Escravidão contemporânea na zona rural brasileira: um reflexo de 300 anos de escravidãO


Escravidão contemporânea como prática de gestão



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1.1 Escravidão contemporânea como prática de gestão 
Os estudos sobre organizações, em sua maioria, vangloriam seu lado bom, criando 
teorias e padrões de comportamento positivos, tratando de forma secundária e, por vezes, 
negligenciando, os absurdos protagonizados por trabalhadores que, devido à necessidade de 
sobrevivência, se tornam vulneráveis perante as organizações. Dessa forma, velam-se os 
erros, os crimes, as ilegalidades e os acidentes que caracterizam um quadro de escravidão 
contemporânea. Para Payne (2012) ao passo que as organizações assumiram protagonismo na 
sociedade contemporânea, questionamentos quanto a sua atuação deram inicio a análise da 
criminalidade corporativa como um fenômeno sociológico complexo e sem respostas. 
As organizações em contextos atuais são passíveis de interpretações diante de suas 
ações. Dessa forma, os crimes corporativos podem estar associados ao seu desempenho
diante da escolha do objetivo, sendo incentivados pela estrutura, processo, cultura e, 
principalmente, os interesses. Não importa quais serão suas consequências, ou os custos 
incorridos pelos crimes, a dignidade humana não estará em pilares semelhantes aos do lucro 
empresarial. Ou seja, a busca por maiores desempenhos leva as organizações a adotarem 
práticas que lesam a sociedade em geral, nessa perspectiva que prioriza o impacto econômico, 
a corrupção aparece como um aliado para as organizações, possibilitando um novo objeto de 
estudo das ações organizacionais corruptas, para Abramo (2005) “se a corrupção é importante 
economicamente, então se torna importante medi-lá”. 
Aspectos como a impunidade, a corrupção, a impotência e o poder concentrado nas 
mãos de quem detêm influência econômica são consequências e oportunidades de 
disseminação e cultivo da escravidão, seja ela por meio da mão de obra barata, sexual ou 
hereditária. Sabe-se que, nos aspectos legais, a escravidão já teve seu fim decretado; no 
entanto, em países como o Brasil, existem brechas para o que se chama, metaforicamente, de 
escravidão contemporânea, ou seja, a compra e venda de pessoas já não existe, mas as 
condições miseráveis de vida, o pagamento inapropriado, as ameaças e as violências física e 



psicológica estão longe do fim. Para Leornardo Sakamoto, presidente da ONG Repórter 
Brasil, a quantidade de pessoas desempregadas e em situação de extrema pobreza, diminuiu o 
custo para que “empregadores” consigam encontrar pessoas que devido à necessidade se 
tornam vulneráveis e suscetíveis a trabalhar em condições degradantes. 
“[...] mais do que simples anomalia, o fenômeno do trabalho escravo 
aponta para todo um corpo doente; é a parte integrante de um novo modelo, e 
por isso cobra respostas rápidas e variadas, pragmáticas e criativas, globais e o 
mais possível contundentes. Também por isso, não exige apenas iniciativas 
oficiais, mas o esforço de todas as pessoas disponíveis. [...]” (VIANA, Márcio 
Túlio, 2006) 
Um tipo violência comum observado no que é considerado escravidão contemporânea, 
de acordo com a legislação brasileira atual, consiste em qualquer atividade realizada de 
maneira forçada e desenvolvida sob condições degradantes em que o empregador de forma 
ostensiva vigia o seu funcionário e o impede de deixar o seu local de trabalho. Segundo a 
Coordenadoria Nacional de Erradicação do trabalho Escravo (Conaete), todo expediente que 
cause prejuízos à saúde física ou mental, seja por circunstâncias de intensidade, frequência ou 
desgaste, é considerada uma jornada exaustiva.
Sabe-se que a extensão da legislação trabalhista no meio rural aconteceu há mais de 45 
anos, logo o conhecimento sobre o que é obrigação do empregador em termos de direitos 
trabalhistas e o que é considerado um crime não é algo novo. De acordo com o artigo 7º da 
Constituição Federal de 1988, está assegurado ao trabalhador dentre outras coisas: 
Art. 7º- São direitos dos trabalhadores urbanos e rurais: 
salário 
mínimo, fixado em lei, nacionalmente unificado, capaz de atender a suas 
necessidades vitais básicas e às de sua família com moradia, alimentação, 
educação, saúde, lazer, vestuário, higiene, transporte e previdência social, com 
reajustes periódicos que lhe preservem o poder aquisitivo, sendo vedada sua 
vinculação para qualquer fim. [...] (JUSBRASIL, 2019, s/p). 
Além disso, em sua grande maioria os detentores de propriedades rurais que utilizam 
da coação e da negação de liberdade para garantir suas altas margens de lucro são pessoas 



altamente esclarecidas e assessoradas por escritórios jurídicos e contábeis que, juntamente a 
seus contratantes, corroboram para a permanência desse padrão de servidão. 
São diversos os setores que utilizam trabalho forçado no mundo, dentre eles em ordem 
decrescente de atividades que mais exploram o trabalho humano são apontados, as indústrias 
que produzem aparelhos eletrônicos, as indústrias têxtil, o setor de pesca, a exploração do 
óleo de coco e o cultivo da cana de açúcar. De acordo com dados do G20 (2018), esses setores 
movimentaram mais de 354 bilhões de dólares, sendo que a Organização Internacional do 
Trabalho (OIT) estima que o lucro com a escravidão contemporânea seja o equivalente à 
soma dos lucros das quatro empresas mais rentáveis do mundo; ou seja, a escravidão 
contemporânea é, de fato, uma “fábrica de dinheiro”. 

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