Entre memória e história: o sítio histórico terreiro de Pai Adão através da perspectiva de Pierre Nora “lugares de memória”



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Key-words: history, memory, religion.

Em consequência do processo de escravidão, a religião dos

negros passou a ser vista pelas elites brasileiras como estratégia de

Professor de História, Especialista em Patrimônio Histórico e Mestrando em Ciências



da Religião pela UNICAP. E-mail: campello.alexandre@ig.com.br.


46 • U

NIVERSIDADE

 C

ATÓLICA


 

DE

 P



ERNAMBUCO

resistência social e cultural ao sistema de dominação existente. Nascem,

a partir daí, os mecanismos para justificar as técnicas de repressão, ou

seja, da mesma forma que se justificava a escravidão do negro, pela

sua condição de bárbaro, justificava-se a perseguição a suas religiões,

por serem fetichistas, animistas, e contribuidoras para a propagação

de elementos dissolventes da sociedade.

No processo de legitimação e de integração social dessas

práticas religiosas, a resistência às tentativas oficiais de destruí-las se

manifesta, em diversas ocasiões e sob diferentes formas. Inúmeros atos

de rebeldia estão registrados na Delegacia de Ordem Política e Social,

o que leva a acreditar que os afro-brasileiros não foram agentes passivos

diante do autoritarismo que marcou o período.

Dentro do amplo quadro dos contatos de raças e culturas

que caracterizaram a formação das sociedades atuais na América, a

persistência de crenças e rituais das religiões negras (...) tem sido objeto

de particular interesse de um bom número de investigadores (RIBEIRO,

1982. p. 193).

O psiquiatra e antropólogo René Ribeiro, no texto acima,

aponta a preocupação, por parte dos estudiosos, de entender a

influência das religiões de origem africana na América.

Além de René Ribeiro, muitos estudiosos se preocuparam

em explicar as estratégias de resistência dessas práticas religiosas.

Waldemar Valente (1995), ao tratar do assunto, atribui, como estratégia

dos negros, o fenômeno do sincretismo religioso. Para o autor, os negros

recebiam a religião Católica como uma espécie de anteparo para

esconder ou disfarçar, conscientemente, os próprios conceitos e rituais

religiosos (idem. p. 114-15).

Sendo assim, a posição que separou negros e brancos, a

partir do regime escravista, nunca excluiu os intercâmbios cultural e

religioso. Ao mesmo tempo em que os negros tentavam resistir aos

padrões religiosos católicos, tomando como base as suas crenças,

foram obrigados a adaptá-las aos ambientes natural, social e político

em que viviam. Resistência e assimilação são, portanto, fenômenos

interligados, nesse caso específico.

Atendendo a esse fato é que vemos, no negro (afro-brasileiro),

um exemplo de bravura e resistência, pois, apesar das imposições de

uma sociedade elitista, segregadora e tradicional, ele se manteve firme,




Ano 1 • N. 1 • jan./jun. 2010 - 47

conservando, mesmo de forma oculta, a sua crença, preservando a

sua fé, conseguindo, dessa forma, fazê-la presente em todo o país nos

dias atuais, despertando a admiração e até mesmo atraindo aqueles

que tanto as combateram, mesmo que sendo apenas por curiosidade,

ou para objeto de estudo sobre a religiosidade e a cultura afro.

Para combater esse ato de resistência, veremos surgir, em

agosto de 1931, o Círculo de Estudo da Mocidade Acadêmica, cujos

sócios pertenciam aos quadros da Congregação Mariana e que dele

irão surgir as primeiras lideranças católicas, dentre os quais destacamos:

Luís Delgado, Nilo Pereira, Manuel Lubambo, sendo o último diretor

da Revista Fronteiras, um dos principais instrumentos utilizados para a

defesa das tradições cristãs, exercendo uma forte influência nos meios

conservadores, pelos seus temas nacionalistas, religiosos e

anticomunistas. Lubambo, através da referida revista, “Declara guerra

de morte as forças ocultas, que tentaram desmoronar o movimento

espiritual do Brasil a deturpação de sua verdadeira história, pelo

denegrimento de seus heróis” (REVISTA Franteiras, junho de 1940,

p. 21/ secção: Letras, Artes Ciências).

Para justificar essa perseguição, dizia-se que “a proliferação

de seitas africanas entre os indivíduos de cor das camadas populares

da sociedade, de proselitismo nocivo a nossa cultura, era propícia às

idéias dissolventes da nossa civilização”.

Através dessa perspectiva, a atividade de tais seitas, revivendo

formas rudes e exóticas de veneração que se dizia religiosa, permitia

toda sorte de exploração de gente inculta, afetando, sensivelmente, a

moral, a saúde e o sossego público. Portanto, o seu funcionamento era

sujeito a uma licença e a um rigoroso regime de fiscalização permanente

da polícia.

Diante desse estado nacionalista e tradicional, adotado por

esse grupo de intelectuais, destacamos as palavras do embaixador de

Portugal, Nobre de Melo, que, de passagem pelo Recife, concedeu

entrevista a Guilherme Auler (jornalista da Revista Fronteiras), dando

ênfase a tal movimento repressivo. Disse ele: De última hora estão






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