído, do qual necessita 
para fazer escolhas de leitura, possíveis somente pela contraposição simultânea das partes.
Como se faz, então, essa “costura semântica” das partes de um texto?
Para tratar desse assunto, retomaremos um gênero de discurso em que o paralelismo tem um papel impor-
tante: o sermão.
Observe como o padre Antônio Vieira soube explorar esse recurso. Ao ler o fragmento de sermão a seguir, 
lembre -se de que ele foi escrito para ser proferido em um púlpito, em voz alta e tom eloquente, a fi m de con-
vencer os ouvintes a praticar a doutrina católica.
Zenos Frudakis.
Zenos Frudakis. 2001. Escultura em bronze. Filadélfi
 a,
Pensilvânia. EUA. Fotografi
 a: Zenos Frudakis
Photo of Zenos by Rosalie Frudakis
F A Ç A   N O
CADERNO
D2_POR_EM_3046_V2_P1eP2_LA_001_368.indb   118
12/8/16   5:34 PM


119
Língua e linguagem
Sermão da Quarta-Feira de Cinzas
(Proferido pelo Padre Antônio Vieira em Roma, na Igreja de S. Antônio dos Portugueses, no ano de 1672.)
[Jó 10:9] Te lembres de que, como barro, me formaste, e de que ao pó me farás tornar.
Duas coisas prega hoje a Igreja a todos os mortais: ambas grandes, ambas tristes, ambas temero-
sas, ambas certas. Mas uma de tal maneira certa e evidente, que não é necessário entendimento para 
crer; outra de tal maneira certa e dificultosa, que nenhum entendimento basta para a alcançar. Uma 
é presente, outra futura: mas a futura veem-na os olhos: a presente não a alcança o entendimento. 
E que duas coisas enigmáticas são estas? [...] Sois pó, e em pó vos haveis de converter. Sois pó, é a 
presente; em pó vos haveis de converter, é a futura. O pó futuro, o pó em que nos havemos de con-
verter, veem-no os olhos: o pó presente, o pó que somos, nem os olhos o veem, nem o entendimento 
o alcança. Que me diga a Igreja que hei de ser pó: [...] não é necessário fé, nem entendimento para o 
crer. Naquelas sepulturas, ou abertas ou cerradas, o estão vendo os olhos. Que dizem aquelas letras? 
Que cobrem aquelas pedras? As letras dizem pó, as pedras cobrem pó, e tudo o que ali há, é o nada 
que havemos de ser: tudo pó. Vamos, para maior exemplo, e maior horror, a esses sepulcros recentes 
do Vaticano. Se perguntardes de quem são pó aquelas cinzas, responder-vos-ão os epitáfios (que só as 
distinguem): Aquele pó foi Urbano, aquele pó foi Inocêncio, aquele pó foi Alexandre, este que ainda 
não está de todo desfeito, foi Clemente. De sorte que para eu crer, que hei de ser pó, não é necessário 
Fé, nem entendimento, basta a vista. Mas que me diga, e me pregue hoje a mesma Igreja, regra da Fé 
e da verdade, que não só hei de ser pó de futuro, senão que já sou pó de presente [...] Como o pode 
alcançar o entendimento, se os olhos estão vendo o contrário? É possível que estes olhos que veem, 
estes ouvidos que ouvem, esta língua que fala, estas mãos e estes braços que se movem, estes pés que 
andam e pisam, tudo isto, já hoje é pó [...] A Igreja diz-me, e supõe que sou homem: logo não sou pó. 
O homem é uma substância vivente, sensitiva, racional! O pó vive? Não. Pois como é pó o vivente? O 
pó sente? Não. Pois como é pó o sensitivo? O pó entende e discorre? Não. Pois como é pó o racional? 
Enfim, se me concedem que sou homem [...] como me pregam que sou pó [...]?. Nenhuma coisa nos 
podia estar melhor, que não ter resposta nem solução esta dúvida. Mas a resposta e a solução dela 
será a matéria do nosso discurso. Para que eu acerte a declarar esta dificultosa verdade, e todos nós 
saibamos  aproveitar  deste  tão  importante  desengano,  peçamos  àquela  Senhora,  que  só  foi  exceção 
deste pó, se digne de nos alcançar graça. Ave Maria.
VIEIRA, Antônio. Sermão da Quarta-Feira de Cinzas. In: PÉCORA, Alcir (Org.). Sermões: padre Antônio Vieira. São Paulo: Hedra, 2000. p. 55-56.

Baixar 32.12 Mb.

Compartilhe com seus amigos:
1   ...   234   235   236   237   238   239   240   241   ...   371




©historiapt.info 2022
enviar mensagem

    Página principal