Entre memória e história: o sítio histórico terreiro de Pai Adão através da perspectiva de Pierre Nora “lugares de memória”



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Cultural, visto que, hoje, novas abordagens e desafios, objetiva discutir

a problemática do patrimônio histórico e o universo que o norteia.

Com esse intuito, analisamos, inicialmente, como o conceito de

patrimônio foi sendo construído por nossa sociedade, no decorrer do

tempo e do espaço.

Analisar o Terreiro de Pai Adão como patrimônio é também

se voltar para sua relevância social, logo, valorizá-lo e interpretá-lo

como relação entre o patrimônio e a cidadania, ressaltando os aspectos

sobre a educação patrimonial e a importância da existência daquele

Terreiro, naquela localidade, contemplando as discussões sobre a

relação entre Patrimônio e História, evidenciando como foram criadas



Ano 1 • N. 1 • jan./jun. 2010 - 53

as políticas públicas para a preservação do patrimônio cultural no Brasil

e em Pernambuco, criando aspectos pertinentes à relação entre memória

e patrimônio e como esse Sítio está inserido nessa discussão.

Para entendermos melhor, a noção de patrimônio pode variar

de acordo com o contexto sóciocultural vivido pelas sociedades. Alguns

o enxergam a partir de suas categorias de pensamento, sejam elas a

economia, história, cultura, religião. Muitas vezes, inclusive, é confundido

com a noção de propriedade pura e simples. Outros podem percebê-

lo como mágico, espiritual e, portanto, sem fronteiras.

Baseados nesse pensamento, a Constituição da República

Federativa do Brasil define o patrimônio cultural como o conjunto de

todas as formas de expressão; de seus modos de criar, fazer e viver;

das criações científicas, artísticas e tecnológicas; das obras, objetos,

documentos, edificações e demais espaços destinados às manifestações

artístico-culturais; e dos conjuntos urbanos e sítios de valor histórico,

paisagístico, artístico, arqueológico, paleontológico, ecológico e

científico.

Assim por se entender que o Terreiro de Pai Adão se enquadra

perfeitamente nos parâmetros que cerne o que vêm a ser patrimônio

cultural, em 5 setembro de 1985 o decreto n. 10.712, homologou a

Resolução do Conselho Estadual de Cultura, de tombamento do

Terreiro de Obá Ogunté, mais conhecido por Terreiro de Pai Adão. E

ainda sob a perspectiva de Nora, entendemos que o Terreiro de Pai

Adão, com seus cultos tradicionais da Nação Nagô, não faz mais parte

do cotidiano do bairro de Água Fria, mas permanece vivo e forte na

história recente da Cidade de Recife e do Estado de Pernambuco.

Portanto, é de fato, sem a menor dúvida, um lugar de memória daqueles

que vivem em seu entorno e dos que ainda participam efetivamente

dos eventos.

Assim, se o objeto ou fato que habitasse nossa memória fizesse

parte ainda do cotidiano, não haveria necessidade de se consagrarem

lugares para ele, o cotidiano se incumbiria da responsabilidade de

mantê-lo vivo. Dessa forma, a Memória é a vida levada por grupos em

evoluções permanentes abertos à dialética da recordação e da amnésia

inconsciente.

As religiões de matrizes africanas em Pernambuco sempre

foram conhecidas pelo apego às tradições. A originalidade dos cultos,




54 • U

NIVERSIDADE

 C

ATÓLICA


 

DE

 P



ERNAMBUCO

das vestimentas, dos rituais no sentido de preservarem e perpetuarem

através da tradição oral, passada de gerações mais velhas às mais

novas, os ensinamentos trazidos para o Brasil pelos seus ancestrais

africanos. No entanto, a dinâmica evolutiva e a aceleração do passado,

devido à rapidez das informações, fez com que o cotidiano dessas

religiões, seus cultos e celebrações, ocupassem, involuntariamente, um

lugar de memória, mesmo na consciência dos praticantes mais

dedicados.

Os debates estabelecidos ainda na década de 1920,

principalmente pela intelectualidade que girava em torno de Gilberto

Freyre com o movimento “Modernista a seu modo tradicionalista”,

reforçavam a tradição. O Manifesto Regionalista escrito por Freyre,

em 1926, demonstra bem essas ideias. Contudo, é fato que hoje já

não se vê nas tradições e suas  práticas e costumes em questão no

cotidiano dos afro-brasileiros, salvo em lugares de memória a eles

atribuídos, em nosso estudo, o Sítio do Terreiro de Pai Adão.

No decorrer do século XX, os estudos sobre essas religiões

de matriz africana, mais conhecidas a partir da década de 1930, como

Xangôs, bem como seus espaços físicos, tomaram uma importância tal

na antropologia que vai caracterizar (formar) uma escola especializada

nesses estudos. Ulysses Pernambucano (1932), Gilberto Freyre (1988),

Waldemar Valente (1955), Gonçalves Fernandes (1937), Vicente Lima

(1937), René Ribeiro (1952), Roberto Motta (1977-1978), Maria do

Carmo Brandão (1986) são alguns nomes que podemos citar como

construtores, digamos assim, de uma antropologia afro-pernambucana.

Esse apego à tradição, tanto presente na fala dos antropólogos

como na dos praticantes das religiões de matrizes africanas, fortalece

ainda mais nossos embasamentos na questão da preservação desses

eventos, devido à grande preocupação dessas classes distintas em

preservá-las, caracterizando, assim, de maneira contundente, a falta

de cultos afros no cotidiano, fazendo-se necessário o resgate das origens

e tradições do xangô pernambucano, através de um local em que

possam ser depositados esses fragmentos do passado. Sem dúvida,

para nós, após essa análise, o Sítio de Pai Adão é a mais importante

representação espontânea e expressão de lugar de memória dessas

religiões.


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