Escravidão contemporânea na zona rural brasileira: um reflexo de 300 anos de escravidãO



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EscravidãoContemporâneaZona
3.1 Geração para Geração
Há mais de 300 anos o Brasil foi colônia de exploração e guardou, desse tempo, o 
cultivo da submissão, a permissão de condições de trabalho deploráveis, as diferenças sociais 
e raciais, o abuso de poder e, sobretudo, a falta de cuidado e respeito com a dignidade 
humana.
Durante o período de pesquisa e tabulação dos dados extraídos de trabalhos realizados 
previamente, observou-se que a condição de escravo em diversos casos passa de geração para 
geração, ou seja, avós, filhos, netos e bisnetos condicionados e aprisionados em regime de 
submissão. O principal problema dessa característica do trabalho nas zonas rurais brasileiras é 
a inexistência de uma perspectiva de vida diferente, sendo que quem nasceu no regime de 
escravidão, muitas vezes, desconhece outro modo de viver e acaba prisioneiro não só do seu 
senhor, mas refém de uma algema mental que anula qualquer iniciativa de luta e construção 
de um futuro diferente do vivido por seus antepassados. O trecho a seguir é ilustrativo dessa 
caracterização. 
Não senti nada, né? Temos que trabalhar. Não tem nada que sentir. Vai fazer 
o quê? Não tem outra situação [...] “A gente não tem os direitos”, resume 
José. “Tem gente que pergunta: Você está trabalhando sem registrar [a 
carteira de trabalho]?” Mas o que a gente vai fazer? Eu criei cinco filhos, 
mas toda vida trabalhando pesado, sem ter folga, suando, passando 
necessidade no mato, deixando a família longe por 15 dias, muitas vezes sem 
condição nenhuma. “É por aí”. [...] É uma questão de luta diária para 
garantir o básico, e vem de pai pra filho (REPÓRTER BRASIL, 2010, s/p). 
O acesso à informação poderia prevenir a recorrência dessa realidade de trabalho, mas 
como garantir que a informação chegue a uma pessoa que muitas vezes foi privada do direito 
de possuir um documento de identificação, privada de buscar conhecimento e experiência em 
algo diferente daquilo que ela foi ensinada a acreditar que é trabalho.
3.2 Isolamento
Devido às longas distâncias entre as fazendas e a zona urbana, é criado um isolamento 
geográfico que torna o trabalhador vulnerável à exploração, uma vez que o mesmo 
desconhece o local o qual se encontra e não possui contato algum com pessoas externas à 
propriedade, ficando suscetível a armadilhas. Além do isolamento geográfico, percebe-se que 


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os casos são tratados de forma isolada como se fossem exceções da realidade do trabalhador 
brasileiro, o que dificulta a repercussão desses na mídia e o conhecimento por parte da 
sociedade das diferentes realidades ainda existentes, abrindo brechas para a falta de 
fiscalização e a impunidade, como explícito no trecho a seguir: 
O que nos tem deixado frustrados até agora é a insuficiência gritante do 
processamento de crime de trabalho escravo na esfera penal. Podemos dizer 
que quase todos os casos têm sido processados na esfera trabalhista. Não há 
nem 60 condenações penais. Se compararmos com o número de fazendeiros 
flagrados [explorando trabalhadores em condições análogas à escravidão], 
isso não representa nem 5%. No máximo foram 10% de todos os casos. (R7, 
2012, s/p) 
O isolamento nesses casos deixou de ser apenas geográfico, existe uma distância 
social enorme que por vezes permite que essas pessoas não sejam vistas, não sejam ouvidas, 
não sejam acolhidas pela sociedade, ao ser submetido a um ambiente afastado e de difícil 
acesso, o trabalhador desconhece o que está fora daquele lugar, não tem contato com outras 
pessoas, se torna refém do seu isolamento.

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