Escola superior de enfermagem do porto


Apresentação dos resultados inter grupos no M0 e M1



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2. Apresentação dos resultados inter grupos no M0 e M1




Neste subcapítulo serão apresentados os resultados inter grupos nos dois momentos da aplicação do questionário (M0 e M1) relativos às variáveis: 1) Autocuidado; 2) Autoeficácia. Visa-se a análise do impacto/efeito do programa através da diferença de médias entre o momento M0 e M1 em ambos os grupos.
    1. Autocuidado



Uma das nossas hipóteses assumia que quando submetidos a um programa de educação para a saúde baseado no empowerment os utentes com DM2 apresentariam melhor comportamento de autocuidado do que aqueles que não foram submetidos a este mesmo programa.

Relativamente ao impacto do programa nos comportamentos de autocuidado, verificou-se que se obteve resultados estatisticamente significativos, no que concerne aos itens “Alimentação Geral” (p=0,03) e “Cuidados com os Pés” (p=0,02).

No item “Alimentação Específica”, constatou-se uma evolução positiva no Grupo Experimental (0,89 ± 5,15) e uma evolução negativa no Grupo de Controlo (-0,25±5,65).

Na dimensão da “Atividade Física”, observou-se uma evolução positiva no Grupo Experimental (1,69 ± 5,93) e nula no Grupo de Controlo (Tabela 9).

Na “Monitorização da Glicemia Capilar”, observou-se um efeito positivo em ambos os grupos, embora muito ligeira no Grupo de Controlo (Tabela 9).

Na dimensão “Cuidado com os Pés”, constatou-se uma evolução negativa no Grupo Experimental (-1,1±3,11) e ligeiramente positiva no Grupo de Controlo (0,91±5,75).

Por fim, no item “Medicação”, denotou-se uma ligeira evolução negativa em ambos os grupos (GE =-0,05±5,24; GC= 0,34±1,50) (Tabela 9).

Tabela 9 - Efeito do Programa “Viver em Harmonia com a Diabetes” na variável autocuidado



Variável




Grupo Experimental

M±DP


Grupo Controlo

M±DP


Sig.

Alimentação Geral

M0

10,72±4,55

14,13±3,75

0,03†



M1

13,42±3,25

13,78±3,50

Efeito (M1-M0)

2,44 ± 4,36

-0,35±3,54

Alimentação Especifica

M0

32,95±7,50

33,62±9,35



0,51†

M1

33,84±7,93

33,62±8,65

Efeito (M1-M0)

0,89 ± 5,15

-0,25±5,65

Atividade Física

M0

6,21±5,50

4,17±4,48



0,18*

M1

7,89±4,22

4,17±4,46

Efeito (M1-M0)

1,69 ± 5,93

0 ± 4


Monitorização da Glicemia Capilar

M0

4,16±4,48

3,24±4,49



0,51*

M1

5,56±4,91

4,61±5,01

Efeito (M1-M0)

1,72±3,32

0,90 ± 1,92


Cuidado com os Pés

M0

20,79±0,92

17,68±4,73

0,02*


M1

15,68±2,87

18,70±5,83

Efeito (M1-M0)

-1,1±3,11

0,91±5,75

Medicação

M0

6,95±0,23

7±0,00



0,36*

M1

6,89±0,46

6,51±1,50

Efeito (M1-M0)

-0,05±5,24

-0,34±1,50

* teste U de Mann-Whitney † teste t para amostras independes
Face aos resultados verificou-se que a hipótese foi parcialmente validada.


2.2. Autoeficácia



A segunda hipótese previa que quando submetidos a um programa de educação para a saúde baseado no empowerment, os utentes DM” apresentariam uma maior perceção de autoeficácia do que aqueles que não foram submetidos a este mesmo programa.

No que concerne à variável em estudo, na avaliação inter grupos, que pretende mensurar qual o efeito do programa “Viver em Harmonia com a DM” na perceção de autoeficácia dos participantes, observou-se um efeito positivo do programa no Grupo de Experimental com um resultado estaticamente significativo (p = 0,00), confirmando-se a hipótese anteriormente referida (Tabela 10).
Tabela 10 - Efeitos do Programa “Viver em Harmonia com a Diabetes” na variável autoeficácia




Grupo Experimental

M±DP

Grupo Controlo

M±DP

Sig.

M0

26,42±4,18

30.35±4,15

0,00*


M1

33,21±3,11

30,52±3,82

Efeito (M1-M0)

6,79 ± 5,58

0,17±3,87

*Teste U de Mann-Whitney


PARTE IV - DISCUSSÃO




A discussão dos resultados terá por base o quadro teórico e conceptual apresentado no início deste relatório, bem como a confrontação com evidências de estudos que foram desenvolvidos e publicados mais recentemente, neste mesmo âmbito. Inicia-se com uma breve contextualização do fenómeno e dos participantes em estudo, seguida de discussão das duas hipóteses de investigação inicialmente formuladas, e que orientam o propósito deste estudo.

A amostra apresenta características sociodemográficas idênticas às observadas em outros estudos, desenvolvidos com pessoas com diagnóstico de DM2. A idade média da amostra foi de 77 anos, facto que se encontra refletido no Relatório Anual do Observatório Nacional da Diabetes [CITATION SPD \l 1046 ], que demonstrou que é no grupo etário dos 70 aos 79 que se encontra uma prevalência da patologia mais elevada (27%), em comparação com o grupo etário dos 40-59 anos, com uma prevalência de 12,8%, e com a faixa etária dos 20-39 com apenas 2%. A mesma fonte (idem) acrescenta que se tem verificado um forte aumento da prevalência de DM2 com a idade, demonstrando, assim, uma correlação positiva estas variáveis.

Relativamente ao nível de escolaridade, a maioria dos elementos da amostra apenas frequentou o ensino primário. Esta característica é transversal a outros estudos, em populações com a mesma faixa etária e com diagnóstico de DM2 (Aveiro et al., 2015; Sousa et al., 2017). Vários estudos (Moeni et al., 2016; Singh & Aiken, 2017) indicam que um baixo nível de escolaridade está relacionado com níveis mais baixos de adesão terapêutica. Sousa e colaboradores (2017) afirmam que os profissionais de saúde devem conhecer as características da população, para que, desta forma, sejam capazes de elaborador/adaptar os programas educacionais ao nível da escolaridade dos participantes.

A maioria da amostra refere ter antecedentes familiares de DM, destacando, mais uma vez, o carácter hereditário da patologia. Segundo Omar (2013), a DM2 é o resultado da interação entre os fatores ambientais e uma forte componente genética. Vários estudos (Florez, Hirschhorn, & Altshuler, 2003; Omar, 2013; Tilil & Kobberling, 1986) indicam que o risco de desenvolver DM2 é de 40% para os indivíduos em que um dos progenitores apresenta diagnóstico DM2 e de 70% para aqueles em que os dois progenitores foram portadores do diagnóstico da patologia em estudo. Esses mesmos estudos (idem) indicam que indivíduos com antecedentes familiares de DM2, em primeiro grau, têm cerca de três vezes mais probabilidade de desenvolverem esta doença.

No que concerne às comorbilidades, segundo a APDP (2017), sensivelmente 40% das pessoas com DM desenvolvem complicações tardias da doença, que habitualmente se desenvolvem de forma silenciosa. No Grupo Experimental do presente estudo, verificou-se que as comorbilidades que mais afetavam os participantes eram os problemas visuais, a hipertensão e os problemas cardíacos. No Grupo de Controlo, foram obtidos resultados semelhantes, sendo que a hipertensão foi a principal comorbilidade apontada, pelos seus elementos, seguida dos problemas visuais e da colesterolemia.

As complicações referidas pela amostra vão de acordo com o Programa Nacional de Prevenção e Controlo do Diabetes (2010) que identifica a doença cardiovascular, a nefropatia, a neuropatia, a amputação dos membros inferiores e a retinopatia como complicações major da DM2. A SPD (2016) acrescenta que, em praticamente todos os países desenvolvidos, a diabetes é a principal causa de cegueira, insuficiência renal e amputação de membros inferiores.

A alteração da sensibilidade dos membros inferiores foi também apontada pela amostra como uma das principais comorbilidades sentidas. O número total de amputações dos membros inferiores, causadas pela DM, registou uma quebra significativa em 2015, apresentando o valor mais baixo desde 2000 (SDP, 2016). Molinaiere & Dauscher (2017) afirmam que cerca de 60% a 70% das pessoas com DM têm alguma forma de neuropatia e que esta deve ser prevenida através da otimização do controlo glicémico e da vigilância periódica do pé.

A SDP (2016) acrescenta que a DM2 é atualmente uma das principais causas de morte, pois está diretamente relacionada com o aumento do risco de doença coronária e de acidente vascular cerebral. O aumento dos triglicerídeos e do colesterol no sangue foi também identificado pela amostra como sendo uma das comorbilidades a afectar o estado de saúde. Segundo a Sociedade Portuguesa de Cardiologia (2016), os níveis elevados de triglicerídeos induzem uma redução dos níveis de colesterol HDL. A hipercolesterolemia é uma das principais responsáveis pelas doenças cardiovasculares, em especial do enfarte do miocárdio e do acidente vascular cerebral (idem). Cerca de 1/3 dos internamentos por enfarte agudo do miocárdio sucedem a pessoas com DM, sendo que, nestes casos, a sua letalidade é superior, quando comparada a indivíduos saudáveis (SPD, 2016).

Durante a implementação do programa, destacou-se, ao longo das sessões, que um rigoroso controlo da glicemia, da tensão arterial, do perfil lipídico, assim como uma vigilância periódica dos órgãos mais sensíveis, seria crucial para evitar e/ou controlar o desenvolvimento de complicações associadas à DM2. As mudanças no estilo de vida são absolutamente essenciais para prevenir as complicações da DM e todos os indivíduos devem ser encorajados a melhorar a sua dieta e a aumentar os seus níveis de atividade e exercício físico [CITATION Bos14 \l 1046 ]. Pode-se argumentar que a prevenção e controlo da DM2 é o primeiro passo na redução das complicações, demonstrando ser mais eficaz do que a medicação (idem).

Foi notório que a amostra sentiu alguma dificuldade em relacionar os seus problemas de saúde com a DM2, sendo que a explicação mais plausível para tal facto poderá prender-se com a falta de conhecimento ou com prévias crenças sobre as complicações associadas à DM, bem como sobre a patologia em estudo.

No entanto, a comorbilidade que os elementos da amostra referiram estar mais associada à DM2 traduz-se na perda da sensibilidade nos membros inferiores. Entre outras razões, tal situação pode ser explicada, primeiramente, pela existência de sintomatologia, o que ajuda a que a pessoa associe este problema à doença, e, em segundo, pelo conhecimento que as pessoas já detêm sobre esta problemática (quer por experiência própria, quer pelo conhecimento da experiência de outrem). Segundo Sousa (2014), o facto de alguns dos participantes conhecerem alguém que tenha sofrido esta experiência traumática, permite que a associem à DM. Esta afirmação vai ao encontro da experiência vivenciada pela investigadora ao longo da implementação das sessões do programa, uma vez que nestas foi referido, por diversos participantes, o medo de desenvolverem situações idênticas às vividas por familiares próximos que culminaram na amputação de um membro. Campos (2014) concluiu que o conhecimento que as pessoas possuem acerca da DM e das suas complicações é limitado à sua própria experiência ou à vivida por pessoas próximas. 

Puffelen e colaboradores (2015) desenvolveram um estudo que visava analisar a correlação entre as representações de doença e o autocuidado na DM2. Selecionaram uma amostra de 192 utentes com diagnóstico de DM2, residentes na Holanda, e aplicaram as escalas “Illness Perception Questionnaire (IPQ-R)” e “Summary of Diabetes Self-Care Activities (SDSCA)”, ambas adaptadas para a população em estudo, bem como um questionário que permitia aos participantes identificar as suas comorbilidades. Os autores (idem) constataram que indivíduos com DM2, quando assintomáticos e/ou sem comorbilidades associadas, tendem a apresentar mais dificuldades em perceber a sua condição de saúde e a apontar mais obstáculos às mudanças de estilo de vida necessárias. Um grande desafio para os profissionais de saúde é educar estes indivíduos sobre a importância do autocuidado. Desta forma, é possível afirmar que as crenças de saúde influenciam a adesão das pessoas ao seu regime terapêutico (Puffelen et al.,2015).

Relativamente às crenças de saúde da amostra, verificou-se, no Grupo Experimental, após a implementação do programa, que os participantes percecionaram significativamente um maior “grau de preocupação com a diabetes”. Este dado está em concordância com o estudo desenvolvido por Sousa e colaboradores (2017), no qual os autores afirmam que este tipo de programas permite aos participantes adquirirem uma maior perceção do impacto que a DM2 tem no seu dia-a-dia e, por esse motivo, observa-se um aumento do distresse emocional após o programa, o que vai, também, ao encontro da evolução positiva do item “Até que ponto a sua diabetes o (a) afeta emocionalmente?”.

No Grupo Experimental denotou-se que, após o programa, a perceção dos utentes sobre a durabilidade da DM2 foi alterada, observando-se que um maior número de participantes passou a considerar a sua patologia crónica. Sousa (2014) afirma que uma maior informação sobre a doença pode, também, justificar a inexistência de dúvidas quanto à sua cronicidade.

Segundo Rossi e colaboradores (2015) e Zoffmann & Kirkevold (2012), a crença do indivíduo em relação ao controlo, compreensão e gravidade da patologia influencia diretamente a sua predisposição para o autocuidado e para as mudanças necessárias no seu estilo de vida. Esta relação pode ser compreendida através do Modelo de Autorregulação desenvolvido por Leventhal, Meyer & Nerenz (1980) que postula que, quando os indivíduos enfrentam situações ameaçadoras como doenças crónicas, tendem a gerar, emocionalmente, representações cognitivas da doença que influenciam as suas ações em relação ao tratamento.

Kugbey, Asante, & Adulai (2017) desenvolveram um estudo transversal que pretendeu analisar a correlação entre os comportamentos de autocuidado com as crenças de saúde e os conhecimentos sobre a DM2, através da aplicação de um instrumento de colheita de dados. A amostra foi constituída por 160 utentes com DM2, residentes no Gana e vigiados em consultas em meio hospitalar. Os autores (idem) concluíram que as práticas de autocuidado eram diretamente influenciadas pela perceção da doença e pelo nível de conhecimento.

Também Nie e colegas (2017) desenvolveram um estudo semelhante, com uma amostra de 304 utentes com DM2, a serem vigiados em três hospitais na China. O mesmo pretendeu relacionar as crenças de saúde com os comportamentos de autocuidado. Os autores chegaram a resultados semelhantes aos supra expostos, acrescentando, no entanto, que é crucial explorar as crenças de saúde nos programas educacionais para utentes com DM2, pois estas encontram-se diretamente relacionadas com os comportamentos de autocuidado, influenciam a perceção de risco e as respostas emocionais, afetando a adesão ao tratamento. Estes dados sustentam a decisão da investigadora em explorar as crenças dos participantes, mesmo que estas não tenham constituído um objetivo claro do estudo, nem uma hipótese de investigação. No entanto, foram utilizadas como base para adequação dos conteúdos do programa às necessidades dos seus participantes e foram trabalhadas e discutidas ao longo do desenrolar das sessões.

No que concerne aos marcadores clínicos, no Grupo Experimental obteve-se uma evolução positiva dos valores da TA, com resultados estatisticamente significativos apenas na TA sistólica (p=0,048). Considera-se que este resultado poderá ter sido fruto do trabalho de sensibilização desenvolvido ao longo do programa sobre a importância de adotar uma dieta saudável baseada nos alimentos extraídos da terra, sem aumentar consideravelmente o orçamento da família. Acredita-se, também, que este resultado poderá estar relacionado com o incentivo e sensibilização para a prática de exercício físico. No entanto, é importante ressalvar que o valor de significância obtido foi extremamente baixo, o que pode ser explicado pela curta duração do programa “Viver em Harmonia com a DM” e pelas oscilações normais a que o valor da TA está sujeito no dia-a-dia de cada indivíduo. Segundo Mancia (2012) e Parati e colaboradores (2013), a TA varia constantemente ao longo de 24 horas, em função de fatores fisiológicos, comportamentais e ambientais. Estas oscilações tendem a aumentar com a idade e são mais prevalentes em indivíduos hipertensos (idem).

Segundo a DGS (2013), os valores da TA, para a generalidade da pontuação devem ser inferiores a 130/80 mmHg. No Grupo de Controlo, os valores observados encontravam-se ligeiramente elevados, o que poderá ser justificado pela idade da amostra, pela sua patologia de base e pelo facto de se poderem sentir mais nervosos por estarem perante um profissional de saúde no momento da medição.

Relativamente ao perímetro abdominal e ao IMC, em ambos os grupos, não se obtiveram resultados com significado estatístico, o que pode ser explicado pela curta duração do programa. Segundo as diretivas da DGS (2013), para o controlo metabólico ideal, o IMC deve ser inferior a 25 kg/m2 e o perímetro abdominal, no homem, deve ser inferior a 94 centímetros, e, na mulher, inferior a 80 centímetros. Verificou-se que, em ambos os grupos, os seus elementos apresentam valores acima do desejável, sendo que a amostra era maioritariamente obesa. Esta característica é predominante em indivíduos com DM2, pelo que se estima que 80 a 90% dos indivíduos com diagnóstico de DM2 são obesos (Diabetes Uk, 2017).


Hipótese 1: “Quando submetidos a um programa de educação para a saúde baseado no empowerment, os utentes com DM2 apresentam melhor comportamento de autocuidado do que aqueles que não são submetidos a este mesmo programa.


No que concerne à variável autocuidado, analisou-se os resultados obtidos no M0 e M1, intra e inter grupos, para, desta forma, analisar o impacto e o efeito do programa na variável em estudo.

Relativamente à dimensão “Alimentação Geral”, obteve-se um resultado estatisticamente significativo, tanto na avaliação intra como inter grupos. Foram encontrados resultados semelhantes em outros estudos, nomeadamente num estudo desenvolvido por Sousa (2017) e num outro desenvolvido por Cortez e colaboradores (2017). Neste último, foi realizado um ensaio clínico randomizado, com utentes diagnosticados com DM2 entre os 30 e 80 anos, vigiados em dez unidades brasileiras de saúde pública durante os anos 2014 e 2015. Os autores (idem) desenvolveram um programa educacional baseado no empowerment, e aplicaram a intervenção no Grupo Experimental, enquanto o grupo de controlo continuou a receber apenas tratamento convencional.

Considera-se que os resultados obtidos neste item foram alcançados através da abordagem adotada, nomeadamente, das estratégias trabalhadas no âmbito da equivalência de hidratados de carbono e da comparação nutricional entre alimentos, consoante o regime e preferências alimentares de cada participante. Mais concretamente, todos os participantes foram convidados a descrever as suas últimas refeições e a realizar uma análise crítica sobre as mesmas, contribuindo, assim, para o desenvolvimento de um pensamento crítico e de uma maior capacidade de tomada de decisão consciente na gestão da sua alimentação.

No que concerne ao item “Alimentação Específica”, observou-se uma evolução positiva na avaliação intra e inter grupos, no entanto, sem significado estatístico. Por este motivo, considera-se pertinente, na implementação de programas futuros, abordar a questão da alimentação em mais do que uma sessão, de modo a permitir aos participantes, não só uma maior consolidação de conhecimentos, como também a desmitificação de alguns conceitos e crenças.

Na dimensão do “Exercício Físico”, na avaliação intra grupos, observou-se uma ligeira evolução positiva em ambos os grupos. Porém, quando se avaliou o efeito do programa inter grupos, no Grupo de Experimental, constatou-se que este foi bastante positivo, enquanto que, no Grupo de Controlo, foi nulo. Estes resultados podem estar relacionados com os baixos níveis de autocuidado apresentados, o que, por sua vez, será consequência não só da idade dos elementos da amostra, mas também da presença de patologias do foro músculo-esquelético. O facto de o exercício físico ser uma das componentes do regime de autocuidado em que as pessoas experienciam mais dificuldade corrobora as conclusões já alcançadas noutros estudos (Bastos, Severo, & Lopes, 2007; Sousa et al., 2017; Sousa, Peixoto, & Martins, 2008).

De forma a promover a interiorização, por parte dos participantes, dos benefícios da prática de exercício físico, foi promovida uma caminhada e avaliados os valores da glicemia capilar antes e depois da sua realização. Foram também discutidas formas de enquadrar o exercício físico no quotidiano de cada participante, encontrando estratégias para enfrentar as diversas limitações físicas e obstáculos de cada um. Assim, e de acordo com os objetivos do programa, foram mobilizados recursos internos que permitam que as pessoas, face a um problema, encontrem soluções alternativas. Desta forma, foi promovida a consciencialização que a prática de exercício físico é um pilar essencial do tratamento da DM2.

A APDP (2017) recomenda que seja realizado, no mínimo, 150 minutos de exercício físico por semana, e que este seja distribuído ao longo dos vários dias. Para indivíduos com limitações físicas aconselha-se a prática de exercício de baixa intensidade, como caminhadas em superfícies planas, de 30 minutos de duração. Esta informação vai de encontro às recomendações da ADA (2017), que acrescentam que o indivíduo com DM2 não deve estar mais de dois dias seguidos sem praticar exercício físico, e que, no caso de não existirem outras complicações ou patologias associadas, é recomendado o treino de resistência e de alta intensidade, duas vezes por semana. Estas recomendações estiveram na base da decisão da investigadora em promover uma caminhada, em detrimento de outras práticas de exercício físico.

No que diz respeito à “Monitorização de Glicemia Capilar” foi obtido um resultado estatisticamente significativo no Grupo Experimental, na avaliação intra grupo (p=0,03). Pelo contrário, quando se realizou a avaliação inter grupo, verificou-se uma evolução positiva da variável em ambos grupos, porém, sem significado estatístico. No estudo desenvolvido por Sousa e colaboradores (2017) também não foram encontrados resultados com significado estatístico neste parâmetro.

É importante realçar que, recentemente, tem sido discutido qual a pertinência e frequência adequada para a auto monitorização da glicemia capilar, e se este parâmetro realmente carateriza o autocuidado em utentes com DM2, a realizar ADO.

A ADA (2016) indica que esta prática é aconselhada para utentes com DM2 nas seguintes condições: 1) utentes insulinotratados; 2) durante a gravidez; 3) em caso de descontrolo metabólico; 4) hipoglicemias; e 5) hiperglicemias com alterações dos corpos cetónicos. No entanto, ressalva que a prática deste autocuidado deve ser avaliada individualmente, consoante os objetivos e necessidades de cada utente (idem). A ADA (2016) reforça a importância de explicar ao indivíduo que os resultados medidos podem provocar sentimentos de tristeza e frustração e que os mesmos não devem ser utilizados como uma forma de julgamento, mas sim como uma forma de validar a adequação do regime terapêutico.

Aquando da implementação do programa, pelos motivos supra expostos, foi discutido, com cada um dos participantes, qual seria a melhor forma de monitorizar os seus níveis de glicemia, sendo que de tal procedimento não decorreu, necessariamente, num incremento no número de vezes em que a monitorização foi efetuada, visando, ao invés, que esta fosse o mais adaptada possível aos interesses/características de cada utente, assim como às indicações dadas pelo seu médico de família. No estudo desenvolvido por Sousa e colaboradores (2017) a estratégia utilizada foi idêntica.

As oscilações que se observaram em ambos os grupos, e nas diferentes avaliações poderão ser explicadas pelo tamanho reduzido da amostra e pelo facto de a escala utilizada se referir apenas aos últimos sete dias.

No que concerne aos “Cuidados com os Pés”, constatou-se a existência de elevados níveis de autocuidado, uma vez que a média semanal de vigilância do pé rondou, no Grupo Experimental, os sete dias por semana e, no Grupo de Controlo, os seis dias, em ambos os momentos (M0 e M1). Esta evidencia, poderá ter estado relacionada com a existência de uma “Consulta de vigilância do pé” na USF onde decorreu o estudo, da qual a sua regular frequência poderá manter sensibilizada esta especifica população para este cuidado em saúde.

No entanto, na avaliação intra e inter grupo, observou-se uma ligeira evolução negativa da variável no Grupo Experimental. Esta situação poderá ter estado relacionada, não só com a pequena dimensão da amostra, mas também com o facto da escala utilizada se referir apenas aos cuidados realizados nos últimos sete dias, de onde uma única lacuna neste cuidado por parte de um elemento deste grupo poderá ter sido responsável por tal resultado. Sugere-se, em programas futuros, a realização de uma sessão dedicada ao cuidado com o pé, por forma a consolidar os conhecimentos e aumentar a perceção de autoeficácia dos participantes nesta área do autocuidado.

Relativamente à “Medicação”, foram, também, observado elevados níveis de autocuidado em ambos os grupos, com uma média semanal de adesão de cerca de sete dias por semana. De facto, esta é a área do tratamento onde as pessoas experienciam maior adesão, sendo que tal pode ser explicado, por um lado, pela valorização da medicação em relação aos outros componentes do autocuidado, e, por outro lado, pelo facto de ser uma prática que exige poucas alterações nos hábitos de vida. Estes resultados corroboram, mais uma vez, o estudo desenvolvido por Sousa e colaboradores (2017), que mencionam que os comportamentos que não colidem com o estilo de vida da pessoa são aqueles onde habitualmente a adesão é mais elevada. Os autores acrescentam (idem) que este valor poderá, ainda, estar relacionado com a valorização da medicação em detrimento dos outros componentes do regime terapêutico, quer por parte da pessoa, quer por parte dos profissionais.

As ligeiras evoluções negativas desta variável, de carácter não significativo em termos estatístico verificadas, tanto no Grupo Experimental como no Grupo de Controlo, poderão ter estado relacionadas não só com a pequena dimensão da amostra, mas também com o facto da escala utilizada se reportar ao escasso tempo de avaliação de sete dias.

Em síntese, é possível concluir que o programa implementado permitiu que os seus participantes tenham adquirido melhores comportamentos de autocuidado, nomeadamente, no que diz respeito aos hábitos alimentares, quando comparados com o Grupo de Controlo, que não foi submetido a qualquer intervenção por parte da investigadora. Desta forma, é possível afirmar que, quando submetidos a um programa de educação para a saúde baseado no empowerment, os utentes com DM2 apresentam melhor comportamento de autocuidado em alguns componentes do autocuidado do que aqueles que não são submetidos a este mesmo programa, corroborando, parcialmente, a primeira hipótese de investigação.


Hipótese 2: Quando submetidos a um programa de educação para a saúde baseado no empowerment os utentes com DM2 apresentam uma maior perceção de autoeficácia do que aqueles que não são submetidos a este mesmo programa





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